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O Público Está “Morto”

Senão: está a caminho de morrer. Espero que me perdoem o empréstimo nietzschiano – o que, nesta altura, pouca diferença fará: estamos em época de entronização do plágio em nome “colectivo” -: mas também somos nós, os indiferentes, que o estamos a matar. 48 é o número de trabalhadores “dispensados”.

Print is Dead: este slogan, continuamente repetido para que se venha a  tornar, definitivamente, realidade, resulta de uma constatação? Ou, pelo contrário, de um desejo? De uma vontade de superação, de destruição, daquilo que se resolveu catalogar como “tradicional” (desculpemos. Mesmo que mal esgalhada: foi necessário encontrar uma narrativa para um outro comércio; para a “revolução”) ? De uma necessidade, ansiosa, de fuga e, por isto, de renovação?

Digital Is The Future: propaganda que se generalizou desde o advento da internet. Monótona; cansativa; pouco criativa: não há marketeer que lhe resista. E, para lá das monetárias, que se aperceba das razões profundas dessa inquietação. De tão aproveitada: converteu-se em verdade presente. Continuamos, contudo, a ver, ainda, bastante papel. Ali: onde a informação, de qualidade, está visível. Não diluída. Não parece que nos afecte. Mas, se acontecer, conseguiremos ser, um pouco mais, tolerantes?  Menos apressados? Mais integrados e ambivalentes? Não esqueci: é- nos conveniente. Podemos, desta forma, olhar para o lado. Não gastamos dinheiro. “Estamos em época de crise”. De disseminação e desvalorização das receitas publicitárias – senhores: por isto mesmo -.  Além, claro, do “direito à informação”.

Porém: quantas vezes nos lembramos e quantas vezes esquecemos, o que é ligeiramente distinto, que de nada vale o “direito” a essa informação se ela estiver, também por nós, empobrecida? Que necessita, urgentemente, de financiamento para que nos “devolva” a democracia?

Em Portugal, ao contrário de países como França ou Espanha – mesmo que insuficiente -, não existiu discussão sobre o assunto. Quase que não foram organizados debates, programas de rádio ou de televisão. Sobre o que está a suceder ao jornalismo. Para além da frase feita. Do artigo de “opinião” do “guru da comunicação”. Em nome das pageviews: tiveram medo de nos ofender. Como se fossemos crianças amedrontadas. Com a possibilidade de perdermos a quota habitual de escapismo e entretenimento. Sem nunca darmos, absolutamente nada, em troca. Será que somos?

Existe, contudo, um obstáculo: esta tentativa de sacralização´- com todas as suas coordenadas; toda uma moral orientadora – de um império que se resolveu denominar como “digital”. Como se não houvesse nada, para além dele – como o temos agora -, que merecesse ser pensado ou avaliado. É esta certeza absoluta – este engano – que precisa de ser demolido. Questionado. Não para ser eliminado. Tarefa absurda e impossível. Mas para que seja alterado. Em direcção a uma cultura que não seja, apenas, a da valorização do sound- byte. Do curto prazo. Da irresponsabilidade pessoal. Para que se concretizem, um pouco melhor, os outros dois anúncios. Para que não se satisfaçam pelo facto de permanecerem em estado de utopia: “a sociedade do conhecimento” e – esse mesmo ! -: o “espírito de colaboração”.

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“Conectividade” limitada: “igualitarismo” informativo e ilusão democrática

É o momento para sermos exigentes: o ponto em que promessas, por vezes, um pouco vagas e, em certos casos, bastante ilusórias, sobre comunicação e “liberdade”, nos parecem asseguradas.

A rede social promove e desenvolve a, muito, publicitada “conectividade”. Não lhe confere, contudo, qualidade no que respeita ao “conhecimento” – à “informação” – que distribui. Em tempos de “curadoria” – do “jornalista- cidadão” – levanta-se a necessidade de uma “educação para a fonte”: para a leitura, completa, do artigo, da notícia ou reportagem. Antes da, respectiva, postagem. Para que se evite, o mais possível, “a conversa”, simplesmente, em redor do título ou da leitura em estilo “diagonal”; o comentário, irreflectido e impulsivo, motivado pelo desejo de “participação”.

Nada se constrói com um fluxo, ininterrupto, que descure a selecção. De nada serve, para uma observação, objectiva, da realidade, somente “comunicar”. “Exige-se”, ao mesmo tempo em que aumenta a produção e a circulação, numa internet que se agiganta, diáriamente, com, múltiplas, perspectivas e “conteúdos”, um certo travão e, algum, refrear: o “regresso” da “edição”.

É comum o “ódio” ao jornalista, o de aparência mainstream, na caixa de comentário. Como também o é a, demagógica e conveniente, defesa da “internet” contra aquilo que é denominado, artificialmente – não sem prazer e desprezo -, como “jornalismo tradicional”. Como se aquela se fizesse, ou actuasse, apenas por si. Não devido a uma intervenção humana. Como se fosse batalha, imprescindível, em nome de uma noção, muito confusa e baralhada, de “igualdade”. Em vez de se tentar a, mais do que necessária, síntese e, verdadeira, “colaboração”. É que “tradição” é denominação que se perdeu – esvaziou – face a uma, bem fomentada, dinâmica, “perpétua”, de inovação industrial e tecnológica. Tudo é, simultâneamente, passado, presente e futuro: “arcaismo”, novidade e aspiração.. É, contudo, expressão, eficazmente, aproveitada. No incentivo ao gadget sucessivo. À atenção, redobrada, ao “guru”, de mercado, que se segue. O próximo, “especialista”, a levantar o dedo. Na multidão: “Eu tenho A solução”. Escusado será dizer: uma solução para a continuidade da necessidade. A estabilidade, aqui, não interessa. Nem alimenta a economia digital. Deitemos fora as ilusões. Vendem-se, novas, dependências. O êxtase e o, rápido, orgasmo desta sensação de modernidade: “Por favor! Uma nova aplicação!”

Múltiplos suportes e plataformas “respiram” ainda, apesar de tudo – embora não só -, através do que lhes é fornecido por, alguns, orgãos de comunicação “com história”. Onde meios e quantidade não significam, unicamente, lucro ou “controle corporativo”. Mas qualidade que se tornou padrão, referência, imagem de marca. Jornais há muito reconhecidos, agora também em linha, estão entre os que continuam a atrair um grande número de visitantes. Moldando – também para o bem – o panorama, político  e social, informativo.

Não existe blogue, comentário ou texto avulso, fundamentado, que possa dispensar uma comunicação social financiada. “Novos modelos de negócio” eficazes, para uma informação séria, tardam, apesar de, sistemáticos e repetitivos, anúncios anuais, em se solidificar. Os, cada vez mais, baixos rendimentos de uma publicidade, digital, dispersa e fragmentada mostram-se insuficientes para garantir uma democracia que não derive para uma preferência, maior, por um entretenimento que tende a isolar em vez de “pôr em contacto”; de contribuir para uma atitude critica – documentada – relativamente ao poder estatal e empresarial.

Relativizar – desvalorizar- a sociedade do gratuito pelo gratuito, da oferta contínua e do garantido; resistir à chantagem, em espiral, por parte de um tipo de consumidor infantilizado: ergue-se, aqui, a necessidade de um apelo, superior, ao papel da responsabilidade pessoal. Que estamos a dar em troca?  É, precisamente, devido à, actual, crise, económica e financeira, internacional, ao recuar de liberdades que a desatenção, crónica,  considerava garantidas, ao “ressurgir” – como se não estivessem, sempre, à espera – dos nacionalismos e fanatismos, morais, habituais – que deveriamos voltar, sempre que pudéssemos, a pagar por uma informação que valorizamos – porque, afinal, nos servimos dela, constantemente, para “enfeitar o perfil” -. Porque nos permite continuar, ainda, em democracia. Para que dependa menos de uma publicidade ou direcção, ideológica, “encapotada”, de “subsídios” e “reestruturações”. Para que sejam reduzidas falências e despedimentos. Para que seja protegido um género de investigação que nada substitui. Para que meios de comunicação e informação, ainda, com qualidade não se vejam obrigados – como tem acontecido habitualmente – a mudar de estratégia. Em direcção a critérios de selecção, unicamente, comerciais. Contribuimos, ao descartá-lo, também para a crise.

Apesar de, alguma, standardização, fictícia e formal, que surgiu com o digital: nem tudo vale o mesmo. O Daily Mirror não é o El País. Uma plataforma, de rumores, como Drudge Report ainda menos pode ser colocada a par de um Le Monde Diplomatique. A temida “propaganda” e “manipulação”, em tempos de uma certa paranóia, generalizada, anti- establishment, não se detém nos veículos que mais nos parecem ameaçar. Pelo poder que aparentam ou que, sobre eles, projectamos. O usuário “comum” e a escrita que instrumentaliza não são menos perversos, em intenção, quando pretendem difundir a mensagem que lhes interessa. A desinformação, em redes sociais, blogues e caixas de comentários, é mais do que vulgar. Com uma “agravante”: ao ser, superficialmente, “inofensiva” é mais tolerada. Não tem uma ética, um nome, uma carteira, profissional, a defender. Deixemo-nos de paixões. Precisamos de jornalismo como ele precisa de nós. Um smart- phone ou meia dúzia de opiniões, embora indispensáveis, não bastam.

A “conectividade” não é, por isso, suficiente. Precisamos de sentido, interpretação e contexto. Não tanto de uma “personalização” que nos distancie. Cabe-nos “recuperá-los”. É que a noção de “igualdade”, aqui, pode ser sinónimo de populismo. Ficção e desistência. Por paradoxal que pareça: de anti- democracia. Por evitar distinguir. Por pretender fingir – ao ponto de o “materializar” – que, para melhor se integrar, há um esforço que deixou de ser critério. O problema de fundo é o ataque, indiscriminado, a tudo o que tenha ares de “poder instituído”. Em nome de que substituição ou, nova, “manipulação”? De que, outro, “poder instituído”? Fazer “a revolução”: sim. Sem auto- destruição.

Afonso Duarte Pimenta


Download: “Passivo” (Consumismo Agressivo/ Do Medo do “Elitismo” II)

Não estamos, felizmente, ainda a partir montras. Para além de uma obsessão – um fascínio – pelo ecrã, devido a uma capacidade de representação – e publicação – colectiva, o que o diluiu, tornando-o, ao mesmo tempo, impessoal e omnipresente, imprescindível e irrelevante, diversificando o “consumidor”, colocando-o, finalmente, como “artista”; figura “mediática”; mais do que uma pulsão para a filmagem e transmissão: abraçamos uma aparência;  um ideal, forjado, de “democratização”.

Estamos, por causa de uma necessidade de desforra relativamente ao fenómeno de glamourização – construção do estatuto de “estrela” – da sociedade do espectáculo que percorreu, principalmente com a ascenção do cinema, todo o século XX, a reduzir as possibilidades de remuneração em determinados sectores do trabalho jornalístico e cultural. Não os financiando. Sem “novos modelos de negócio” que, embora amplamente anunciados, os substituam, verdadeiramente. Limitamo-nos, progressivamente, a uma realidade tecnológica em constante mutação e fragmentação. Que assegura, essencialmente, a distribuição. Através de uma publicidade de retorno reduzido. Por causa de uma dispersão e impossibilidade de financiamento suficiente – ou possibilidade de financiamento insuficiente: resistindo, o usuário, a pagar pelo que consome – é obrigada a reduzir a mão- de- obra – para lá da exploração, via substituição e submissão, graças ao aumento da mecanização, robótica e do software disponível -, favorecendo o multi-task e, por isto, a erosão de uma capacidade de concentração, análise e reflexão. Indispensáveis a uma interpretação individual e, por isso, social, mais ou menos, objectiva. Imprescindível a uma produção, densa e fundamentada. Que nos afaste, um pouco, da desinformação – do espírito de fábrica – vinculada por um mercado escravizado pela rapidez, pelos “objectivos” e “resultados” imediatos. Precisamos, mais do que nunca, de uma visão de conjunto. De um espírito, de integração, que beneficie o produzido. Em detrimento da forma. E do efeito.

Embora exista um discurso, actual, que parece valorizar o “conteúdo”: este é apenas acessório, facilmente substituível pelas condicionantes, arbitrárias, do mercado tecnológico. Meio descartável e, sempre que necessário, modificável. Veículo para uma disseminação do gadget, da plataforma, da aplicação. O que nos desloca para um género de pensamento, tendencialmente, enclausurado na programação informática, na “ditadura” da “conectividade”. Em certo sentido: numa predominância do raciocínio matemático.

O aperfeiçoamento das técnicas de sedução – não sem alguma perversidade – por parte de um, venerado, espirito de marketing que está, actualmente, por todo o lado – para se atingir uma “marca”; um “valor de mercado” – fazia algum sentido quando não era, ainda, parte constituinte de um tipo de sistema que, entretanto, se tornou auto- destrutivo e desesperado. Devido, em grande medida, a uma atomização e multiplicação das actividades comerciais: todos somos, a partir de agora – e simultaneamente -, “CEO´s” e o artigo que vendemos. Media-se uma eficácia quando se considerava o “cultural” em pé de igualdade com outro produto qualquer. Integrado e inerente: não escravizado por um olhar – uma ideologia -, exclusivamente, digital. Merecedor de uma valorização que se despreza, agora, como adicional.

Embora, para se pacificar, haja quem o tente negar: um preço – interpretado, aqui, como “dificuldade”; acima de tudo: responsabilidade – acrescenta, sempre, algo ao desejado: a existência do outro, nada virtual, que o concebe. O que pode, dentro desta perspectiva, significar quase tudo. Uma obra de ficção, um álbum de originais ou um jornal serão melhor aproveitados se for “complicada” a aquisição. Ganhando, com isto, um significado – aqui sim – “comunitário”. Porque o discutido é aprofundado.

Mas o individualismo, contemporâneo, exige conforto – “receamos”, contudo, que tenha, brevemente, que se adaptar à impossibilidade de um regresso; a uma outra forma de estar. A desestruturante competição “empresarial” desenha-se sobre uma, inesgotável, demanda pela oferta e facilidade. Acontece que o bem estar físico não se traduz, de forma inevitável, em emocional. Levanta-se, pelo excesso, “estranha” intuição. A chegada desta sensação, afinal, entediante: de a tudo se aceder. Um enfraquecimento dialético. Não parece, por aqui, haver muito a conquistar.

A noção de valor é anarquizada e subjectivada ao afastarmos o “criador” do processo. Sujeita, em larga escala, a variáveis que em nada se relacionam com o objecto. Mas com inclinações momentãneas – inconscientes, desonestas, ressentidas – por parte de quem “avalia”. Com uma tendência, natural, para uma diminuição, em espiral, ou eliminação. Por se encontrar ausente de uma normalização ou regulamentação que lhe confira protecção; um maior equilíbrio. Relativamente à utilização, anterior, do adjectivo “criador”: tenho que ironizar. Não no sentido que se possa, normalmente, considerar. Há que usar, aqui – para se fazer um favor – , um jargão pouco “económico”. Embora exista, por vezes, a sensação de que é, exactamente, terminologia como esta – contaminada, moralmente, por uma raiva – quecondiciona”, por vezes, a um não pagamento.

Generalizou-se, nos últimos anos, com a proliferação de estratégias de divulgação que têm por base o conteúdo oferecido – na impossibilidade: com a multiplicação de mecanismos, como o download, para o tornar oferecido – uma espécie de “feira digital” que o confundiu ao ponto de ser considerado como “direito”, no tempo de todos os direitos – principalmente de alguns que devido a um abuso, talvez – quem sabe – excesso de mimo, provocam uma inversão tal que quase – ? – roça a desigualdade: o de “sermos informados” – sem uma contribuição; quando se fala – tanto – de “sociedade civil” – mas, preferencialmente, entretidos. O que se converteu, rapidamente, em exigência, tornada inevitável, de fuga e alheamento. Mesmo que estas sejam também uma causa. Porque o método é apenas atalho. Tudo isto é, igualmente, arbitrariedade: devido a uma dificuldade em legislar; incapacidade, até ao momento, de controle – do estado – da internet; da internet como estado: um governo, se impotente – quando se vê incapacitado para agir -, também costuma, para se popularizar – e fazer esquecer -,privatizar”.

Existem termos que se adequam menos do que se pretende acreditar: “espírito de colaboração”: que género de “partilha” existe no facto de se fazer uma descarga, desde sempre não consentida, de um ficheiro, com uma obra que nunca nos pertenceu, ainda está por apurar.  Beneficiar o consumidor, pondo de parte o “autor” – “esse prepotente; como ousa intitular-se assim?” -, é metade da “revolução”. Mas – creio poder-se dizer -: não há memória de alguma sem um pouco de “sangue”. É claro que o tentaremos “limpar” ao, como exemplo, exclamarmos: “Com o download dou visibilidade a um agrupamento que, de outra forma, seria, para sempre, desconhecido”. Um salvador. Os diferentes processos que levaram à fabricação e aceitação deste tipo de falsificações como “verdades” e normas sociais foram, contudo, indispensáveis ao mecanismo de transição para o digital, à emergência e tomada de poder por parte de novos actores, empresariais e profissionais, na re – hierarquização, mundial, em curso. Foi fácil persuadir: a quantidade – uma maioria – transforma tudo – à primeira vista – em “democracia”. Não está – pelo contrário – em formação uma distribuição das oportunidades nos termos em que se pretende assegurar. Foi este o golpe de génio. Inatacável pelas expectativas que criou. A “promessa” que constituiu, essencialmente, uma manobra para efeitos de propaganda. A manipulação argumentativa a olear a engrenagem.

O universo empresarial pensou a sociedade do gratuito como “inevitável”. Incorporando-a; favorecendo-a. Colocando-a, de vez, no patamar da moral: uma causa a defender. Não se trata, já, do “melhor produto” a ser vendido ao menor preço: a competição é pela oferta. Devido a uma abundância: o “normal” passou a ser, frequentemente, desinteressante. O “exclusivo” ou “especial” considerado como algo vulgar; mais ou menos apreciável, dependendo do “tempo”, de uma tolerância e disposição . De uma “boa vontade”. Não é difícil compreender que tanta espera – tão pouco esforço – não revela – beneficia – um crescimento ou maturidade. Há qualquer coisa de falha fundamental nesta tentativa de erosão de uma possibilidade de trabalho em sectores, teoricamente,  desejados.

Podem – jornalista, escritor, cineasta, compositor – continuar a esbracejar. Dir- lhes- emos – para uma consciência mais tranquila – que o fazemos, únicamente, para “os ajudar”. Em prol de uma luta – pedida por quem? Não chegou ao contrato? – contra a “exploração da multinacional”. Como se não estivesse a ser posto em causa, a partir deste momento, também um mundo “independente”. Por vezes, e em última análise, bastante solitário. Mesmo que, com esta atitude, façamos quadruplicar os lucros de outra. Desta vez em sector alheio: o tecnológico e o digital. Poderiamos, num repente, inventar uma designação. Talvez: sobre- exploração?.

Tudo isto se assemelha a “espírito de natal”. Vem-nos, subitamente, à memória aquela criança – asfixiada por prendas; cercada de adultos – que começa a rasgar o segundo embrulho antes de acabar, de abrir, o primeiro. Finalizou a visualização do último vídeo dos Artic Monkeys antes de o colocar na rede social?

Não ajuda qualquer negócio: palavra intrusiva, chata, inoportuna. “Devia resguardar-se; mostrar algum decoro”. Isto: se aplicada ao sector cultural. Mesmo que seja, por aí, distribuído – com toda a sabedoria do “guru” da economia – que “acabou o tempo do emprego para a vida”. O tipo de advertência que, para além de ser alarme, materializa uma sentença. Contudo: bateremos palmas ao ultra- monopólio que nos fizer a vontade – mesmo que, pelo caminho, arrecade vários milhões; nos disponibilzar a biblioteca ou uma “nuvem”; nos substituir a cópia pelo original: uma das “caracteristicas” da cloud – da Apple – é, exactamente, a possibilidade de “renovação” automática, através de um sistema de detecção, de temas musicais, anteriormente, adquiridos por nós. Agora com qualidade sonora superior. Uma porta, aberta, fatal. Para a institucionalização da pirataria. Para uma injusta distribuição. Entretanto: as “indústrias culturais” são realçadas – pelo governo; por um “criativo” – como “motor” de uma futura – e, aqui, atenção ao advérbio – “recuperação económica”. Mea culpa: eu, no passado, incluído.

Não beneficia o “consumidor” que poderá aspirar, um dia destes, a ser autor. Mas que, provavelmente, acabará, também, a desenvolver “aplicações”. Por exemplo: de “conteúdos personalizados”. Uma das propostas mais recentes, antes da próxima, para se “monetizar” informação – devedora, sem dúvida, de uma certo egocentrismo e autismo existencial; ou a conceber outra qualquer – talvez desnecessária até ao momento da sua criação – para telemóvel. Se, entretanto, o conceito não tiver desaparecido. Sido substituído devido a uma inovação permanente. Que não “pretende”, porque incontrolável, mudar de direcção. Para onde o limite de velocidade seja um pouco mais humano. Prefere, de facto, o desvio contínuo. O desatino contínuo? Instabilidade perpétua a ser vendida como “progresso”.

Há uma diminuição, considerável, em termos de satisfação quando se encontra ausente uma luta pela obtenção. Do que o outro produz. A não ser que, através desta passividade, tenhamos descoberto – e aproveitado – para um novo prazer: usufruir da recusa. Exactamente: porque o outro produz. Todos, somos, agora: um “artista”, “actor” e avatar. Atravessamos o ecrâ. Estamos, por fim, no centro do palco. Se, contra toda a lógica, acreditamos nisto: para quê pagar? Debaixo de um outro foco – um pouco mais real – alguém se ri. Sabe o que iremos comprar. Conhece a razão. E, antes de correr as cortinas, agradece.

Afonso Duarte Pimenta


Do Medo do “Elitismo”: Chantagem Cultural

Artigo originalmente publicado no dia 03 de Outubro do ano de 2009 em “O Papel das Notícias

Começou a guerra pela exposição. Embora a noção “jornalismo de cidadão”; apesar da justificação democrática: o twitter é, além de atalho, mais do que um passo na aniquilação da diferença. Apelidá-lo de “jornalismo”, apesar de instrumental, peca por abuso. Na ausência de um provedor. Na inexistência de um livro de estilo. Mesmo que utilizado, como exemplo, para relato, mais ou menos nebuloso, de manifestações de vigília e protesto como as que ocorreram no Irão. Ou para denúncia face à fraude eleitoral por parte do regime de Mahmoud Ahmadinejad. A não ser que “cidadão”, aqui, seja sinónimo de impreparação. Posto às claras.

Na recente aproximação cultural entre leitor e jornalista – audiófilo e compositor; aspirante e autor – um criador está, doravante, sujeito a inclinar-se – e a oferecer – em nome de um novo conceito libertário. Sob pena de ser  rejeitado. “Preserva, ainda, uma intimidade? O seu direito? Individualidade? Aponto-lhe um dedo. Anti- democrata!”. Contudo, como bom “comunismo”, será, ainda assim, consumido. Mesmo que mal digerido: será bem descartado. Com 140 caracteres.

O sonho, a projecção e a imaginação tomam a forma de uma amizade. Redutora de conteúdos. A megalomania, hoje incolor, era privacidade. Vontade de criação para algo maior. Agora é plural, de contacto, de partilha e, acima de tudo, acessível: nivelada. Em detrimento de um confronto: originalidade perigosa. Criar, na zona cinzenta, não é nada civilizado. É o medo do elitismo. Promovido, e utilizado, pela demagogia panfletária digital. Que usa o modelo de negócio, cada rede social, como instrumento para a ascenção ilusória individual. O cidadão, na ânsia de poder, é desviado. Para uma reorganização, apesar de dispersa culturalmente, mais concentrada economicamente. Dominam, subvertendo regras anteriormente – exteriormente – lógicas de propriedade pessoal, os gigantes da Internet. E ganham. Por terem a base a seu lado. O resultado, por não permitir uma audácia, é, afinal, o esbatimento da vontade pessoal. E deriva, antes de mais, de uma sensação, difusa e oculta, de inveja social:

O gratuito é o instrumento de vingança contra a sociedade do espectáculo.

O marketing, na identificação do processo, tornou-o consciente. E, mais uma vez, potenciou a realidade em nome da publicidade. Em nome, na configuração actual, do “nicho de mercado” e do “brand yourself”. Contacto directo entre consumidor e produto. A exigência do indivíduo é a prioridade. Mesmo que se ponha em causa um valor. Se abra caminho ao favor. A obra secundariza-se. Ser-se criativo é fazer “marketing de aproximação”.

Sejamos claros: vislumbrar o essencial na sociedade do livre acesso torna-se, no meio dos escombros, uma tarefa. A consequente eliminação do desejo e vontade de criação – esforçada; demorada – conduz, a meu ver, a um movimento de atracção mútua através da qual a substância passa, definitivamente, para segundo plano. A agregação de quem se deseja ser aquele que deseja ser tem como objectivo, bem disfarçado por uma retórica, a ultrapassagem do segundo pelo primeiro. Nada de novo.

Olhando o jornalista, o músico ou o designer que se promovem, minuto a minuto, através da actualização, na ilusão propagandeada de tal ser necessário (acaba por ser, por um momento), só nos atrevemos a uma expressão: desespero. Links irreflectidos atrás de posts ignorados. Consideramos, se ainda fossemos suficientemente humanos para isso, o que se tornou dispensável. É verídico: estamos às apalpadelas. A fuga ao instinto através do gadget tecnológico. Está em curso a ligação neuronal pré- biónica planetária. E já acena, por aí, o Google Wave.

Apesar do extremo conseguido até agora foi ao Myspace que coube a inauguração da desmoralização do estatuto. Se Madonna era religião agora suplica. Que sejamos, na sua página, um amigo. O mistério e o mundo interior, arrancados à força, perderam valor moral. Esta  necessidade, de agradar, transforma- nos, consumidores, em parasitas. Exigimos gratuitidade. Deixamos, aos poucos, de conceber o seu contrário. Estamos demasiado perto. Ainda assim, perdidos num excesso, intitulamo-nos “democratas”. Útil virtude a favor da chantagem.

Os Radiohead, ao iniciarem o ciclo das ofertas conscientes de um álbum de originais, elevaram-se a símbolo de uma subserviência. Que contamina outros sectores culturais. Entre os quais o jornalismo. Relevante por representar um intuito concreto: manutenção do regime democrático. Este objectivo – mais ou menos evitado; mais ou menos esquecido – implica a aceitação social da especialização. Da importância de um financiamento responsável.

Mas a criança, hoje, é rei. Exige ser tratada por “tu”. Denunciamos, também aqui, um masoquismo. E constatamos: proliferam workshops, formações, espectáculos musicais, debates culturais, cineastas, jornalistas, “bienais”, exposições e instalações artísticas. E nunca foi tão vulgar o download. Mas gostaríamos de ver,  no meio do pântano, uma planta carnívora. Mas é o medo do elitismo. E, por certo: pouca vontade de sobrevivência.

Afonso Pimenta


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