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“Silicon Valley”: Resistência à Interpretação

O artigo de Gillian Tett, intitulado “The Science Interview: Jared Diamond” e disponibilizado no passado dia 11 de Outubro no Finantial Times, não pode deixar de me lembrar uma questão que tem sido, em mim, mais ou menos recorrente. Em conversas que tive e textos que escrevi no passado recente: uma necessidade de mundo. De complexificação temática, terminológica e linguística. Predomina, principalmente nas redes sociais, a troca de “informação” em inglês, a quase ubiquidade dos estudos de Harvard, a venda de uma ideologia que, mais do que uma “revolução”, se assemelha a uma espécie de evolução – no seu significado intermédio: mais ou menos neutro; não totalmente progressista; visto como continuidade – de um estado anterior. Agora: um pouco mais arbitrário e confuso. Com epicentro em Sillicon Valley. Não é tanto uma “globalização” cultural que encontramos. Mas, em certo sentido, uma multiplicação do marketing personalizado. “Espremido” pelo espírito publicitário de retorno insuficiente. A tentativa de concentração das vontades globais na “indústria de conteúdos”. Na “criatividade” tecnológica e cientifica. Com os olhos postos em resoluções, civilizacionais e económicas, de curto prazo. Precisamos, por esta razão, de “tempo”. De impulsos opostos. Grelhas de interpretação, humana, literária e mediática, contrastantes.

Já não é o “crescimento perpétuo” catequizado, nas últimas décadas, através dos meios de comunicação social que mobiliza, agora, as ilusões. Mas, em certo sentido, o “estertor” – decepção disfarçada – de si mesmo. Precisamos de “nichos”, “to think out of the box” – e, contudo, tal configura toda uma nova caixa -, de “innovation”. Para a possível sobrevivência individual. Modelo descaracterizante de identidades regionais e nacionais. Como se faz à custa do enfraquecimento do papel do estado. O cidadão è abandonado à “responsabilidade pessoal”. O super homem na solidão. À volatilidade darwinista da “criação a partir do caos”. Do caos a partir da criação. Instaura-se, assim, a insegurança perpétua. Para que possa mostrar aos mercados que é “criativo”.

Posição que não deixa, afinal, de ignorar todo um conjunto de visões “dissidentes”. Avessas a, precários, “novos modelos de negócio”. Apesar da interminável economia da “opinião”. Que prolifera e os defende: evitando, assim, a interpretação externa. – quebrando a aparência democrática -. Se não estiver, inteiramente, de acordo com as doutrinas, maioritárias, do momento. Interpretar, linguisticamente, significa, mais do que antes, retirar poder.

Olhando, ainda e sempre, para os alvos “tradicionais” – expressão que, actualmente, quase constitui ofensa e um anátema – por razões económicas, geracionais ou identitárias: não olhamos para cima nem olhamos, verdadeiramente, para a rede. O que impede a formação de alternativas. Criando obstáculos à identificação de problemas e questões que são já actuais. Que se avolumam não só devido à velocidade com que se desenvolvem as estruturas digitais. Mas também devido a uma banalização da expressão e da representação jornalistica. Das humanidades.

O domínio, comunicacional, do inglês, como esperanto, reduz e simplifica. Não permite variações significativas. Culturas que, em certa medida, são relegadas para segundo plano. A competição pela chamada de atenção mediática ocorre, hoje e mais do que nunca, a nível internacional. Não vale a pena escrever ou “pensar” em espanhol se o objectivo – e cada vez mais o é – for, principalmente, carreiristico. Se o número de seguidores no Twitter, ou em qualquer outra rede social, for primeira condição. Os meios de comunicação espanhois ou oriundos da América Latina não olham a ultra – globalização actual, apesar do inevitável “contágio”, com a benevolência de um norte- americano. Os franceses Le Monde Diplomatique ou o Le Figaro não valorizam – chegando à resistência -, da mesma forma e apesar da crise económica e financeira, os “resultados imediatos” ou a quantificação estatística – este futuro eliminador de perguntas -. É toda uma outra modelagem. Forma de estar que, apesar do “progresso”, convém aprender, apreender e preservar. Sem, contudo, nos ficarmos por aqui. Há todo um idioma interior a recuperar.


O “processo” contra Lana Del Rey

O que é que cintila? O que é que se apresenta como estranho e, por esta razão, provoca irritação? O que a “isola” e se distingue em Lana Del Rey – ignorando, no texto presente e apesar de constituir assunto relevante, o “facto” de simbolizar, ou não, “produto da indústria” – para que seja o alvo, escolhido, do momento? Surgiu uma intuição: uma certa aparência de distância. Não se assemelhar à outra “embalagem”, mais furtiva e mediática, da “estação”: a do grupo indefinido, sorridente, “colaborativo”, com pose modesta e gesto inofensivo. Uma gama, mais polida e sofisticada, de elaboração publicitária.

As acusações, marcadas e agressivas, de “falsificação”, “embrulho” ou “falta de autenticidade” são importantes de um ponto de vista que discutirei em artigo que será, a partir deste, continuação. Fazem, contudo, menos sentido num universo cultural onde o que impera é, exactamente, a fabricação. Se fosse essa a questão: Avril Lavigne – com toda uma máscara punk –, no reino da “pureza” do avatar, não teria, propriamente, “sobrevivido”. Passou no “teste”. Apesar da continua mutação. Faz sentido: parece, no fundo, banal e comum. Não perturba. O “erro” daquele tipo de avaliações e justificações – para melhor se poder atacar – é o de tentar iludir com a superfície. Radica em pretender considerar a “normalidade” ou a “humildade”, geralmente e no cosmos digital, como, basicamente, verdadeiras. Não apreendidas como aquilo que também são: invólucros porque exigências – passageiras, moralistas – do presente. Cuja manifestação não escapou, como sempre, ao marketing musical. A indiferenciação e, não raras vezes, a auto-negação são sobrevalorizadas. Não ofendem. Por isso: vendem melhor. No fundo: é menos “liberdade” do que se pretende propagandear. Há, claro e adicionalmente, a questão – intemporal; embora, por agora, quase “ideológica” – da inveja. Que olha, indiscriminadamente, para qualquer tipo de “corporação” como manifestação daquilo que gostava mas não consegue ter. “Nada para ninguém”. Mas desde quando existe “verdade”? Ou “realidade pura”? Se a vida humana é “representação”: fará sentido exigir-se exageradamente, ainda por cima da música pop, que não seja fantasia; “construção”? Apenas porque a tática e o fingimento pretendem assemelhar-se, agora e convenientemente, a uma “naturalidade”? Para que nos “aproximemos” de forma postiça? Mais falsos mas nivelados.

“Não existe” reflexo mais significativo desta obsessão pela fama do que Lady Gaga. Também, aliás, já com “inquérito” a decorrer. Aqui – admito – parece existir uma urgência por parte da cantora para tal se concretizar. Há “fantasma” sobre o tema, nas letras e no imaginário, no primeiro disco, de forma nada subtil, intitulado “The Fame”. Toda uma vitimização intercalada com um desejo, mais ou menos desesperado, em se atingir “o patamar”. Algo que, em lágrimas, chegou a confessar. É, exactamente e na minha opinião, a identificação por parte de um público, angustiado com a questão, que lhe confere visibilidade.

A época actual expandiu e distribuiu os tiques característicos da sociedade do espectáculo pré- internet. Mas, por esta razão, diminuiu as possibilidades de concretização do sucesso, individualmente, idealizado. Vendem-se menos discos. Restringiu-se a capacidade de mitificação. “Há”, portanto, que eliminar a “pretensão”. Se “toda a gente” participa: não poderá haver espaço para a “presunção”. Poder-se-ia chamar a isto: uma questão de “igualdade”. Contudo: estamos, em determinadas ocasiões, bem longe de se atingir os “direitos iguais”. Pelo contrário: a livre expressão é, socialmente, não muito permitida. “Direitos iguais”, na minha concepção, significa tolerância perante a inconstância, a variedade. Limitamo-nos à “igualdade”.

A rede social, a integração do leitor e usuário no jornal digital, a dinâmica de conversação através da “conectividade” tornaram mais visíveis – através de um, sôfrego, movimento, perpétuo, de escrutinio – esta necessidade de “demolição”.

Lana Del Rey é, também por este motivo, o mais recente objecto de santificação para se atingir a crucificação.. Um artista, “anteriormente” menos “condenado” à imediatez informativa e cultural, tinha, pelo menos, “espaço” para a edificação de um conceito mais alargado. Para uma, mais disponível, apreciação no espaço público. Contudo: o moralismo, a intolerância face ao que ousa mostrar-se como pouco integrado, os vestígios de uma sociedade menos democrática do aquilo que costuma aparentar, mais tarde ou mais cedo, acabariam por contra- atacar.

A ãnsia, generalizada, para se estar do outro lado do ecrã – que se veio a confirmar com o desenvolvimento, na internet, de toda uma gigantesca “indústria de conteúdos” -, as necessidades, puramente económicas, de um tipo de jornalismo que tinha deixado de o ser – convertendo-se em distribuidor do boato e do rumor – faziam o trabalho essencial. O “extravagante”, o “excêntrico” ou o “isolado”, adquirindo notoriedade, acabariam “julgados”, discriminados, subjugados pela droga; pelo álcool, algumas vezes presos, outras vezes mortos.

Mas neste momento “não se pode” esperar. O “linchamento” ocorre – em maior quantidade – à velocidade do fluxo noticioso. Não interessa tanto se Lana Del Rey desafina mais nesta, ou naquela, actuação. Parece-me, contudo, relevante que seja alvo seleccionado. Importa, por isso, questionar. A não ser, claro, que, para nos sentirmos mais elevados, nos dê, também, algum prazer. O álbum de estreia, Born to Die, foi editado nos últimos dias de janeiro de 2012. Mas o “caso” já foi iniciado. “Tem”, constantemente, que se justificar: “Mine is an unusual situation because I’m not naturally a polarizing or controversial person. And what I sing about is actually pretty balanced, pretty normal”, segundo uma entrevista dada à estação de rádio KROQ de Los Angeles. Sempre foi assim. Martela-se, apenas, agora com mais força. Com a ajuda de mais gente. Parece-me: de gente que se tornou, um pouco, mais feroz. É o lado negro do “espírito de colaboração”.

 Afonso Duarte Pimenta


“Conectividade” limitada: “igualitarismo” informativo e ilusão democrática

É o momento para sermos exigentes: o ponto em que promessas, por vezes, um pouco vagas e, em certos casos, bastante ilusórias, sobre comunicação e “liberdade”, nos parecem asseguradas.

A rede social promove e desenvolve a, muito, publicitada “conectividade”. Não lhe confere, contudo, qualidade no que respeita ao “conhecimento” – à “informação” – que distribui. Em tempos de “curadoria” – do “jornalista- cidadão” – levanta-se a necessidade de uma “educação para a fonte”: para a leitura, completa, do artigo, da notícia ou reportagem. Antes da, respectiva, postagem. Para que se evite, o mais possível, “a conversa”, simplesmente, em redor do título ou da leitura em estilo “diagonal”; o comentário, irreflectido e impulsivo, motivado pelo desejo de “participação”.

Nada se constrói com um fluxo, ininterrupto, que descure a selecção. De nada serve, para uma observação, objectiva, da realidade, somente “comunicar”. “Exige-se”, ao mesmo tempo em que aumenta a produção e a circulação, numa internet que se agiganta, diáriamente, com, múltiplas, perspectivas e “conteúdos”, um certo travão e, algum, refrear: o “regresso” da “edição”.

É comum o “ódio” ao jornalista, o de aparência mainstream, na caixa de comentário. Como também o é a, demagógica e conveniente, defesa da “internet” contra aquilo que é denominado, artificialmente – não sem prazer e desprezo -, como “jornalismo tradicional”. Como se aquela se fizesse, ou actuasse, apenas por si. Não devido a uma intervenção humana. Como se fosse batalha, imprescindível, em nome de uma noção, muito confusa e baralhada, de “igualdade”. Em vez de se tentar a, mais do que necessária, síntese e, verdadeira, “colaboração”. É que “tradição” é denominação que se perdeu – esvaziou – face a uma, bem fomentada, dinâmica, “perpétua”, de inovação industrial e tecnológica. Tudo é, simultâneamente, passado, presente e futuro: “arcaismo”, novidade e aspiração.. É, contudo, expressão, eficazmente, aproveitada. No incentivo ao gadget sucessivo. À atenção, redobrada, ao “guru”, de mercado, que se segue. O próximo, “especialista”, a levantar o dedo. Na multidão: “Eu tenho A solução”. Escusado será dizer: uma solução para a continuidade da necessidade. A estabilidade, aqui, não interessa. Nem alimenta a economia digital. Deitemos fora as ilusões. Vendem-se, novas, dependências. O êxtase e o, rápido, orgasmo desta sensação de modernidade: “Por favor! Uma nova aplicação!”

Múltiplos suportes e plataformas “respiram” ainda, apesar de tudo – embora não só -, através do que lhes é fornecido por, alguns, orgãos de comunicação “com história”. Onde meios e quantidade não significam, unicamente, lucro ou “controle corporativo”. Mas qualidade que se tornou padrão, referência, imagem de marca. Jornais há muito reconhecidos, agora também em linha, estão entre os que continuam a atrair um grande número de visitantes. Moldando – também para o bem – o panorama, político  e social, informativo.

Não existe blogue, comentário ou texto avulso, fundamentado, que possa dispensar uma comunicação social financiada. “Novos modelos de negócio” eficazes, para uma informação séria, tardam, apesar de, sistemáticos e repetitivos, anúncios anuais, em se solidificar. Os, cada vez mais, baixos rendimentos de uma publicidade, digital, dispersa e fragmentada mostram-se insuficientes para garantir uma democracia que não derive para uma preferência, maior, por um entretenimento que tende a isolar em vez de “pôr em contacto”; de contribuir para uma atitude critica – documentada – relativamente ao poder estatal e empresarial.

Relativizar – desvalorizar- a sociedade do gratuito pelo gratuito, da oferta contínua e do garantido; resistir à chantagem, em espiral, por parte de um tipo de consumidor infantilizado: ergue-se, aqui, a necessidade de um apelo, superior, ao papel da responsabilidade pessoal. Que estamos a dar em troca?  É, precisamente, devido à, actual, crise, económica e financeira, internacional, ao recuar de liberdades que a desatenção, crónica,  considerava garantidas, ao “ressurgir” – como se não estivessem, sempre, à espera – dos nacionalismos e fanatismos, morais, habituais – que deveriamos voltar, sempre que pudéssemos, a pagar por uma informação que valorizamos – porque, afinal, nos servimos dela, constantemente, para “enfeitar o perfil” -. Porque nos permite continuar, ainda, em democracia. Para que dependa menos de uma publicidade ou direcção, ideológica, “encapotada”, de “subsídios” e “reestruturações”. Para que sejam reduzidas falências e despedimentos. Para que seja protegido um género de investigação que nada substitui. Para que meios de comunicação e informação, ainda, com qualidade não se vejam obrigados – como tem acontecido habitualmente – a mudar de estratégia. Em direcção a critérios de selecção, unicamente, comerciais. Contribuimos, ao descartá-lo, também para a crise.

Apesar de, alguma, standardização, fictícia e formal, que surgiu com o digital: nem tudo vale o mesmo. O Daily Mirror não é o El País. Uma plataforma, de rumores, como Drudge Report ainda menos pode ser colocada a par de um Le Monde Diplomatique. A temida “propaganda” e “manipulação”, em tempos de uma certa paranóia, generalizada, anti- establishment, não se detém nos veículos que mais nos parecem ameaçar. Pelo poder que aparentam ou que, sobre eles, projectamos. O usuário “comum” e a escrita que instrumentaliza não são menos perversos, em intenção, quando pretendem difundir a mensagem que lhes interessa. A desinformação, em redes sociais, blogues e caixas de comentários, é mais do que vulgar. Com uma “agravante”: ao ser, superficialmente, “inofensiva” é mais tolerada. Não tem uma ética, um nome, uma carteira, profissional, a defender. Deixemo-nos de paixões. Precisamos de jornalismo como ele precisa de nós. Um smart- phone ou meia dúzia de opiniões, embora indispensáveis, não bastam.

A “conectividade” não é, por isso, suficiente. Precisamos de sentido, interpretação e contexto. Não tanto de uma “personalização” que nos distancie. Cabe-nos “recuperá-los”. É que a noção de “igualdade”, aqui, pode ser sinónimo de populismo. Ficção e desistência. Por paradoxal que pareça: de anti- democracia. Por evitar distinguir. Por pretender fingir – ao ponto de o “materializar” – que, para melhor se integrar, há um esforço que deixou de ser critério. O problema de fundo é o ataque, indiscriminado, a tudo o que tenha ares de “poder instituído”. Em nome de que substituição ou, nova, “manipulação”? De que, outro, “poder instituído”? Fazer “a revolução”: sim. Sem auto- destruição.

Afonso Duarte Pimenta


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