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O Público Está “Morto”

Senão: está a caminho de morrer. Espero que me perdoem o empréstimo nietzschiano – o que, nesta altura, pouca diferença fará: estamos em época de entronização do plágio em nome “colectivo” -: mas também somos nós, os indiferentes, que o estamos a matar. 48 é o número de trabalhadores “dispensados”.

Print is Dead: este slogan, continuamente repetido para que se venha a  tornar, definitivamente, realidade, resulta de uma constatação? Ou, pelo contrário, de um desejo? De uma vontade de superação, de destruição, daquilo que se resolveu catalogar como “tradicional” (desculpemos. Mesmo que mal esgalhada: foi necessário encontrar uma narrativa para um outro comércio; para a “revolução”) ? De uma necessidade, ansiosa, de fuga e, por isto, de renovação?

Digital Is The Future: propaganda que se generalizou desde o advento da internet. Monótona; cansativa; pouco criativa: não há marketeer que lhe resista. E, para lá das monetárias, que se aperceba das razões profundas dessa inquietação. De tão aproveitada: converteu-se em verdade presente. Continuamos, contudo, a ver, ainda, bastante papel. Ali: onde a informação, de qualidade, está visível. Não diluída. Não parece que nos afecte. Mas, se acontecer, conseguiremos ser, um pouco mais, tolerantes?  Menos apressados? Mais integrados e ambivalentes? Não esqueci: é- nos conveniente. Podemos, desta forma, olhar para o lado. Não gastamos dinheiro. “Estamos em época de crise”. De disseminação e desvalorização das receitas publicitárias – senhores: por isto mesmo -.  Além, claro, do “direito à informação”.

Porém: quantas vezes nos lembramos e quantas vezes esquecemos, o que é ligeiramente distinto, que de nada vale o “direito” a essa informação se ela estiver, também por nós, empobrecida? Que necessita, urgentemente, de financiamento para que nos “devolva” a democracia?

Em Portugal, ao contrário de países como França ou Espanha – mesmo que insuficiente -, não existiu discussão sobre o assunto. Quase que não foram organizados debates, programas de rádio ou de televisão. Sobre o que está a suceder ao jornalismo. Para além da frase feita. Do artigo de “opinião” do “guru da comunicação”. Em nome das pageviews: tiveram medo de nos ofender. Como se fossemos crianças amedrontadas. Com a possibilidade de perdermos a quota habitual de escapismo e entretenimento. Sem nunca darmos, absolutamente nada, em troca. Será que somos?

Existe, contudo, um obstáculo: esta tentativa de sacralização´- com todas as suas coordenadas; toda uma moral orientadora – de um império que se resolveu denominar como “digital”. Como se não houvesse nada, para além dele – como o temos agora -, que merecesse ser pensado ou avaliado. É esta certeza absoluta – este engano – que precisa de ser demolido. Questionado. Não para ser eliminado. Tarefa absurda e impossível. Mas para que seja alterado. Em direcção a uma cultura que não seja, apenas, a da valorização do sound- byte. Do curto prazo. Da irresponsabilidade pessoal. Para que se concretizem, um pouco melhor, os outros dois anúncios. Para que não se satisfaçam pelo facto de permanecerem em estado de utopia: “a sociedade do conhecimento” e – esse mesmo ! -: o “espírito de colaboração”.

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O “processo” contra Lana Del Rey

O que é que cintila? O que é que se apresenta como estranho e, por esta razão, provoca irritação? O que a “isola” e se distingue em Lana Del Rey – ignorando, no texto presente e apesar de constituir assunto relevante, o “facto” de simbolizar, ou não, “produto da indústria” – para que seja o alvo, escolhido, do momento? Surgiu uma intuição: uma certa aparência de distância. Não se assemelhar à outra “embalagem”, mais furtiva e mediática, da “estação”: a do grupo indefinido, sorridente, “colaborativo”, com pose modesta e gesto inofensivo. Uma gama, mais polida e sofisticada, de elaboração publicitária.

As acusações, marcadas e agressivas, de “falsificação”, “embrulho” ou “falta de autenticidade” são importantes de um ponto de vista que discutirei em artigo que será, a partir deste, continuação. Fazem, contudo, menos sentido num universo cultural onde o que impera é, exactamente, a fabricação. Se fosse essa a questão: Avril Lavigne – com toda uma máscara punk –, no reino da “pureza” do avatar, não teria, propriamente, “sobrevivido”. Passou no “teste”. Apesar da continua mutação. Faz sentido: parece, no fundo, banal e comum. Não perturba. O “erro” daquele tipo de avaliações e justificações – para melhor se poder atacar – é o de tentar iludir com a superfície. Radica em pretender considerar a “normalidade” ou a “humildade”, geralmente e no cosmos digital, como, basicamente, verdadeiras. Não apreendidas como aquilo que também são: invólucros porque exigências – passageiras, moralistas – do presente. Cuja manifestação não escapou, como sempre, ao marketing musical. A indiferenciação e, não raras vezes, a auto-negação são sobrevalorizadas. Não ofendem. Por isso: vendem melhor. No fundo: é menos “liberdade” do que se pretende propagandear. Há, claro e adicionalmente, a questão – intemporal; embora, por agora, quase “ideológica” – da inveja. Que olha, indiscriminadamente, para qualquer tipo de “corporação” como manifestação daquilo que gostava mas não consegue ter. “Nada para ninguém”. Mas desde quando existe “verdade”? Ou “realidade pura”? Se a vida humana é “representação”: fará sentido exigir-se exageradamente, ainda por cima da música pop, que não seja fantasia; “construção”? Apenas porque a tática e o fingimento pretendem assemelhar-se, agora e convenientemente, a uma “naturalidade”? Para que nos “aproximemos” de forma postiça? Mais falsos mas nivelados.

“Não existe” reflexo mais significativo desta obsessão pela fama do que Lady Gaga. Também, aliás, já com “inquérito” a decorrer. Aqui – admito – parece existir uma urgência por parte da cantora para tal se concretizar. Há “fantasma” sobre o tema, nas letras e no imaginário, no primeiro disco, de forma nada subtil, intitulado “The Fame”. Toda uma vitimização intercalada com um desejo, mais ou menos desesperado, em se atingir “o patamar”. Algo que, em lágrimas, chegou a confessar. É, exactamente e na minha opinião, a identificação por parte de um público, angustiado com a questão, que lhe confere visibilidade.

A época actual expandiu e distribuiu os tiques característicos da sociedade do espectáculo pré- internet. Mas, por esta razão, diminuiu as possibilidades de concretização do sucesso, individualmente, idealizado. Vendem-se menos discos. Restringiu-se a capacidade de mitificação. “Há”, portanto, que eliminar a “pretensão”. Se “toda a gente” participa: não poderá haver espaço para a “presunção”. Poder-se-ia chamar a isto: uma questão de “igualdade”. Contudo: estamos, em determinadas ocasiões, bem longe de se atingir os “direitos iguais”. Pelo contrário: a livre expressão é, socialmente, não muito permitida. “Direitos iguais”, na minha concepção, significa tolerância perante a inconstância, a variedade. Limitamo-nos à “igualdade”.

A rede social, a integração do leitor e usuário no jornal digital, a dinâmica de conversação através da “conectividade” tornaram mais visíveis – através de um, sôfrego, movimento, perpétuo, de escrutinio – esta necessidade de “demolição”.

Lana Del Rey é, também por este motivo, o mais recente objecto de santificação para se atingir a crucificação.. Um artista, “anteriormente” menos “condenado” à imediatez informativa e cultural, tinha, pelo menos, “espaço” para a edificação de um conceito mais alargado. Para uma, mais disponível, apreciação no espaço público. Contudo: o moralismo, a intolerância face ao que ousa mostrar-se como pouco integrado, os vestígios de uma sociedade menos democrática do aquilo que costuma aparentar, mais tarde ou mais cedo, acabariam por contra- atacar.

A ãnsia, generalizada, para se estar do outro lado do ecrã – que se veio a confirmar com o desenvolvimento, na internet, de toda uma gigantesca “indústria de conteúdos” -, as necessidades, puramente económicas, de um tipo de jornalismo que tinha deixado de o ser – convertendo-se em distribuidor do boato e do rumor – faziam o trabalho essencial. O “extravagante”, o “excêntrico” ou o “isolado”, adquirindo notoriedade, acabariam “julgados”, discriminados, subjugados pela droga; pelo álcool, algumas vezes presos, outras vezes mortos.

Mas neste momento “não se pode” esperar. O “linchamento” ocorre – em maior quantidade – à velocidade do fluxo noticioso. Não interessa tanto se Lana Del Rey desafina mais nesta, ou naquela, actuação. Parece-me, contudo, relevante que seja alvo seleccionado. Importa, por isso, questionar. A não ser, claro, que, para nos sentirmos mais elevados, nos dê, também, algum prazer. O álbum de estreia, Born to Die, foi editado nos últimos dias de janeiro de 2012. Mas o “caso” já foi iniciado. “Tem”, constantemente, que se justificar: “Mine is an unusual situation because I’m not naturally a polarizing or controversial person. And what I sing about is actually pretty balanced, pretty normal”, segundo uma entrevista dada à estação de rádio KROQ de Los Angeles. Sempre foi assim. Martela-se, apenas, agora com mais força. Com a ajuda de mais gente. Parece-me: de gente que se tornou, um pouco, mais feroz. É o lado negro do “espírito de colaboração”.

 Afonso Duarte Pimenta


Download: “Passivo” (Consumismo Agressivo/ Do Medo do “Elitismo” II)

Não estamos, felizmente, ainda a partir montras. Para além de uma obsessão – um fascínio – pelo ecrã, devido a uma capacidade de representação – e publicação – colectiva, o que o diluiu, tornando-o, ao mesmo tempo, impessoal e omnipresente, imprescindível e irrelevante, diversificando o “consumidor”, colocando-o, finalmente, como “artista”; figura “mediática”; mais do que uma pulsão para a filmagem e transmissão: abraçamos uma aparência;  um ideal, forjado, de “democratização”.

Estamos, por causa de uma necessidade de desforra relativamente ao fenómeno de glamourização – construção do estatuto de “estrela” – da sociedade do espectáculo que percorreu, principalmente com a ascenção do cinema, todo o século XX, a reduzir as possibilidades de remuneração em determinados sectores do trabalho jornalístico e cultural. Não os financiando. Sem “novos modelos de negócio” que, embora amplamente anunciados, os substituam, verdadeiramente. Limitamo-nos, progressivamente, a uma realidade tecnológica em constante mutação e fragmentação. Que assegura, essencialmente, a distribuição. Através de uma publicidade de retorno reduzido. Por causa de uma dispersão e impossibilidade de financiamento suficiente – ou possibilidade de financiamento insuficiente: resistindo, o usuário, a pagar pelo que consome – é obrigada a reduzir a mão- de- obra – para lá da exploração, via substituição e submissão, graças ao aumento da mecanização, robótica e do software disponível -, favorecendo o multi-task e, por isto, a erosão de uma capacidade de concentração, análise e reflexão. Indispensáveis a uma interpretação individual e, por isso, social, mais ou menos, objectiva. Imprescindível a uma produção, densa e fundamentada. Que nos afaste, um pouco, da desinformação – do espírito de fábrica – vinculada por um mercado escravizado pela rapidez, pelos “objectivos” e “resultados” imediatos. Precisamos, mais do que nunca, de uma visão de conjunto. De um espírito, de integração, que beneficie o produzido. Em detrimento da forma. E do efeito.

Embora exista um discurso, actual, que parece valorizar o “conteúdo”: este é apenas acessório, facilmente substituível pelas condicionantes, arbitrárias, do mercado tecnológico. Meio descartável e, sempre que necessário, modificável. Veículo para uma disseminação do gadget, da plataforma, da aplicação. O que nos desloca para um género de pensamento, tendencialmente, enclausurado na programação informática, na “ditadura” da “conectividade”. Em certo sentido: numa predominância do raciocínio matemático.

O aperfeiçoamento das técnicas de sedução – não sem alguma perversidade – por parte de um, venerado, espirito de marketing que está, actualmente, por todo o lado – para se atingir uma “marca”; um “valor de mercado” – fazia algum sentido quando não era, ainda, parte constituinte de um tipo de sistema que, entretanto, se tornou auto- destrutivo e desesperado. Devido, em grande medida, a uma atomização e multiplicação das actividades comerciais: todos somos, a partir de agora – e simultaneamente -, “CEO´s” e o artigo que vendemos. Media-se uma eficácia quando se considerava o “cultural” em pé de igualdade com outro produto qualquer. Integrado e inerente: não escravizado por um olhar – uma ideologia -, exclusivamente, digital. Merecedor de uma valorização que se despreza, agora, como adicional.

Embora, para se pacificar, haja quem o tente negar: um preço – interpretado, aqui, como “dificuldade”; acima de tudo: responsabilidade – acrescenta, sempre, algo ao desejado: a existência do outro, nada virtual, que o concebe. O que pode, dentro desta perspectiva, significar quase tudo. Uma obra de ficção, um álbum de originais ou um jornal serão melhor aproveitados se for “complicada” a aquisição. Ganhando, com isto, um significado – aqui sim – “comunitário”. Porque o discutido é aprofundado.

Mas o individualismo, contemporâneo, exige conforto – “receamos”, contudo, que tenha, brevemente, que se adaptar à impossibilidade de um regresso; a uma outra forma de estar. A desestruturante competição “empresarial” desenha-se sobre uma, inesgotável, demanda pela oferta e facilidade. Acontece que o bem estar físico não se traduz, de forma inevitável, em emocional. Levanta-se, pelo excesso, “estranha” intuição. A chegada desta sensação, afinal, entediante: de a tudo se aceder. Um enfraquecimento dialético. Não parece, por aqui, haver muito a conquistar.

A noção de valor é anarquizada e subjectivada ao afastarmos o “criador” do processo. Sujeita, em larga escala, a variáveis que em nada se relacionam com o objecto. Mas com inclinações momentãneas – inconscientes, desonestas, ressentidas – por parte de quem “avalia”. Com uma tendência, natural, para uma diminuição, em espiral, ou eliminação. Por se encontrar ausente de uma normalização ou regulamentação que lhe confira protecção; um maior equilíbrio. Relativamente à utilização, anterior, do adjectivo “criador”: tenho que ironizar. Não no sentido que se possa, normalmente, considerar. Há que usar, aqui – para se fazer um favor – , um jargão pouco “económico”. Embora exista, por vezes, a sensação de que é, exactamente, terminologia como esta – contaminada, moralmente, por uma raiva – quecondiciona”, por vezes, a um não pagamento.

Generalizou-se, nos últimos anos, com a proliferação de estratégias de divulgação que têm por base o conteúdo oferecido – na impossibilidade: com a multiplicação de mecanismos, como o download, para o tornar oferecido – uma espécie de “feira digital” que o confundiu ao ponto de ser considerado como “direito”, no tempo de todos os direitos – principalmente de alguns que devido a um abuso, talvez – quem sabe – excesso de mimo, provocam uma inversão tal que quase – ? – roça a desigualdade: o de “sermos informados” – sem uma contribuição; quando se fala – tanto – de “sociedade civil” – mas, preferencialmente, entretidos. O que se converteu, rapidamente, em exigência, tornada inevitável, de fuga e alheamento. Mesmo que estas sejam também uma causa. Porque o método é apenas atalho. Tudo isto é, igualmente, arbitrariedade: devido a uma dificuldade em legislar; incapacidade, até ao momento, de controle – do estado – da internet; da internet como estado: um governo, se impotente – quando se vê incapacitado para agir -, também costuma, para se popularizar – e fazer esquecer -,privatizar”.

Existem termos que se adequam menos do que se pretende acreditar: “espírito de colaboração”: que género de “partilha” existe no facto de se fazer uma descarga, desde sempre não consentida, de um ficheiro, com uma obra que nunca nos pertenceu, ainda está por apurar.  Beneficiar o consumidor, pondo de parte o “autor” – “esse prepotente; como ousa intitular-se assim?” -, é metade da “revolução”. Mas – creio poder-se dizer -: não há memória de alguma sem um pouco de “sangue”. É claro que o tentaremos “limpar” ao, como exemplo, exclamarmos: “Com o download dou visibilidade a um agrupamento que, de outra forma, seria, para sempre, desconhecido”. Um salvador. Os diferentes processos que levaram à fabricação e aceitação deste tipo de falsificações como “verdades” e normas sociais foram, contudo, indispensáveis ao mecanismo de transição para o digital, à emergência e tomada de poder por parte de novos actores, empresariais e profissionais, na re – hierarquização, mundial, em curso. Foi fácil persuadir: a quantidade – uma maioria – transforma tudo – à primeira vista – em “democracia”. Não está – pelo contrário – em formação uma distribuição das oportunidades nos termos em que se pretende assegurar. Foi este o golpe de génio. Inatacável pelas expectativas que criou. A “promessa” que constituiu, essencialmente, uma manobra para efeitos de propaganda. A manipulação argumentativa a olear a engrenagem.

O universo empresarial pensou a sociedade do gratuito como “inevitável”. Incorporando-a; favorecendo-a. Colocando-a, de vez, no patamar da moral: uma causa a defender. Não se trata, já, do “melhor produto” a ser vendido ao menor preço: a competição é pela oferta. Devido a uma abundância: o “normal” passou a ser, frequentemente, desinteressante. O “exclusivo” ou “especial” considerado como algo vulgar; mais ou menos apreciável, dependendo do “tempo”, de uma tolerância e disposição . De uma “boa vontade”. Não é difícil compreender que tanta espera – tão pouco esforço – não revela – beneficia – um crescimento ou maturidade. Há qualquer coisa de falha fundamental nesta tentativa de erosão de uma possibilidade de trabalho em sectores, teoricamente,  desejados.

Podem – jornalista, escritor, cineasta, compositor – continuar a esbracejar. Dir- lhes- emos – para uma consciência mais tranquila – que o fazemos, únicamente, para “os ajudar”. Em prol de uma luta – pedida por quem? Não chegou ao contrato? – contra a “exploração da multinacional”. Como se não estivesse a ser posto em causa, a partir deste momento, também um mundo “independente”. Por vezes, e em última análise, bastante solitário. Mesmo que, com esta atitude, façamos quadruplicar os lucros de outra. Desta vez em sector alheio: o tecnológico e o digital. Poderiamos, num repente, inventar uma designação. Talvez: sobre- exploração?.

Tudo isto se assemelha a “espírito de natal”. Vem-nos, subitamente, à memória aquela criança – asfixiada por prendas; cercada de adultos – que começa a rasgar o segundo embrulho antes de acabar, de abrir, o primeiro. Finalizou a visualização do último vídeo dos Artic Monkeys antes de o colocar na rede social?

Não ajuda qualquer negócio: palavra intrusiva, chata, inoportuna. “Devia resguardar-se; mostrar algum decoro”. Isto: se aplicada ao sector cultural. Mesmo que seja, por aí, distribuído – com toda a sabedoria do “guru” da economia – que “acabou o tempo do emprego para a vida”. O tipo de advertência que, para além de ser alarme, materializa uma sentença. Contudo: bateremos palmas ao ultra- monopólio que nos fizer a vontade – mesmo que, pelo caminho, arrecade vários milhões; nos disponibilzar a biblioteca ou uma “nuvem”; nos substituir a cópia pelo original: uma das “caracteristicas” da cloud – da Apple – é, exactamente, a possibilidade de “renovação” automática, através de um sistema de detecção, de temas musicais, anteriormente, adquiridos por nós. Agora com qualidade sonora superior. Uma porta, aberta, fatal. Para a institucionalização da pirataria. Para uma injusta distribuição. Entretanto: as “indústrias culturais” são realçadas – pelo governo; por um “criativo” – como “motor” de uma futura – e, aqui, atenção ao advérbio – “recuperação económica”. Mea culpa: eu, no passado, incluído.

Não beneficia o “consumidor” que poderá aspirar, um dia destes, a ser autor. Mas que, provavelmente, acabará, também, a desenvolver “aplicações”. Por exemplo: de “conteúdos personalizados”. Uma das propostas mais recentes, antes da próxima, para se “monetizar” informação – devedora, sem dúvida, de uma certo egocentrismo e autismo existencial; ou a conceber outra qualquer – talvez desnecessária até ao momento da sua criação – para telemóvel. Se, entretanto, o conceito não tiver desaparecido. Sido substituído devido a uma inovação permanente. Que não “pretende”, porque incontrolável, mudar de direcção. Para onde o limite de velocidade seja um pouco mais humano. Prefere, de facto, o desvio contínuo. O desatino contínuo? Instabilidade perpétua a ser vendida como “progresso”.

Há uma diminuição, considerável, em termos de satisfação quando se encontra ausente uma luta pela obtenção. Do que o outro produz. A não ser que, através desta passividade, tenhamos descoberto – e aproveitado – para um novo prazer: usufruir da recusa. Exactamente: porque o outro produz. Todos, somos, agora: um “artista”, “actor” e avatar. Atravessamos o ecrâ. Estamos, por fim, no centro do palco. Se, contra toda a lógica, acreditamos nisto: para quê pagar? Debaixo de um outro foco – um pouco mais real – alguém se ri. Sabe o que iremos comprar. Conhece a razão. E, antes de correr as cortinas, agradece.

Afonso Duarte Pimenta


Cracker: Um Actor Invisivel

Existem algumas pessoas que,  erguendo pacientemente as sobrancelhas, consideram que toda a realidade revestida a digital não deveria ser escrutinada: “porque é o futuro”; “temos“, invariavelmente, “que nos adaptar“. Contudo: nunca existiu uma divisão abrupta entre o velho e o novo. Circundamos um presente em constante mutação. O “social”, intemporal, está lá sempre: por baixo da matéria. É a resistência à critica, pelo contrário, que denuncia problemas de integração.

Cracker: O Actor Invisivel

Hacker não constitui a denominação mais correcta. Tem sido utilizada nos meios de comunicação por uma questão de “simplicidade“. O leitor parece ser, segundo esta visão, uma espécie de débil mental. Que não faz distinções. Para além do facto de ser expressão popular, Fica sempre bem no motor de busca. Chamemos-lhe, antes, Cracker: Criminal Hacker. Contudo: tal designação não passa, também, de generalização. Os rótulos proliferam: Gray- Hat; Lammer; Phreaker; Black- Hat. Tentando uma aproximação, mesmo que redutora: O Hacker, em princípio, constrói. Enquanto que o  género de Cracker de que tratamos aqui, nos últimos tempos bastante noticiado, reverte, destrói ou modifica o trabalho do primeiro que, logo a seguir, tenta a reparação. O segundo poder-nos-á abençoar, de vez em quando e em jeito de espasmo, com uma mudança de intenção.  Mais à frente a demonstração.

As razões podem ser várias não existindo grande unanimidade: esquemas de extorsão e roubo de dados de cartões de crédito; divulgação de nomes, endereços e senhas de acesso de indivíduos isolados ou pertencentes a organizações económicas e institucionais; disseminação de informação falsa através de canais de televisão, sítios ou contas privadas de redes sociais…

Mesmo nos casos em que a motivação aparenta ser exclusivamente política, a favor de uma “revolução” ou “transição”, parece estar a favorecer a deterioração de algo que, nos últimos anos, em nome do social networking, da “colaboração” e do mercado digital, não tem sido valor fundamental: o conceito de privacidade. Anuncia o anarquismo – e, portanto, o fascismo -; o oposto do que se diz que se pretende atingir. São átomos de vontade individual. Invasões que conduzem à normalização de um certo espírito  anti- democrático. Nada “progressista”.

Começa, desta forma, a era da espionagem generalizada; de uma desconfiança global: não só entre nações. Relativamente ao estado. Em relação ao “controlo” do poder “instituído”, de seitas “obscuras“, reais ou imaginárias. Mas, também, entre agrupamentos inspirados por uma – arrogante – paranoia new-age que vê o fim do mundo em cada texto, e, ás vezes, enfim e por exemplo, num calendário qualquer. E nós, agora – claro -, em relação a eles que fantasiam, invariavelmente, perigo onde receiam poder. O seu semelhante. O disparo é em todas as direcções. Que irá exigir do usuário, para se defender, conhecimentos de encriptação. Se não lhe der, agora de arma na mão, também para mais. Não existe avanço civilizacional que tolere esta noção – muito abrangente – de justiça, impulsiva, pessoal. Nem a obstrução da propriedade pessoal. Mas a net é, ainda, estado sem lei. Surgem, agora, os primeiros limites.

Não existe, aqui, qualquer heroísmo: a “batalha em nome de todos” é feita de forma silenciosa. Escondida sob pseudónimo e avatar. Através de uma criação, uma ficção: uma second-life.  Única idealização onde este magala de poderia vingar.

Não sobrevive sem máscara. Sublinha, com orgulho, a ausência de um chefe e da hierarquia. O que, talvez, revele o ponto fulcral. Há quem faça lembrar, que o estilo de “trabalho”, é o “familiar“. Um género de interpretação que parece iludir, ou nos querer afastar, daquela que é a fragilidade.  Não é difícil perceber que o entendimento não é certo. Entre Anonymous, outro qualquer e LuizSec. Ou dentro de um grupo.

Dar a cara não parece ser motivo de vaidade. Não surge um nome, ou passo em frente, a representá-lo. Aparentemente, todos juntos: assim são “ninguém“. Há ali qualquer coisa, recalcada e subliminar, profundamente entristecida  É por este motivo que aquele sorriso, em disfarce esbranquiçado, resulta em decepção.

O Cracker  desaparece , rapidamente, quando surge a ameaça de uma identificação. Quando ouve o alarme. Da iminência de se mostrar humano. Algo, para ele, dificil de gerir. Seria, desse modo, “portador de um cérebro tecnológico de 1950” . O que salienta quando se refere a nós. Como exemplo: a possibilidade de denúncia por parte de uma desorganização rival. Invocando razões “éticas” – estão lá, sempre!; dispostas a ser usadas – ou puro prazer. Sem esquecermos, claro, analógicas rivalidades internas. A camaradagem nunca se entendeu com o medo. – “Mas então: quer-me expor, fazê-lo a outro, escondendo-se?”. Devido a esse receio de lhe destaparmos a puberdade. Essa raiva impotente, publicita-a – e assim, escapa mais uma vez – como “anulação do ego”. Fica sempre bem invocar, desta forma, o “desapego” ou um budismo digital.

O anonimato cyber-punk, para lá das fronteiras da “liberdade de expressão”, parece servir qualquer razão. Uma profusão de teorias aleatórias manipula a necessidade natural de luta contra a opressão ao se fazerem valer através da derradeira armadilha argumentativa, uma das chantagens mais difíceis de combater: quem ousaria negar a aspiração máxima, a maior de todas as guerras, a vontade de autonomia? A crítica, relativamente ao fenómeno, não é, por isso, generalizada. Por outro motivo também: é através do computador que se faz, hoje, jornalismo. Não é muito provável que o orgão de comunicação queira chamar a atenção. A imaterialidade fabricou paredes mais frágeis. O colunista não tem certezas relativamente à possibilidade de se vir a transformar em alvo; num objectivo. Habituado que está a todo um género de assaltos e intrusões, insultos em caixas de comentários, exigências do “jornalismo- cidadão” ou da gratuitidade cultural. Fenómenos que, aparentemente dispersos, apresentam pontos em comum: poucos limites e, talvez, prendas a mais? É rara a análise que vire do avesso a igreja do momento:  a de que tudo isto é “partilha” e “participação“. E se, pelo contrário, as razões continuamente – por isso mesmo! – apresentadas ocultassem, precisamente, uma dificuldade de colaboração?

Este estilo de Cracker é, demasiadas vezes, desculpado – noutros momentos, elevado – devido a esta  insistência em nos ajoelharmos perante a tecnociência, generalizando, como se fosse algo de milagroso, fora da história, a recuperação do paraíso perdido, a salvação de algo indefinido, a última esperança: a de que é desta que uma “religião” ou “socialismo” irá harmonizar paixões e funcionar de forma alargada. E tolerado devido a uma representação que nem ele,  principalmente, pressentiu. Mas como poderia, o actor principal, entender o esbatimento do qual é vítima e manifestação? Acredita que se anima, apenas, devido a um ideal, “universal”, de conquista e liberdade. Mas não passa, lá no fundo, de imposição e cavalgada pessoal. Nada disto é “colectivo”. É necessidade privada, insondável, de libertação, de destruição de um emaranhado pessoal, de partir em pedaços uma barreira mental e imaginária. Que abusa do argumento ético -mesmo que simpatizemos com determinadas acções – para levar a cabo uma luta cuja forma de a travar não lhe foi encomendada. Para se justificar – e pacificar – com um outro propósito que se encontra a cem metros abaixo da superfície moral.

Convenhamos: é uma empreitada confusa contra a “multinacional” – algumas vezes por ser “multinacional” – , o “estado” – por cheirar a “estado” -, a “instituição” – por ousar instituir-se; solidificar-se -. Como se estivesse em contínuo embaraço. Generalizações contra “o sistema” – embora tenhamos que admitir: é um “movimento” que faz parte das entranhas – da “sabedoria- cidadão”.

Como poderia, quem não se aguenta sem expor curiosidades alheias, teorizar sobre segurança e privacidade? Se não a sente. Se tudo aquilo que lhe parece desconhecido será, sempre, olhado com suspeição? Demagogia – a contradição! – da “informação  total”.

Para além de questões enevoadas: existe uma, essencial, muito pouco rebuscada. A procura de emprego. Surge, aqui, alguma responsabilidade por parte de governos mas também de empresas, plataformas e redes sociais. Que, nada preocupadas com grandes divisões, contratam crackers – purificando-os; integrando-os – para os converter em hackers logo a seguir a determinado delito. Ou sentença. Dilemas relativos a protecção de dados são levados em consideração, apenas, se trouxerem um impacto económico negativo e afastarem o consumidor. A economia digital, na realidade,  baseia-se, em grande medida, numa guerra declarada contra a noção de segredo, na recolha de informação individual com o objectivo de vir a ser utilizada para efeitos de “marketing directo” ou “personalizado“. Constitui uma cultura em formação – a agregação, transferência e centralização de pormenores pessoais é cada vez maior – e, quase, uma “extorsão”. Na medida em que, no mercado actual, se torna complicada, a fuga, à publicidade individual, ao brand yourself.

Não deixa, de qualquer forma, de ser método original para se alcançar colocação na empresa do instante – e aqui tive que utilizar terminologia, veloz e adequada, para a época de um twitter – . Ganha, com isto, “respeitabilidade”. Sobe para um palco mas disfarça muito bem: não dispensa a ganga – nem a sapatilha – ao apresentar – finalmente! Ao mundo! – a nova aplicação que será, no léxico invariavelmente anglo- saxónico do sector, uma “game-changer”.

Recusou a “hierarquia” e falou sempre em “igualdade”. Dissertou, através de vídeos apocalipticos, cinematográficos, sobre “justiça”: “We do not forgive”; “We do not forget”. Num universo atomizado pela proliferação de ecrans e mediatizado até uma indiferenciação entre real e imaginário, como chamar, a partir de agora, a atenção? A imagem já não chega. O entretenimento também não. Resta a perturbação.:

But did you, in your three-piece psychology and 1950’s technobrain, ever take a look behind the eyes of the hacker (Estavamos em 1986. A terminologia, entretanto, divergiu) Did you ever wonder what made him tick, what forces shaped him, what may have molded him?…

You bet your ass we’re all alike…We’ve been dominated by sadists, or ignored by the apathetic. The few that had something to teach found us willing pupils, but those few are like drops of water in the desert…*

Não “perdoam” – ou “esquecem” – o quê? O facto de, também outros, existirem? Substitui, entretanto, a rock star “tradicional”. E de forma matemática! Mas existem dúvidas de que isto não passa, exactamente, de uma “revolta da matemática”?

*Retirado do “Manifesto Hacker”, de 1986. O autor, por usar pseudónimo, não importa.

 Afonso Duarte Pimenta


Tirania e Comunicação

Artigo originalmente publicado no dia 29 de Março do ano de 2009 em “O Papel das Notícias

Perdoe-me Ignacio Ramonet. Se existe uma “Tirania da Comunicação“, poderá ela existir sem informação? Ou ainda, mais objectivamente, para além do controlo, moralização e vigilância a que esta última, necessariamente, conduz? Até onde teria ido – e mesmo assim… – George W. Bush  – o homem  que mais sentenças de morte assinou enquanto governador do Texas; facto esquecido – como presidente dos Estados Unidos da América sem um financiado e eficaz sistema da comunicação social? O instinto perdura, inalterado, na raça humana. Enfeitado, apenas, pela palavra, justiça ou moral social que, de resto, é modificável. Houve quem dissesse que a sociedade corrompe o homem apesar de “infinitamente bom”. Outros contestam e perguntam se não passará a vida a tentar provar que o é.

A crescente diminuição na venda de publicações em papel cujo foco se direcciona, ainda, para o conteúdo e para um público antigo que “percebe”, objectivamente ou não, o propósito do jornalismo como denúncia, a contaminação social pela noção de entretenimento ou a valorização abusiva das plataformas digitais como veículos de transmissão de conhecimento transferem a eficácia da investigação para um princípio de rapidez e formatação que ultrapassa – e desvirtua – a importância da coesão social baseada na observação. Que apenas um meio de comunicação pago e generalista – e mesmo assim condenado a uma série de factores politico- económicos, consegue. Como se uma inovação, só por o ser, fosse sinónimo de modernidade. Como se um jornal digital, por ser actual, fosse eficaz. Como se o futuro não fosse o passado de outra coisa qualquer. Como se no presente não existisse uma constância qualitativa, transmissível, independente da matéria. Como se a tecnologia, apenas por se apresentar como tal, fortalecesse uma perspectiva sobre a realidade. Como se “andar para a frente”, o futuro e o fugir fossem essenciais. São. Mas não implicam esquecer o passado. E não deixam de vaguear, por aí, profetas carregados de interesses monetários e industriais a acelerar a transição. Somos, por isso, olhados de soslaio: escravos do Twitter.

Se, como refere Nuno Miranda Ribeiro em A nostalgia do papel” no blogue do MFJEP (Movimento a Favor do Jornalismo Escrito Pago), a geração que se encontra agora na casa dos 30 anos é motor e vítima de uma metamorfose entre a tradição e o digital, também ela poderá ser, para além da constatação de uma inevitabilidade, promotora de uma comunhão; unificação para o essencial. E a rapidez, aqui, desce para um degrau inferior. O “tempo real”, a actualização constante, a “Breaking News” e a interactividade é cada vez menos, informação. É que, a partir deste momento, mais rápidos, só se soubermos o que vai acontecer antecipadamente.

O discurso, excessivamente direccionado para o mercado, afasta-se das pessoas. Procura-se o formato – uma série deles se seguirá – e esquece-se o ponto central: para que serviu – e serve – o jornalismo. Não se trata aqui de ignorar a dinâmica social mas de a complementar. Para além do mais – assim como o meu parecer – os movimentos não carecem de subjectividade. Já diversas experiências – falhadas – se fizeram em nome da salvação do jornalismo. Como alguma semi- tabloidização de veículos de referência – e perda de importância anteriormente conferida a secções de opinião – que acabou por afastar leitores mais exigentes.

O “Financial Times  anunciou recentemente um novo método de trabalho como forma de integrar o papel e o formato em linha dando especial relevância a este último. Como sempre, o “alarme” está no detalhe. A noção de “right first time” levanta algumas interrogações. O objectivo é o de refinar e simplificar o processo de produção. Observemos esta directiva: “Isto (controlo de qualidade) é importante para o conteúdo on- line mas também o é para o formato em papel”. O digital passou para primeiro plano. Não só a exigência do consumidor se impõe como as próprias redacções a parecem incentivar.

José Manuel Fernandes, director do “Público”, anunciou também há dias uma mudança estrutural: “a internet é o futuro”. Não é. A internet é o presente. O futuro passa por uma consciencialização relativamente ao papel – e não necessariamente “em papel” – da investigação jornalística como um dos alicerces essenciais para a manutenção e revitalização de um regime democrático – numa esplanada ou num e- journal – por parte de entidades civis e governamentais.

A “sociedade de filhos únicos”, radicalização de fenómenos anteriores, intolerante face à frustração, cuja publicidade lhe é quase exclusivamente direccionada e que tem no prazer o seu leitmotiv, reflexo e imposição de direitos das crianças”, há já muito que se desabituou – ou nunca o sentiu – de financiar a cultura ou a valorizar o esforço que a sustenta. Agrupamentos musicais, que antes promoviam um determinado culto da personalidade e distanciamento face ao seu público- alvo, vêem-se assim, obrigados a serem amigos no Myspace ou como fizeram recentemente os Radiohead com o seu último trabalho de originais – a distribuírem gratuitamente as composições debaixo do argumento da inovação como estratégia de divulgação. As salas de cinema, encaradas anteriormente como pretexto para alguma sociabilização, esvaziam. Fenómeno a que não é alheia a concentração de filmes em grandes superfícies. Contudo, lança-se a questão: o cinema? Ou mero shopping? São inúmeras as salas de projecção tradicionais que têm vindo a encerrar nos últimos anos. A net aqui ao lado: o download em vinte minutos; as legendas em português do Brasil; o desvio na coluna; os problemas oculares; a solidão. Mas de forma gratuita. A multinacional do aluguer Blockbustar começou já a antever um provável risco de falência. Uma empresa de consultadoria foi contratada para a eventualidade. Em diversos sectores culturais existe uma preferência pelo isolamento, através da gratuitidade, em detrimento da convivência e da qualidade. Característica que afecta, também, a informação e o conhecimento. Limitados a um formato empobrecedor.

Lança-se, por tudo isto, um atrevimento: se existe uma geração – descontando a óbvia generalização – que está, de determinada forma, alheada e abstraída num certo autismo existencial, tuiterizada e intolerante perante o mundo real e com uma ligeira inclinação para o narcisismo e o individualismo, que tipo de governantes enfrentará uma humanidade futura? A questão do défice de concentração e da promoção de um autismo por uma sociedade intoxicada pelo excesso de entretenimento tem já sido problematizada por alguns psicólogos embora, como é usual, uma facção mais radical dos militantes da neurologia defenda como explicação a origem genética. De qualquer forma, neste caso, parece-me faltar substância. Alguns neurologistas pecam por demasiada necessidade de simplificação psicológica, parecem desejar fechar o tema rapidamente e não continuar o debate. Existirá o gene do “medo da especulação”? A dopamina explica demasiadas coisas.

Haverá, no futuro, uma maior tendência para a imposição e para o ditatorial como reflexo de uma sociedade de um menor esforço baseada no excesso de recompensas e de alguma revolução no tipo de família actual? A confirmar-se, como conjugar este caminho com o decréscimo de qualidade jornalística e consequente falta de atenção face ao poder? O sistema educativo, parental e estatal, a par da modernidade, desresponsabiliza-se. Aumentam os casos de pais que utilizam, como bode expiatório, o sistema de ensino para se poderem considerar, a eles próprios, bons educadores. E aquele, em nome da estatística, facilita a aprendizagem. O que contribui para uma espécie de culta fachada europeia. A ministra da educação ignora, assim, o debate que se desenvolve actualmente nesta área. Pelos vistos, para já, apenas nas livrarias. Também ela será adepta da neurologia. Um exemplo: “Da criança rei à criança tirana” de Didier Pleux (Sinais de Fogo, 2005).

Não é só por aqui. Há quem bata mais no fundo: no Reino Unido está a ser preparado um programa de alteração escolar que prevê que os alunos das escolas primárias britânicas irão aprender – como se não o fizessem já em casa – a dominar ferramentas Web como blogues, podcasts, a wikipédia ou o twitter (?) em detrimento do ensino de períodos históricos como a época vitoriana ou a segunda guerra mundial (?). Rasgo de génio. Rasgo político.

É esta a nata. Resta esperar por aquela que a sucederá.

Afonso Pimenta


The “Anti- Twitter”

This article was originally published in Portuguese on March 18th, 2009 and translated to English on January 14 th, 2011.

Journalism, the way we have had it, won’t last. There is a certain resignation in the shift to the digital. The informed citizen – that, above all, wants, himself, to be informed – reduces himself, to a great extent, to fragmentation; to the online pluralism. He finds himself partially disconnected. This model, as a complement of an attempt of grasping the nowadays, though less reflected, is already a necessity. Far from replacing the integrated knowledge that the opinion article, the dense research report and the long investigation grant.

In a reality where much of the “nowadays” is nothing but an attempt of disinformation, manipulation, appropriation or a vehicle for marketing and propaganda, the necessity of paying attention to the detail is asserted.

The entertaining temptation, the targeted journalism, the active consumers argument encloses the contradiction of a greater sedentariness. The internet becomes, this way, less democratic. By affirming our choices we reach what we already are. The news “in a click” confirms us: it keeps us away.

The written journalism, as a product, can’t be seen exclusively as such: it is what alerts me to what I am not. The only vehicle I have to be aware of what is external to my scant range and attention: power.

The accommodation of the consumer to the lazy format of online newspapers has been leading to an advertising disinvestment, quality decrease and a consequent loss of new readers, emaciation of newsrooms and bankruptcy of countless publications globally.

The relativist, in his constant need of cushioning reality, will say that everything will balance. The market always regulates, like they always wanted to make us believe, despite countless warnings, the endless court of economistic priests. The problem starts here: the market, seen as a giant, absent of human influence. Redundancy.

According to some forecasts, the online format, in a hypothetical reality- closer than we would like to believe – where the physical format disappears, can only support 10% of the costs that the current publications demand. Knowing costs money. It’s seems democracy too.

That’s why I buy a newspaper per day.

Afonso Pimenta

18/03/2009

Translation: Gato Chemistry

Proofreading:  Nuno Miranda Ribeiro

14/01/2011


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