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A Feira do Livro de Braga como futuro “Festival Cultural Diversificado”

Inúmeras bibliotecas, no mundo ocidental e, principalmente, nos países anglo- saxónicos, transformam-se, também, em videotecas “impregnadas” de blockbusters, “parques infantis” onde o silêncio não impera e bancas vendedoras de bolinhos pouco caseiros. Muitas universidades anteriormente exigentes e conceituadas historicamente convertem-se em empresas e “pólos criativos”. E segundo a edição do Diário do Minho de ontem, dia quatro de Dezembro de 2013, a Feira do Livro de Braga poder-se-á vir a transformar num “festival cultural diversificado”. Não se percebe, muito bem e a partir do artigo, o que tal quererá dizer. Vou tentar fazer uma tentativa, mais ou menos caricatural e irónica – porque, por vezes, palmadinhas nas costas não chegam – , de uma aproximação interpretativa, generalizante, correndo o risco de estar bastante errado quanto ao que significa “festival cultural diversificado”. Pura e simplesmente porque se trata de algo irresistível. Porque é, de facto, o anunciado, pelo menos, no jornal. Não qualquer coisa como “festival literário diversificado”. E procurei, depois de o ler, em vários sítios na internet. Repetindo: “festival cultural diversificado”. Sabemos, de qualquer forma, que fazer “sopa” está na ordem do dia. Adianta-se, adicionalmente, a futura preponderância do “digital” no “festival”. Como não podia deixar de ser, aliás, em tempos, há que o salientar, obcecados com o “futuro” nos diversos domínios e sectores sociais. Não fosse a ansiedade, costumeira, em favorecer a “preponderância” e, até aqui e a meu ver, tudo bem. Adicionalmente: a importância da sacrosanta “indústria de conteúdos”. Embora a inevitável “ditadura”, de hoje, na qual tudo se transforma no “mercado” do momento: o que estraga é essa indefinição; a tónica, constante, no conceito de “indústria”. Nos já estafados “conteúdos”. Mas percebe-se, pelo menos, alguma coisa: vem aí um qualquer género de “salada”. Ao sabor do tempo: qualquer coisa de indistinto. Para que se misture com a correria actual. Que não deixa, devido ao constante espírito de “inovação”, que nada, no fundo, se perpetue. Que se formem conceitos, sociais e abrangentes, que se possam solidificar. E aquilo que poderia ser realmente diferente converte-se, como afirma e muito bem – focando-se, contudo, num, aproximado, outro tema – , numa crónica intitulada de “Digital” no jornal Público do passado dia dois, Walter Hugo Mãe, num “mesmismo insuportável”. Como no jornalismo: cada vez mais a literatura é descartada, por muito que se propagandeie o contrário, em direcção a uma espécie de “tudo vale o mesmo” tecnológico e qualitiativo sem ideologia ou programa. Onde tudo se “anarquiza”, justifica, relativiza e “desculpa” devido a uma desorientação. Noção que não se limita, aliás, à “cultura”. Seja lá o que isto queira, neste momento, dizer. A tentação, para não ofender, é grande. Convém colocar a expressão cultura, quase sempre, entre aspas. Assim como o “criativo”, para que possa sobreviver, tem de põr de lado o “criador”. Tentam-se, também por isso mas não só, “novas formas de narrativa”. Não raras vezes mais “perceptíveis”: “adaptadas” ao computador, ao I- PAD, ao Smartphone. Ao tipo de leitura que permite a paciência diante da luz de um ecrã. Por vezes: em direcção a um formato aproximado ao jogo de vídeo. Como se tenta, em diversas experiências, o denominado “jornalismo imersivo”. A denominada “gamification of news”. Mais propriamente: a “joguificação de tudo”. A banalização do “real”. Do “real virtual”. Sejamos claros: não há “mal” nenhum nisto se, como consequência e por vezes como objectivo, não se tentasse destruir aquilo que ainda traz equilíbrio: uma intemporalidade de base. Que nos permita, não apenas mudar, mas compreender, e continuar, o que foi feito anteriormente. Parece moderno, tolerante e diverso. Mas, no fundo, segue apenas as directivas e coordenadas em voga. Com a mesma origem de sempre. Do mesmo país. A mesma noção de civilização. Não deixa de ser uma continuação.

Qualquer governante – autárquico, nacional ou supranacional – , “agente” ou “promotor cultural”, “guru” da internet, dos média ou das “ciências da comunicação” tem, necessariamente, a boca cheia de “diversidade”, “restauração de centros históricos”, “pensar fora da caixa” – não percebo como é que a paciência ainda não se esgotou quanto a esta expressão -, “cultura” ou “indústrias culturais e criativas”. Sobre esta última designação tenho, também, culpa e arrependi-me. Devido a um artigo dividido em duas partes que escrevi para o Diário do Minho de 29 de Outubro do ano de 2008 intitulado “Braga: Cidade Pós- rock”. Onde não só cometi algumas imprecisões como “elevações”, exageradas, do conceito. Parecia-me, em Portugal, algo de novo. Uma, lá está, “inovação” a partir das iniciativas de Serralves da cidade do Porto. Convertido, contudo e entretanto, em espécie de “quisto”, nacional, generalizado. Mas que naquele momento parecia fazer bem ao deserto cultural que Braga continua a ser. Apesar das melhorias significativas que ocorreram nos últimos dois anos.

A humanidade tem milénios de escrita. De literatura “maior” e mais arriscada do que é, actualmente, “confecionada” ou “produzida” em nome da “legibilidade”, da “competitividade” e do “consumidor”. Que foi imune, e neste caso ainda bem, relativamente à urgência na promoção através de redes sociais. Há toda uma complexidade que é preciso manter. E, para isso, é necessário olhar com perspectiva para a arrogante conjuntura tecnológica e cultural actual que, com o dedo no botão, pretende “formatar o sistema”: “to delet the system” – não é raro o facto de, actualmente, a terminologia computacional invadir campos que lhe são – e sempre foram – alheios -. Precisamos, por isso e para além de “números binários”, do livro, da “obra” e da metáfora. Exactamente para que tenhamos as armas, “exteriores”, que nos permitam interpretar o “sistema”. Para que seja “desfragmentado”. Para que seja observado um corpo coerente. O “perigo” é esta espécie de diluição num todo estilhaçado. Onde não se vislumbra muito bem o papel de cada área, suporte, ou movimento social. Não me refiro, unicamente, ao “material”. Falo do objectivo concrecto e civilizacional de longo prazo. Da “economia de longo prazo”. Da História, da Filosofia, da Psicanálise, da Sociologia, da Neurologia. Que nada têm a ver com o “espírito” do “infográfico”. Que benefícia, principalmente e sem querer generalizar, um tipo de estética, radical, da “inovação” pela “inovação” – “to change”: ouve-se, de forma repetitiva, em ínúmeras TED Talks -, da “adaptação” darwinista ao “mercado”, dos “novos modelos de negócio” que se alteram, constantemente, mas que tardam, muitos deles, a funcionar. Ou a funcionar eficazmente. Destruindo, não raras vezes, o que era, um pouco, mais constante. Mas, enfim – esse “pecado” – “tradicional”.

Por vezes não se percebe bem o que são os “novos tempos” dada a indefinição e a volatilidade da coisa. Porque, afinal, todos os tempos que se seguem parecem e irão ser novos. E porque não sabemos os movimentos de pequenas misturas e retracções que poderão surgir: o papel do papel, por exemplo no jornalismo, parece começar a ressurgir depois de meia dúzia de anos de delírio relativamente ao “futuro”, ao “progresso”, à internet como “salvação” civilizacional em tempos de necessidade “religiosa” e crise económica e financeira. Os artigos publicados diáriamente, a nível internacional, sobre o sector não oferecem caminhos, perspectivas ou diagnósticos seguros sobre quase absolutamente nada. Apesar do “optimismo” papagueado por milhares de “evangelistas da comunicação” em relação ao “absolutismo digital”: há uma nuvem cinzenta – uma maior cautela – que se começa a formar. Não questiono a necessária e nietzschiana “transmutação de valores”. Mas isso é uma questão. Outra é a “criação a partir do caos” o que provoca, inevitávelmente, algum “caos a partir da criação”. Que objectivo, humano e social, surge a partir daqui?

Transformar uma feira do livro num “festival cultural diversificado”, para acompanhar os “tempos que correm”, em vez de o tentar fortalecer, como enaltecimento da escrita e da literatura, parece-me um “não saber o que fazer”. Um soluço: pelo facto de não se conseguir atrair leitores. Mas é o “diversificar culturalmente” que atrai quem se pretende? Ou o objectivo é atrair comedores de queijo e pasteis de nata? E queijo e pasteis de nata, “desculpem lá”, mas fazem parte da “cultura” nacional. Uma “feira do livro” é, ou não, uma “feira do livro”? O que importa afinal? Se a questão é a adaptação ao extremamente frenético e inseguro conceito de “digitalização total” em curso: tente-se, então, arranjar um nome e um conceito aproximado a qualquer coisa de mais abrangente. Como, por exemplo, “festival da literatura” – sei que como designação, apesar de tudo, não é grande coisa; trata-se, apenas, de uma “alavanca” -. Que inclua novos suportes. Sem, contudo, tentar essa espécie de fuga apressada que parece constituir a desvalorização do formato em papel. Devido, principalmente, à complexidade da escrita que sempre o tem acompanhado. Ou a “preponderância” servirá, principalmente, para vender os gadgets das mesmas marcas de sempre? Não tentem desviar a importância de tudo o que foi escrito até hoje para o transformar, apenas, em “comércio da sensação”. Façam, ao lado e se quiserem, uma “feira popular”. Mas não estraguem aquilo que, desde tempos imemoriais, nos define. Unicamente para agradar aos designers do momento, seguir a culturalmante monopolista Sillicon Valley ou para favorecer o ambiente de “partilha” de escapismo de curto prazo. Continuamos, como sempre, a precisar de intemporalidade. De complexidade. De interpretação. Não apenas de “código” ou do reinado da “matemática”. Para isso: temos que conferir nome às coisas para que se evite uma “rendição” e “subjugação”: Literatura. Não a deixem “desaparecer”. Precisamos, acima de tudo, de memória. Não fomos os primeiros a cá estar. E não há, apenas, um legado a preservar. Temos que o transmitir. Ou, então, façam, um dia e adicionalmente, um “festival cultural diversificado”. Mas sem tentar destruir aquilo que é sólido: a, pelo menos, constante “Feira do Livro”. Num mundo acerca do qual, a partir deste momento, nada se sabe.

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“Silicon Valley”: Resistência à Interpretação

O artigo de Gillian Tett, intitulado “The Science Interview: Jared Diamond” e disponibilizado no passado dia 11 de Outubro no Finantial Times, não pode deixar de me lembrar uma questão que tem sido, em mim, mais ou menos recorrente. Em conversas que tive e textos que escrevi no passado recente: uma necessidade de mundo. De complexificação temática, terminológica e linguística. Predomina, principalmente nas redes sociais, a troca de “informação” em inglês, a quase ubiquidade dos estudos de Harvard, a venda de uma ideologia que, mais do que uma “revolução”, se assemelha a uma espécie de evolução – no seu significado intermédio: mais ou menos neutro; não totalmente progressista; visto como continuidade – de um estado anterior. Agora: um pouco mais arbitrário e confuso. Com epicentro em Sillicon Valley. Não é tanto uma “globalização” cultural que encontramos. Mas, em certo sentido, uma multiplicação do marketing personalizado. “Espremido” pelo espírito publicitário de retorno insuficiente. A tentativa de concentração das vontades globais na “indústria de conteúdos”. Na “criatividade” tecnológica e cientifica. Com os olhos postos em resoluções, civilizacionais e económicas, de curto prazo. Precisamos, por esta razão, de “tempo”. De impulsos opostos. Grelhas de interpretação, humana, literária e mediática, contrastantes.

Já não é o “crescimento perpétuo” catequizado, nas últimas décadas, através dos meios de comunicação social que mobiliza, agora, as ilusões. Mas, em certo sentido, o “estertor” – decepção disfarçada – de si mesmo. Precisamos de “nichos”, “to think out of the box” – e, contudo, tal configura toda uma nova caixa -, de “innovation”. Para a possível sobrevivência individual. Modelo descaracterizante de identidades regionais e nacionais. Como se faz à custa do enfraquecimento do papel do estado. O cidadão è abandonado à “responsabilidade pessoal”. O super homem na solidão. À volatilidade darwinista da “criação a partir do caos”. Do caos a partir da criação. Instaura-se, assim, a insegurança perpétua. Para que possa mostrar aos mercados que é “criativo”.

Posição que não deixa, afinal, de ignorar todo um conjunto de visões “dissidentes”. Avessas a, precários, “novos modelos de negócio”. Apesar da interminável economia da “opinião”. Que prolifera e os defende: evitando, assim, a interpretação externa. – quebrando a aparência democrática -. Se não estiver, inteiramente, de acordo com as doutrinas, maioritárias, do momento. Interpretar, linguisticamente, significa, mais do que antes, retirar poder.

Olhando, ainda e sempre, para os alvos “tradicionais” – expressão que, actualmente, quase constitui ofensa e um anátema – por razões económicas, geracionais ou identitárias: não olhamos para cima nem olhamos, verdadeiramente, para a rede. O que impede a formação de alternativas. Criando obstáculos à identificação de problemas e questões que são já actuais. Que se avolumam não só devido à velocidade com que se desenvolvem as estruturas digitais. Mas também devido a uma banalização da expressão e da representação jornalistica. Das humanidades.

O domínio, comunicacional, do inglês, como esperanto, reduz e simplifica. Não permite variações significativas. Culturas que, em certa medida, são relegadas para segundo plano. A competição pela chamada de atenção mediática ocorre, hoje e mais do que nunca, a nível internacional. Não vale a pena escrever ou “pensar” em espanhol se o objectivo – e cada vez mais o é – for, principalmente, carreiristico. Se o número de seguidores no Twitter, ou em qualquer outra rede social, for primeira condição. Os meios de comunicação espanhois ou oriundos da América Latina não olham a ultra – globalização actual, apesar do inevitável “contágio”, com a benevolência de um norte- americano. Os franceses Le Monde Diplomatique ou o Le Figaro não valorizam – chegando à resistência -, da mesma forma e apesar da crise económica e financeira, os “resultados imediatos” ou a quantificação estatística – este futuro eliminador de perguntas -. É toda uma outra modelagem. Forma de estar que, apesar do “progresso”, convém aprender, apreender e preservar. Sem, contudo, nos ficarmos por aqui. Há todo um idioma interior a recuperar.


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