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Regresso ao Futuro (Um Punk em Sillicon Valley)

Começo esta crónica por explicar o que, para mim, constitui uma atitude que poderia denominar como “punk”. Correndo o risco de passar uma linha vermelha. De não me instituir como fazendo parte integrante do cânone do género. A ideia, para mim, é vasta. Não se inscreve em nenhum tipo de elaboração conceptual anarquista. Radica, antes, na elaboração de lutas e de conceitos novos. Mas também na demanda, na procura e no favorecimento de figuras tutelares inspiradoras para que tal seja possível. Precisamos, a todo o momento, na falta de “religiões”, de focos de luz. Que façam frente aos alvos de sempre. Sem qualquer tipo de estagnação filosófica. Misturada, naturalmente, com uma certa intemporalidade de base. Ou, pelo menos, sem retracção total de valores antecedentes. Porque, a meu ver, de nada serve a “mudança” se esta entrar em choque com os limites que fazem de nós humanos. Isto pode abarcar tudo o que mobiliza uma sociedade inteira em termos de manifestações culturais: o jornalismo, a música, o teatro, o cinema, a política, o ensaio filosófico.

Não adianta, porque estamos em crise, acharmos que tudo se resolve, apenas, através do combate às instituições “tradicionais”. Acreditanto que, apenas, uma espécie de modelagem radical “externa”, estrutural, digital e tecnológica, resolverá todos os problemas sociais. Por vezes: olharmos para o passado pode levar-nos ao futuro. Contudo, para isso, convém tentarmos perceber o que já está a acontecer. Isso implica olharmos para dentro. E as directivas civilizacionais e comerciais de Sillicon Valley – que “contaminam” o resto do mundo – são bem menos “progressistas” do que se quer fazer parecer. São, no fundo, uma continuação. Um espremer das forças de mercado. Em direcção aos “nichos” e, por isso, à instabilidade perpétua.

Parto, por esta razão, de uma espécie de “vazio” que encontro, há anos, em termos de circulação informativa. Em termos proporcionais: a crítica, social, à sociedade tecnológica e “digital”, contrariamente a muito do que se escreveu – e que se filmou – no século XX, não é, ainda, mainstream. Começa, só agora e apesar da excessiva propaganda em sentido contrário – aliás: por causa dela -, lentamente a afirmar-se. Principalmente devido ao mediático caso das escutas posto em circulação devido a Edward ou – como lhe queiram chamar – Chelsea Snowden. A análise, extensa e inteligente, foi, até agora, apesar das evidências para quem quisesse estar atento, evitada. Poucos autores, actuais, a têm levado em consideração. Poucos jornalistas acharam que o facto merecia atenção. Assim como as redes sociais. Principalmente as redes sociais.

Mas não se trata, na minha opinião, apenas de uma questão de propaganda ou de vontade de fuga e ilusão: os objectivos civilizacionais, há poucos anos atrás, eram um pouco mais definíveis. O poder político e empresarial estava um pouco menos às escuras. Não se tinha tornado, socialmente, mais escondido, perverso e sofisticado. Sem o jogo de espelhos que, no momento actual, polariza e de certa forma adormece e desvia vontades. O poder, seja de que ordem for, nunca desaparece. Metamorfoseia-se: move-se em direcção a novos actores. Esconde-se, sempre, por trás de novas instituições, eufemismos, palavras mansas e um tom de voz um pouco mais suave. Portanto: a “atitude” de combate generalizada não está, nem de longe nem de perto, na ordem do dia relativamente ao tipo de poder que, actualmente, se forma. Não se encontram os – mais fáceis – “antigos” alvos. Nem objectivos políticos concretos. Tal exige, devido à complexidade comunicacional em que vivemos actualmente enrededados, uma maior atenção. Leitura intensa – com calma – de livros interpretativos de pendor “tradicional”. Dos milhares de artigos de direcção contraditória que são diáriamente “postados”. Para que sejam coerentemente analisados. Com alguma distância. Para que se possam identificar tiques, repetições e, principalmente, intenções.

De I- Pad  na mão, Smartphone na outra, com a internet ao chegar a casa, televisão ao fundo da sala e óculos da Google prestes a serem massificados para que não tenhamos um segundo da vida sem “informação” ou “alienação aumentada” – não raras vezes desinformativa – : os sentidos encontram-se “entupidos”. O sentido do interior. O que resvala,  quase inevitavelmente, a uma certa apatia e diminuição de perguntas civilizacionais. As que se poderiam fazer – e não o são – ao sistema político e ideológico, agora, em constante reconstrução e mutação. Aquele que nos permite a utilização e o favorecimento de toda a tecnologia que temos, cada vez mais, à disposição. O que massifica. Nos torna amaciados. Impedindo uma maior diversidade cultural e social.

Porque são as gerações mais novas quem interessa mobilizar: muita da música que se ouve hoje em dia na rádio e mesmo na internet é de índole, tendencialmente, escapista. Apolítica. Um “LSD”. Placebo de curto prazo. Indolor. É “adolescente” e, por essa razão, não “perturba” quase ninguém. As chamadas de atenção lirica deslizam para o “grunhido” gratuito: “Who cares”, “Whatever” ou “I´m bored” são expressões recorrentes na “geração” de “todos os gadgets”. Não encontramos generalizada a “violência” verbal – contra a ordem actual – de um Henry Rollins; o choque mediático provocado pela inversão da bandeira norte- americana por parte de uns Rage Against The Machine no palco de uma das edições dos prémios da MTV quando o canal tinha, nos anos noventa, alguma coisa para dizer e para transformar antes de se ter convertido em mais um comum transmissor de reality shows; a inteligência in your face dos Clawfinger. Para citar, apenas, nomes com visibilidade comercial. E o facto de a terem dizia muito. Traziam, além de uma pose um pouco menos confecionada por estatísticas: mensagem e interpretação. Coragem para assumir riscos. Em expor uma definição pessoal. Sem medo de  parecerem “elitistas” quanto ao alertar de consciências. Um ligeiro “perigo” encontrado nos dias de hoje pela ultra- vulgarização do conceito “democrático” como está neste momento a ser favorecido. De facto: parece existir uma certa “anulação” em curso relativamente a determinados assuntos que parece instaurar uma sensação de “não valer a pena”; “o mundo sempre foi assim” – e, sabemos, “perdoem-me” os relativistas e os interessados do costume, que não o foi: já não andamos a carregar blocos de pedra durante uma vida inteira, só descansando no Nilo, para a construção da pirâmide em louvor de um qualquer faraó -. Este “sintoma” não se encontra, apenas, a nível lirico ou vocal. Vai-se, adicionalmente, desvalorizando a figura do front-man. Favorecendo a obscuridade pessoal – a “voz grave” – para o transpor para o espírito de grupo: o panfleto gratuito e tão na moda denominado por “espirito de colaboração”. Uma certa vergonha, portanto, quanto à responsabilidade pessoal.

Também não é raro o número de escritores que, actualmente, prefere não intervir politicamente ou dar opinião devido a esta difusa e desistente “noção democrática”. No fundo e sem recorrermos a eufemismos: é o medo. O “terror” da exposição pessoal num planeta inundado por comentários inflamados pelo marketing e pela venda apressada de livros.

Esta atitude não faz muito por uma democracia social real. Conduz a uma certa “asfixia” cultural. Quando o internauta ou o autor não se mostra e não intervém para além da esfera reduzida da repetição informativa que tem como ponto, principal, de referência as redes sociais. Onde, no fundo, nem em todos os assuntos “se pode” tocar. Devido a um tipo de moral que pretende salientar o “optimismo”, os “likes” e a “partilha”. Que “conecta” digitalmente mas que faz pouco pela verdade e pela realidade.  Que deve, quando possível, ser expressa e escrita “para ninguém”. Como ideal: fingirmos que não somos apenas “consumidores”, com interesses carreiristicos exagerados, avatares e “amigos” para agradar. A informação, para que haja mudança, deve, em primeiro lugar: perturbar. Se estamos à espera de nos falsificarmos para termos mais seguidores através de um Twitter: não é, exactamente, a cultura que estamos a favorecer. Também não é o jornalismo. Nem mesmo o “jornalismo- cidadão”. Apenas um reforço do mesmo. Parece que “convém” não darmos muito de nós para não “ofender” o “concorrente” do lado. O que nos transforma, generalizando, em “humildes” papagueadores da “verdade” digital que suporta os meios que usamos para que possamos “comentar a realidade”. É mais fácil virarmo-nos para os alvos “tradicionais”. Olharmos para o abuso das instituições em formação põe-nos em causa. Porque as utilizamos mais do que nunca. O que nos faz temer uma suposta contradicção.

Voltaire diria que vivemos, mais do que nunca, num mundo de ingénuos. Num mundo de cândidos. Ou de cinicos? Ou de cansados? Sem temer a bolha rebentar. Sem saber e , de certa forma, sem querermos saber que pode rebentar. “Alucinados” que estamos pelas promessas, obviamente “digitais”, da “sociedade da informação”. Sem percebermos que a forma como, pelo menos actualmente, se articula não é sinónimo de “conhecimento”. Ela é, quando muito, indício de puro “mercado”. Uma outra internet seria possível?

Nem tudo se enquadra no que acabo de expor: vou  apontar pequenos exemplos contra- corrente, nos diversos sectores, que penso merecerem serem levados em consideração: em termos jornalisticos existe o sempre atento Le Monde Diplomatique. É um ponto, incansável, de resistência. Vale a pena segui-lo. Em papel e na edição digital inglesa. Sabendo que não vive do ar. Mas à custa de subscrições. Um género de oásis que, na falta de atenção, vai escasseando. O El País: é raro o dia que não publique um artigo de opinião sobre os assuntos que, resolvi, aqui abordar. Portugal, nesta matéria, tem sido um deserto. Relativamente ao ensaio: existem alguns, bastante insistentes, autores. Como Evgeny Morozov. Conhecido, principalmente, devido a um primeiro livro: “The Net Delusion: How Not to Liberate The World”. Outro exemplo, acessível, é Nicholas Carr. Que publicou “The Shallows: What the Internet is Doing to Our Brains”. O artigo que escreveu no ano de 2008 para a Atlantic, “Is Google making us stupid?”, tem sido, desde então, amplamente debatido. Em termos televisivos convém estarmos atentos a uma série que está a ser rodeada por algum culto. Intitula-se Black Mirrors e é uma criação de Charlie Brooker. Tem uma inclinação mais ou menos caricatural. Mas devolve-nos alguma realidade. Como alguns medos e fantasmas adormecidos pelo utopismo tecno- científico deste início de século. Uma prova de coragem, no cinema, foi dada por Sofia Coppola. Através de “The Bling Ring” – em português foi traduzido como “O Gangue de Hollywood” -. O argumento baseia-se em factos reais: um grupo de adolescentes, obcecados com a fama, resolve assaltar casas de figuras públicas. O filme é uma alegoria ás questões de falta de privacidade actual: acabam por ser apanhados devido à utilização de redes sociais. Não posso deixar de apontar, para finalizar, um dos últimos vídeos dos Placebo: “Too many friends”. Onde a – para mim: erróneamente – intitulada “realidade aumentada” é amplamente parodiada. São apenas alguns exemplos. Há mais. Mas, em termos proporcionais, é pouco. Precisamos de abrir caminho. De focos de luz: que façam perguntas não apenas sobre o que está errado com o passado. Mas, também, sobre o tipo de “soluções” que estamos a construir. Para que não sejamos enganados outra vez. E outra vez.


“Silicon Valley”: Resistência à Interpretação

O artigo de Gillian Tett, intitulado “The Science Interview: Jared Diamond” e disponibilizado no passado dia 11 de Outubro no Finantial Times, não pode deixar de me lembrar uma questão que tem sido, em mim, mais ou menos recorrente. Em conversas que tive e textos que escrevi no passado recente: uma necessidade de mundo. De complexificação temática, terminológica e linguística. Predomina, principalmente nas redes sociais, a troca de “informação” em inglês, a quase ubiquidade dos estudos de Harvard, a venda de uma ideologia que, mais do que uma “revolução”, se assemelha a uma espécie de evolução – no seu significado intermédio: mais ou menos neutro; não totalmente progressista; visto como continuidade – de um estado anterior. Agora: um pouco mais arbitrário e confuso. Com epicentro em Sillicon Valley. Não é tanto uma “globalização” cultural que encontramos. Mas, em certo sentido, uma multiplicação do marketing personalizado. “Espremido” pelo espírito publicitário de retorno insuficiente. A tentativa de concentração das vontades globais na “indústria de conteúdos”. Na “criatividade” tecnológica e cientifica. Com os olhos postos em resoluções, civilizacionais e económicas, de curto prazo. Precisamos, por esta razão, de “tempo”. De impulsos opostos. Grelhas de interpretação, humana, literária e mediática, contrastantes.

Já não é o “crescimento perpétuo” catequizado, nas últimas décadas, através dos meios de comunicação social que mobiliza, agora, as ilusões. Mas, em certo sentido, o “estertor” – decepção disfarçada – de si mesmo. Precisamos de “nichos”, “to think out of the box” – e, contudo, tal configura toda uma nova caixa -, de “innovation”. Para a possível sobrevivência individual. Modelo descaracterizante de identidades regionais e nacionais. Como se faz à custa do enfraquecimento do papel do estado. O cidadão è abandonado à “responsabilidade pessoal”. O super homem na solidão. À volatilidade darwinista da “criação a partir do caos”. Do caos a partir da criação. Instaura-se, assim, a insegurança perpétua. Para que possa mostrar aos mercados que é “criativo”.

Posição que não deixa, afinal, de ignorar todo um conjunto de visões “dissidentes”. Avessas a, precários, “novos modelos de negócio”. Apesar da interminável economia da “opinião”. Que prolifera e os defende: evitando, assim, a interpretação externa. – quebrando a aparência democrática -. Se não estiver, inteiramente, de acordo com as doutrinas, maioritárias, do momento. Interpretar, linguisticamente, significa, mais do que antes, retirar poder.

Olhando, ainda e sempre, para os alvos “tradicionais” – expressão que, actualmente, quase constitui ofensa e um anátema – por razões económicas, geracionais ou identitárias: não olhamos para cima nem olhamos, verdadeiramente, para a rede. O que impede a formação de alternativas. Criando obstáculos à identificação de problemas e questões que são já actuais. Que se avolumam não só devido à velocidade com que se desenvolvem as estruturas digitais. Mas também devido a uma banalização da expressão e da representação jornalistica. Das humanidades.

O domínio, comunicacional, do inglês, como esperanto, reduz e simplifica. Não permite variações significativas. Culturas que, em certa medida, são relegadas para segundo plano. A competição pela chamada de atenção mediática ocorre, hoje e mais do que nunca, a nível internacional. Não vale a pena escrever ou “pensar” em espanhol se o objectivo – e cada vez mais o é – for, principalmente, carreiristico. Se o número de seguidores no Twitter, ou em qualquer outra rede social, for primeira condição. Os meios de comunicação espanhois ou oriundos da América Latina não olham a ultra – globalização actual, apesar do inevitável “contágio”, com a benevolência de um norte- americano. Os franceses Le Monde Diplomatique ou o Le Figaro não valorizam – chegando à resistência -, da mesma forma e apesar da crise económica e financeira, os “resultados imediatos” ou a quantificação estatística – este futuro eliminador de perguntas -. É toda uma outra modelagem. Forma de estar que, apesar do “progresso”, convém aprender, apreender e preservar. Sem, contudo, nos ficarmos por aqui. Há todo um idioma interior a recuperar.


O Público Está “Morto”

Senão: está a caminho de morrer. Espero que me perdoem o empréstimo nietzschiano – o que, nesta altura, pouca diferença fará: estamos em época de entronização do plágio em nome “colectivo” -: mas também somos nós, os indiferentes, que o estamos a matar. 48 é o número de trabalhadores “dispensados”.

Print is Dead: este slogan, continuamente repetido para que se venha a  tornar, definitivamente, realidade, resulta de uma constatação? Ou, pelo contrário, de um desejo? De uma vontade de superação, de destruição, daquilo que se resolveu catalogar como “tradicional” (desculpemos. Mesmo que mal esgalhada: foi necessário encontrar uma narrativa para um outro comércio; para a “revolução”) ? De uma necessidade, ansiosa, de fuga e, por isto, de renovação?

Digital Is The Future: propaganda que se generalizou desde o advento da internet. Monótona; cansativa; pouco criativa: não há marketeer que lhe resista. E, para lá das monetárias, que se aperceba das razões profundas dessa inquietação. De tão aproveitada: converteu-se em verdade presente. Continuamos, contudo, a ver, ainda, bastante papel. Ali: onde a informação, de qualidade, está visível. Não diluída. Não parece que nos afecte. Mas, se acontecer, conseguiremos ser, um pouco mais, tolerantes?  Menos apressados? Mais integrados e ambivalentes? Não esqueci: é- nos conveniente. Podemos, desta forma, olhar para o lado. Não gastamos dinheiro. “Estamos em época de crise”. De disseminação e desvalorização das receitas publicitárias – senhores: por isto mesmo -.  Além, claro, do “direito à informação”.

Porém: quantas vezes nos lembramos e quantas vezes esquecemos, o que é ligeiramente distinto, que de nada vale o “direito” a essa informação se ela estiver, também por nós, empobrecida? Que necessita, urgentemente, de financiamento para que nos “devolva” a democracia?

Em Portugal, ao contrário de países como França ou Espanha – mesmo que insuficiente -, não existiu discussão sobre o assunto. Quase que não foram organizados debates, programas de rádio ou de televisão. Sobre o que está a suceder ao jornalismo. Para além da frase feita. Do artigo de “opinião” do “guru da comunicação”. Em nome das pageviews: tiveram medo de nos ofender. Como se fossemos crianças amedrontadas. Com a possibilidade de perdermos a quota habitual de escapismo e entretenimento. Sem nunca darmos, absolutamente nada, em troca. Será que somos?

Existe, contudo, um obstáculo: esta tentativa de sacralização´- com todas as suas coordenadas; toda uma moral orientadora – de um império que se resolveu denominar como “digital”. Como se não houvesse nada, para além dele – como o temos agora -, que merecesse ser pensado ou avaliado. É esta certeza absoluta – este engano – que precisa de ser demolido. Questionado. Não para ser eliminado. Tarefa absurda e impossível. Mas para que seja alterado. Em direcção a uma cultura que não seja, apenas, a da valorização do sound- byte. Do curto prazo. Da irresponsabilidade pessoal. Para que se concretizem, um pouco melhor, os outros dois anúncios. Para que não se satisfaçam pelo facto de permanecerem em estado de utopia: “a sociedade do conhecimento” e – esse mesmo ! -: o “espírito de colaboração”.


O “processo” contra Lana Del Rey

O que é que cintila? O que é que se apresenta como estranho e, por esta razão, provoca irritação? O que a “isola” e se distingue em Lana Del Rey – ignorando, no texto presente e apesar de constituir assunto relevante, o “facto” de simbolizar, ou não, “produto da indústria” – para que seja o alvo, escolhido, do momento? Surgiu uma intuição: uma certa aparência de distância. Não se assemelhar à outra “embalagem”, mais furtiva e mediática, da “estação”: a do grupo indefinido, sorridente, “colaborativo”, com pose modesta e gesto inofensivo. Uma gama, mais polida e sofisticada, de elaboração publicitária.

As acusações, marcadas e agressivas, de “falsificação”, “embrulho” ou “falta de autenticidade” são importantes de um ponto de vista que discutirei em artigo que será, a partir deste, continuação. Fazem, contudo, menos sentido num universo cultural onde o que impera é, exactamente, a fabricação. Se fosse essa a questão: Avril Lavigne – com toda uma máscara punk –, no reino da “pureza” do avatar, não teria, propriamente, “sobrevivido”. Passou no “teste”. Apesar da continua mutação. Faz sentido: parece, no fundo, banal e comum. Não perturba. O “erro” daquele tipo de avaliações e justificações – para melhor se poder atacar – é o de tentar iludir com a superfície. Radica em pretender considerar a “normalidade” ou a “humildade”, geralmente e no cosmos digital, como, basicamente, verdadeiras. Não apreendidas como aquilo que também são: invólucros porque exigências – passageiras, moralistas – do presente. Cuja manifestação não escapou, como sempre, ao marketing musical. A indiferenciação e, não raras vezes, a auto-negação são sobrevalorizadas. Não ofendem. Por isso: vendem melhor. No fundo: é menos “liberdade” do que se pretende propagandear. Há, claro e adicionalmente, a questão – intemporal; embora, por agora, quase “ideológica” – da inveja. Que olha, indiscriminadamente, para qualquer tipo de “corporação” como manifestação daquilo que gostava mas não consegue ter. “Nada para ninguém”. Mas desde quando existe “verdade”? Ou “realidade pura”? Se a vida humana é “representação”: fará sentido exigir-se exageradamente, ainda por cima da música pop, que não seja fantasia; “construção”? Apenas porque a tática e o fingimento pretendem assemelhar-se, agora e convenientemente, a uma “naturalidade”? Para que nos “aproximemos” de forma postiça? Mais falsos mas nivelados.

“Não existe” reflexo mais significativo desta obsessão pela fama do que Lady Gaga. Também, aliás, já com “inquérito” a decorrer. Aqui – admito – parece existir uma urgência por parte da cantora para tal se concretizar. Há “fantasma” sobre o tema, nas letras e no imaginário, no primeiro disco, de forma nada subtil, intitulado “The Fame”. Toda uma vitimização intercalada com um desejo, mais ou menos desesperado, em se atingir “o patamar”. Algo que, em lágrimas, chegou a confessar. É, exactamente e na minha opinião, a identificação por parte de um público, angustiado com a questão, que lhe confere visibilidade.

A época actual expandiu e distribuiu os tiques característicos da sociedade do espectáculo pré- internet. Mas, por esta razão, diminuiu as possibilidades de concretização do sucesso, individualmente, idealizado. Vendem-se menos discos. Restringiu-se a capacidade de mitificação. “Há”, portanto, que eliminar a “pretensão”. Se “toda a gente” participa: não poderá haver espaço para a “presunção”. Poder-se-ia chamar a isto: uma questão de “igualdade”. Contudo: estamos, em determinadas ocasiões, bem longe de se atingir os “direitos iguais”. Pelo contrário: a livre expressão é, socialmente, não muito permitida. “Direitos iguais”, na minha concepção, significa tolerância perante a inconstância, a variedade. Limitamo-nos à “igualdade”.

A rede social, a integração do leitor e usuário no jornal digital, a dinâmica de conversação através da “conectividade” tornaram mais visíveis – através de um, sôfrego, movimento, perpétuo, de escrutinio – esta necessidade de “demolição”.

Lana Del Rey é, também por este motivo, o mais recente objecto de santificação para se atingir a crucificação.. Um artista, “anteriormente” menos “condenado” à imediatez informativa e cultural, tinha, pelo menos, “espaço” para a edificação de um conceito mais alargado. Para uma, mais disponível, apreciação no espaço público. Contudo: o moralismo, a intolerância face ao que ousa mostrar-se como pouco integrado, os vestígios de uma sociedade menos democrática do aquilo que costuma aparentar, mais tarde ou mais cedo, acabariam por contra- atacar.

A ãnsia, generalizada, para se estar do outro lado do ecrã – que se veio a confirmar com o desenvolvimento, na internet, de toda uma gigantesca “indústria de conteúdos” -, as necessidades, puramente económicas, de um tipo de jornalismo que tinha deixado de o ser – convertendo-se em distribuidor do boato e do rumor – faziam o trabalho essencial. O “extravagante”, o “excêntrico” ou o “isolado”, adquirindo notoriedade, acabariam “julgados”, discriminados, subjugados pela droga; pelo álcool, algumas vezes presos, outras vezes mortos.

Mas neste momento “não se pode” esperar. O “linchamento” ocorre – em maior quantidade – à velocidade do fluxo noticioso. Não interessa tanto se Lana Del Rey desafina mais nesta, ou naquela, actuação. Parece-me, contudo, relevante que seja alvo seleccionado. Importa, por isso, questionar. A não ser, claro, que, para nos sentirmos mais elevados, nos dê, também, algum prazer. O álbum de estreia, Born to Die, foi editado nos últimos dias de janeiro de 2012. Mas o “caso” já foi iniciado. “Tem”, constantemente, que se justificar: “Mine is an unusual situation because I’m not naturally a polarizing or controversial person. And what I sing about is actually pretty balanced, pretty normal”, segundo uma entrevista dada à estação de rádio KROQ de Los Angeles. Sempre foi assim. Martela-se, apenas, agora com mais força. Com a ajuda de mais gente. Parece-me: de gente que se tornou, um pouco, mais feroz. É o lado negro do “espírito de colaboração”.

 Afonso Duarte Pimenta


Formatação Informativa e Cultura PowerPoint

Apesar de toda a exaltação – “Era da Criatividade” -: este é, conjuntamente, um momento no qual se consegue testemunhar, em determinadas áreas, uma tentativa de simplificação. Ao mesmo tempo em que é utilizada e incentivada uma retórica que se apropria de conceitos como “liberdade” ou “diversidade” distribuem-se “directrizes” de género algo contrário.

Facilitar, dar a entender, integrar o leitor, “comunicar”: “readability” – legibilidade – é expressão que “cai bem” na “Sociedade do Conhecimento”. Será que, algumas vez, James Joyce conseguiria ser nomeado para o prémio, literário, Man Booker? Um editorial no The Observer formulou esta pergunta a 16 de Outubro de 2011. O júri tem que ler cerca de 120 romances num período de seis meses: um e meio de dois em dois dias. Uma das exigências: que sejam obras fáceis de assimilar. “Readability”. Dá jeito a toda a gente: quem julga não pensa muito e integra-se a “comunidade”. O troféu Literature, entretanto, parece ter surgido com vista a um equilíbrio. Andrew Kidd, porta-voz, sentiu, como foi noticiado a 13 de Outubro de 2011, no artigo “New literature prize launched to rival Booker”, por Tim Masters na plataforma, em linha, pertencente à BBC News, necessidade de se justificar: “é uma acusação – a de elitismo – tola. Tem mais a ver com a nossa sensação de que se abriu um espaço para um prémio que tenha a ver, inequivocamente, com excelência. Mesmo que isso, por vezes, signifique que os vencedores sejam desafiantes e que não caiam, necessariamente, em categorizações, simplistas, de legibilidade”. A especificidade, a criatividade e, por isso, a liberdade são, assim, dissolvidas para que não exista espectro desta continua paranóia que constitui este “medo do elitismo”. Esta acusação abre portas à standardização em vários sectores. Por exemplo: jornalísticos e musicais. “Cuidado! Nada de tiques! Nada de si. Pode ofender”. Em época ultra- individualista. Contradição? Não. Por isso mesmo: esmaguemo-nos uns aos outros. É “necessário” que tudo se encontre dentro dos limites bem definidos do espírito das “indústrias culturais e criativas”. Ou seja: pensar dentro da caixa do “pensar fora da caixa”. É a formatação da mensagem ao serviço de um nivelamento. Artificial e forçado. Onde não interessa, tanto, uma verdade interior, uma originalidade ou o confronto de ideias. Importa a sensação – uma aparência – de compreensão.

Assiste-se a uma sobrevalorização do conceito de “comunicação”. Da “conectividade” pela “conectividade”. Nem que, devido a condicionantes relativos ao negócio e ao suporte, se altere, muitas vezes para pior, a forma e o enquadramento. A velocidade, na publicação, ou a diminuição do número de caracteres, a nível textual, é defendida em, múltiplos, artigos de opinião, diáriamente, de modo aberto ou indirecto. Sem, qualquer, vestigio de análise sociológica. Que resultados e objectivos, jornalísticos, globais e colectivos, de médio e longo prazo – quando nem mesmo os mercantis o estão -, se poderão garantir se tal condicionar densidade, investigação e reflexão? Principalmente numa altura em que se ataca, cada vez mais, a figura do jornalista como intermediário? Quando está em marcha este anseio, tão em voga, de destruição do denominado “middleman”? Ficaremos, devido a esta mistura, confusa, de “revolução democrática”, ressentimento e branding, comercial, individualista, satisfeitos, apenas, com um “jornalismo- cidadão”, impreparado e insuficiente? Com a comunicação, directa, do líder político e empresarial? Sujeitos a todo o tipo de manipulações, discursivas, e simplificações? Neste momento, delicado, de reascenção de nacionalismos? A “Sociedade da Informação” deseja, realmente, contacto com o diverso? Há, demasiada, relativização sobre este assunto.

José Pacheco Pereira, num artigo, de opinião, essencial no jornal Público, de 04 de Fevereiro de 2012, responde a uma das “Perguntas que não levam a parte nenhuma“: “Porque razão os blogues têm cada vez menos importância?”. Uma questão, abrangente, que não ignora mas que ultrapassa, na minha opinião, razões políticas. Ou, qualquer, dinâmica de “conversação”. A imposição económica e a “incorporação”, faseada e social, da ideia de “tempo real”, uma, certa, impaciência para a reflexão, em silêncio, sem “partilha” ou interrupção e esta pulsão, recentemente, fabricada para a, perpétua, intervenção – para a “revolução” – substituem, tendencialmente, a leitura “mergulhada”. O impulso para a escrita longa e demorada

O Twitter – arma de “curadoria”, organização e protesto – para a defesa de valores distintos e, por vezes, opostos -; de disseminação, ultra- rápida, de informação; de marketing pessoal e empresarial – construiu-se, essencialmente, à custa do impacto forte, minimalista, da obrigatoriedade do uso de 140 caracteres. Confrontamo-nos, ultrapassando a linha vermelha, com uma, armadilhada, inversão de ideal´que nos deixa “paralisados” e sem reacção: “terá que ser mais inteligente”. É todo um, novo, caminho a ser criado.

Jornais adoptam a imediatez e o brilho como forma de captação de receitas publicitárias e atenção. Numa tentativa para se combater a dispersão do usuário. Vulgariza-se, assim, a ampliação do tamanho da letra, a utilização da cor forte, o “abandono” – em certos casos: a predominância da – à imagem, ao vídeo, à oralidade. Reduz-se o alcance e a dimensão do artigo. Integra-se o live- blogging. Para uma – na falta de meios – substituição: a ilusão de se estar a ser, melhor, informado. Como “testemunha”. “No local da acção”. Importa “criar” – em sociedade “artística”; da “manipulação” -; fingir um movimento. Para favorecer – não tanto a compreensão do acontecimento – a clicagem constante. Reina a voragem da busca e do link. Não raras vezes: mais da busca do que do link. Chamemos-lhe: zapping digital.

O problema, principal, de todo este discurso e desta tendência, excessivamente, direccionada para o mercado é, exactamente, esse: normalmente está preocupada com o mercado. Evita a interpretação, a perspectva, a causa e a consequência de médio ou de longo prazo. O “jornalismo”, quando é discutido, circunda questões relacionadas com “rentabilidade”. A importância do rigor e da investigação são relativizadas a favor de uma noção, indiscriminada, de “conteúdo”. Não se questiona, tanto e por exemplo, o facto de existir alguma falta de paciência para a escrita densa e bem fundamentada. Caminha-se muitas vezes, pelo contrário, ainda mais nesse sentido. O artigo “What newspapers have to learn from magazines“, postado por Emma Heald, em 24 de Janeiro de 2012, no Editors Weblog, aponta aquilo que segundo o director da área de design da Bonnier Business Press, Jacek Utko, deve ser a abordagem “criativa” – expressão que, neste momento, serve para tudo – da imprensa escrita para fazer face à decepção, comercial, que o tablet, também, tem constituído. A “solução”, desta vez, passa pela adopção de, pequenas, formas visuais já que estas reinam no universo do Twitter e do SMS. Aconselha, por isso, o uso de secções mais pequenas, com mais pontos, listas, caixas e gráficos para que a informação seja facilmente compreendida. Já não falamos, aqui, de fast- food. Entramos no terreno de uma estética PowerPoint. A estupidificação, clara, do leitor e usuário. A falha deste tipo de abordagem, puramente mercantil, reside no facto de Utko – como de grande parte dos “especialistas de comunicação” – não entender, ou fingir que não percebe, que esta facilitação obrigaria, depois de cristalizada em norma e moral, mais tarde a uma, nova, adaptação em nome da “competitividade”. E o sentido não seria, com certeza absoluta, o da complexificação.

Parece não bastar a proliferação de dicas sobre “como escrever bonito na internet” ou “como escrever com resultados para a internet”. Surgem, adicionalmente, fenómenos como o do workshop para se “aprender a ler mais rápido”. No planeta comunicacional das Breaking News e da última hora: interessa a quantidade. Das postagens que se lêem ou distribuem. É “informação” pela “informação”. Em detrimento de uma intimidade com o texto. Para que seja, melhor, sentido. E, por isto, compreendido e memorizado.

Escreve, num artigo de opinião, intitulado “Mais informação, menos conhecimento“, que pode ser encontrado no blogue Página 23, Eduardo Jorge Madureira: “Não é estranho, por isso, que alguns fanáticos da Web, como o professor Joe O’Shea, filósofo da Universidade da Florida, afirmem: Sentar-se e ler um livro do princípio ao fim não tem sentido. Não é um bom uso do meu tempo, já que posso ter toda a informação que queira com maior rapidez através da Web. Quando alguém se torna um caçador experiente na Internet, os livros são supérfluos. O atroz desta frase não é a afirmação final, mas que o filósofo julgue que se lêem livros apenas para obter informação“. Está “tudo” ali: a sobrevalorização do conceito de “informação” em época de comparação, crescente, entre o cérebro e o digito, a velocidade e já agora, vou “abusar”, a, inescapável, perda de “capacidade” para a demora. Para a concentração. Já lá chegou. Numa assentada: é toda uma “filosofia” – um forma de estar – a “destruir” outra. Se “toda a informação” está na internet: tudo o que foi escrito, até hoje e em literatura, tornou-se irrelevante? Que sentido toma – com que finalidade; devido a qual origem – esta necessidade de esquecimento e de fragmentação? Porque foge, este homem, do passado?

Nada disto se resume a questões de conteúdo ou formato. O idioma – esse imaginário e “esperanto” anglo- saxónico predominante – formata. A ânsia de se aumentar a popularidade mundial, de se ser detentor do “perfil mais seguido” ou a demanda por uma posição, considerável, no “top”, literário, da Amazon conduzem a uma “exigência” de mercado para a utilização do inglês. Que empobrece a representação e o imaginário pessoal. “Conversamos” mais. Contudo: também, mais, da mesma forma. E é, exactamente, porque nos “seguimos” uns aos outros que não é rara a repetição e a imitação de expressões em diferentes plataformas quando estão em causa assuntos iguais. Um exemplo, exaustivo e recente, é a utilização do termo “behemoth” como adjectivo referente a grandes companhias do sector digital ou da comunicação. Outros exemplos: “transparency”, “content”, “narrative”, “innovation”. Na “Era da Criatividade”: também se imita melhor. Por outro lado: inúmeros “evangelistas” dos média e canais informativos incentivam, insistentemente, à utilização de palavras- chave, consideradas, populares. Para que os artigos sejam encontrados, mais facilmente, através dos motores de busca.

Nada disto ficará por aqui. Um artigo de Steve Lohr ,In Case You Wondered, a Real Human Wrote This Column“, publicado a 10 de Setembro de 2011, no New York Times, destaca o trabalho desenvolvido pela empresa Narrative Science no campo da inteligência artifical. Nomeadamente no departamento da criação de software que, segundo responsáveis, imita o raciocínio humano. Recolhe dados, por exemplo, de resultados desportivos para os converter em “artigos”, curtos, que são postados um ou dois minutos depois do fim de cada partida. Tem clientes como a The Big Ten Network, uma parceria entre a Big Ten Conference e a Fox Networks, que passou a usar, a partir da primavera do ano de 2010, a escrita automatizada para recapitular jogos de baseball e softball. Builderonline.com, um sítio dedicado ao mercado imobiliário, utiliza-o para a postagem de relatórios mensais porque, segundo Andrew Reid –  presidente na área dos média digitais –, “contratar pessoas ficaria muito caro”. Vamos utilizar a tecnologia como muleta? Ou, afinal, também como substituta – ultrapassando o “manual” – do trabalho “criativo”? De qualquer forma é evidente a formatação estilística e da mensagem que promete a implementação. A comunicação e o jornalismo ultrapassam, assim, a esfera humana.

Existe, claro, “criação”. Mas é dinâmica que em, grande medida, se inclina para o campo da tecnologia, das aplicações, do desenvolvimento de redes sociais, do open source. Estratégias e refúgios de um mundo instável e atomizado onde a sobrevivência, individual, não está garantida. Um “gesticular” que é causa e espelho da crise económica e financeira.

Tende, por outro lado, para a imagem, o design, a “interactividade”. Para o comércio da sensação que os valida. Este impulso para o toque, a sensualidade e a manipulação – uma forma, algo, inquieta, para se interferir; “participar” sem esperar  – reduz a relevância do que é, textualmente, transmitido, da interpretação e do contexto. Mas o multitask que inquietou – reduziu, com o passar dos anos, a “capacidade” de concentração do usuário – serve, agora, de motivo e justificação. O aumento da utilização do vídeo, a gamification of news, a mulher, na imagem em movimento, de saia ao vento: a informação é agora, mais do que divertimento, “experiência”. Nada poderá ser “boring”. É exigência grátis e “fun”. O que existe de “realidade” – de responsabilidade – é, não convertido, mas moldado na direcção de, ainda mais, entretenimento.

Proponho por isso, sempre que possível, um exercicio de “força contrária”. Existe um paradoxo entre um mundo que se complica e um imaginário que, de forma extrema, se comercializa; se simplifica. Parece-me ser necessária uma resistência. Evitar regras, “requentadas”, servidas, muitas vezes, por quem nunca teve um interesse, genuíno, pela escrita ou por um tipo de “literatura” que não seja comercial. Fugir, um pouco, à noção de fabricação do “conteúdo”. Não ter, demasiado, receio da metáfora devido a uma “necessidade” de se alcançar a “legibilidade” perfeita. Que, no fim de contas, é baseada em conceitos abstractos, pessoais e subjectivos, de “normalidade” ou “igualdade”. Que acabam, sempre, por tudo nivelar e, por isso, empobrecer. A atenção à forma não é, apenas, estilo e “arrogância”. A diferença e a experimentação constituem, também, uma mensagem e um sentido. Nem que seja: o da liberdade pessoal. Esquecer, por momentos, a popularidade. Transferir a noção de quantidade. Da postagem para a letra. Para um significado. Precisamos de “mundo”; de “complicação”. A realidade, bem o sei, é, actualmente, distinta. Cada um poderá construir, contudo, um  tempo próprio. Para que exista interpretação. Mais pessoal. Também por isso: mais rica e verdadeira. É que nem tudo é “data”. E, com certeza, nem tudo é “content”.

Afonso Duarte Pimenta


“Conectividade” limitada: “igualitarismo” informativo e ilusão democrática

É o momento para sermos exigentes: o ponto em que promessas, por vezes, um pouco vagas e, em certos casos, bastante ilusórias, sobre comunicação e “liberdade”, nos parecem asseguradas.

A rede social promove e desenvolve a, muito, publicitada “conectividade”. Não lhe confere, contudo, qualidade no que respeita ao “conhecimento” – à “informação” – que distribui. Em tempos de “curadoria” – do “jornalista- cidadão” – levanta-se a necessidade de uma “educação para a fonte”: para a leitura, completa, do artigo, da notícia ou reportagem. Antes da, respectiva, postagem. Para que se evite, o mais possível, “a conversa”, simplesmente, em redor do título ou da leitura em estilo “diagonal”; o comentário, irreflectido e impulsivo, motivado pelo desejo de “participação”.

Nada se constrói com um fluxo, ininterrupto, que descure a selecção. De nada serve, para uma observação, objectiva, da realidade, somente “comunicar”. “Exige-se”, ao mesmo tempo em que aumenta a produção e a circulação, numa internet que se agiganta, diáriamente, com, múltiplas, perspectivas e “conteúdos”, um certo travão e, algum, refrear: o “regresso” da “edição”.

É comum o “ódio” ao jornalista, o de aparência mainstream, na caixa de comentário. Como também o é a, demagógica e conveniente, defesa da “internet” contra aquilo que é denominado, artificialmente – não sem prazer e desprezo -, como “jornalismo tradicional”. Como se aquela se fizesse, ou actuasse, apenas por si. Não devido a uma intervenção humana. Como se fosse batalha, imprescindível, em nome de uma noção, muito confusa e baralhada, de “igualdade”. Em vez de se tentar a, mais do que necessária, síntese e, verdadeira, “colaboração”. É que “tradição” é denominação que se perdeu – esvaziou – face a uma, bem fomentada, dinâmica, “perpétua”, de inovação industrial e tecnológica. Tudo é, simultâneamente, passado, presente e futuro: “arcaismo”, novidade e aspiração.. É, contudo, expressão, eficazmente, aproveitada. No incentivo ao gadget sucessivo. À atenção, redobrada, ao “guru”, de mercado, que se segue. O próximo, “especialista”, a levantar o dedo. Na multidão: “Eu tenho A solução”. Escusado será dizer: uma solução para a continuidade da necessidade. A estabilidade, aqui, não interessa. Nem alimenta a economia digital. Deitemos fora as ilusões. Vendem-se, novas, dependências. O êxtase e o, rápido, orgasmo desta sensação de modernidade: “Por favor! Uma nova aplicação!”

Múltiplos suportes e plataformas “respiram” ainda, apesar de tudo – embora não só -, através do que lhes é fornecido por, alguns, orgãos de comunicação “com história”. Onde meios e quantidade não significam, unicamente, lucro ou “controle corporativo”. Mas qualidade que se tornou padrão, referência, imagem de marca. Jornais há muito reconhecidos, agora também em linha, estão entre os que continuam a atrair um grande número de visitantes. Moldando – também para o bem – o panorama, político  e social, informativo.

Não existe blogue, comentário ou texto avulso, fundamentado, que possa dispensar uma comunicação social financiada. “Novos modelos de negócio” eficazes, para uma informação séria, tardam, apesar de, sistemáticos e repetitivos, anúncios anuais, em se solidificar. Os, cada vez mais, baixos rendimentos de uma publicidade, digital, dispersa e fragmentada mostram-se insuficientes para garantir uma democracia que não derive para uma preferência, maior, por um entretenimento que tende a isolar em vez de “pôr em contacto”; de contribuir para uma atitude critica – documentada – relativamente ao poder estatal e empresarial.

Relativizar – desvalorizar- a sociedade do gratuito pelo gratuito, da oferta contínua e do garantido; resistir à chantagem, em espiral, por parte de um tipo de consumidor infantilizado: ergue-se, aqui, a necessidade de um apelo, superior, ao papel da responsabilidade pessoal. Que estamos a dar em troca?  É, precisamente, devido à, actual, crise, económica e financeira, internacional, ao recuar de liberdades que a desatenção, crónica,  considerava garantidas, ao “ressurgir” – como se não estivessem, sempre, à espera – dos nacionalismos e fanatismos, morais, habituais – que deveriamos voltar, sempre que pudéssemos, a pagar por uma informação que valorizamos – porque, afinal, nos servimos dela, constantemente, para “enfeitar o perfil” -. Porque nos permite continuar, ainda, em democracia. Para que dependa menos de uma publicidade ou direcção, ideológica, “encapotada”, de “subsídios” e “reestruturações”. Para que sejam reduzidas falências e despedimentos. Para que seja protegido um género de investigação que nada substitui. Para que meios de comunicação e informação, ainda, com qualidade não se vejam obrigados – como tem acontecido habitualmente – a mudar de estratégia. Em direcção a critérios de selecção, unicamente, comerciais. Contribuimos, ao descartá-lo, também para a crise.

Apesar de, alguma, standardização, fictícia e formal, que surgiu com o digital: nem tudo vale o mesmo. O Daily Mirror não é o El País. Uma plataforma, de rumores, como Drudge Report ainda menos pode ser colocada a par de um Le Monde Diplomatique. A temida “propaganda” e “manipulação”, em tempos de uma certa paranóia, generalizada, anti- establishment, não se detém nos veículos que mais nos parecem ameaçar. Pelo poder que aparentam ou que, sobre eles, projectamos. O usuário “comum” e a escrita que instrumentaliza não são menos perversos, em intenção, quando pretendem difundir a mensagem que lhes interessa. A desinformação, em redes sociais, blogues e caixas de comentários, é mais do que vulgar. Com uma “agravante”: ao ser, superficialmente, “inofensiva” é mais tolerada. Não tem uma ética, um nome, uma carteira, profissional, a defender. Deixemo-nos de paixões. Precisamos de jornalismo como ele precisa de nós. Um smart- phone ou meia dúzia de opiniões, embora indispensáveis, não bastam.

A “conectividade” não é, por isso, suficiente. Precisamos de sentido, interpretação e contexto. Não tanto de uma “personalização” que nos distancie. Cabe-nos “recuperá-los”. É que a noção de “igualdade”, aqui, pode ser sinónimo de populismo. Ficção e desistência. Por paradoxal que pareça: de anti- democracia. Por evitar distinguir. Por pretender fingir – ao ponto de o “materializar” – que, para melhor se integrar, há um esforço que deixou de ser critério. O problema de fundo é o ataque, indiscriminado, a tudo o que tenha ares de “poder instituído”. Em nome de que substituição ou, nova, “manipulação”? De que, outro, “poder instituído”? Fazer “a revolução”: sim. Sem auto- destruição.

Afonso Duarte Pimenta


Download: “Passivo” (Consumismo Agressivo/ Do Medo do “Elitismo” II)

Não estamos, felizmente, ainda a partir montras. Para além de uma obsessão – um fascínio – pelo ecrã, devido a uma capacidade de representação – e publicação – colectiva, o que o diluiu, tornando-o, ao mesmo tempo, impessoal e omnipresente, imprescindível e irrelevante, diversificando o “consumidor”, colocando-o, finalmente, como “artista”; figura “mediática”; mais do que uma pulsão para a filmagem e transmissão: abraçamos uma aparência;  um ideal, forjado, de “democratização”.

Estamos, por causa de uma necessidade de desforra relativamente ao fenómeno de glamourização – construção do estatuto de “estrela” – da sociedade do espectáculo que percorreu, principalmente com a ascenção do cinema, todo o século XX, a reduzir as possibilidades de remuneração em determinados sectores do trabalho jornalístico e cultural. Não os financiando. Sem “novos modelos de negócio” que, embora amplamente anunciados, os substituam, verdadeiramente. Limitamo-nos, progressivamente, a uma realidade tecnológica em constante mutação e fragmentação. Que assegura, essencialmente, a distribuição. Através de uma publicidade de retorno reduzido. Por causa de uma dispersão e impossibilidade de financiamento suficiente – ou possibilidade de financiamento insuficiente: resistindo, o usuário, a pagar pelo que consome – é obrigada a reduzir a mão- de- obra – para lá da exploração, via substituição e submissão, graças ao aumento da mecanização, robótica e do software disponível -, favorecendo o multi-task e, por isto, a erosão de uma capacidade de concentração, análise e reflexão. Indispensáveis a uma interpretação individual e, por isso, social, mais ou menos, objectiva. Imprescindível a uma produção, densa e fundamentada. Que nos afaste, um pouco, da desinformação – do espírito de fábrica – vinculada por um mercado escravizado pela rapidez, pelos “objectivos” e “resultados” imediatos. Precisamos, mais do que nunca, de uma visão de conjunto. De um espírito, de integração, que beneficie o produzido. Em detrimento da forma. E do efeito.

Embora exista um discurso, actual, que parece valorizar o “conteúdo”: este é apenas acessório, facilmente substituível pelas condicionantes, arbitrárias, do mercado tecnológico. Meio descartável e, sempre que necessário, modificável. Veículo para uma disseminação do gadget, da plataforma, da aplicação. O que nos desloca para um género de pensamento, tendencialmente, enclausurado na programação informática, na “ditadura” da “conectividade”. Em certo sentido: numa predominância do raciocínio matemático.

O aperfeiçoamento das técnicas de sedução – não sem alguma perversidade – por parte de um, venerado, espirito de marketing que está, actualmente, por todo o lado – para se atingir uma “marca”; um “valor de mercado” – fazia algum sentido quando não era, ainda, parte constituinte de um tipo de sistema que, entretanto, se tornou auto- destrutivo e desesperado. Devido, em grande medida, a uma atomização e multiplicação das actividades comerciais: todos somos, a partir de agora – e simultaneamente -, “CEO´s” e o artigo que vendemos. Media-se uma eficácia quando se considerava o “cultural” em pé de igualdade com outro produto qualquer. Integrado e inerente: não escravizado por um olhar – uma ideologia -, exclusivamente, digital. Merecedor de uma valorização que se despreza, agora, como adicional.

Embora, para se pacificar, haja quem o tente negar: um preço – interpretado, aqui, como “dificuldade”; acima de tudo: responsabilidade – acrescenta, sempre, algo ao desejado: a existência do outro, nada virtual, que o concebe. O que pode, dentro desta perspectiva, significar quase tudo. Uma obra de ficção, um álbum de originais ou um jornal serão melhor aproveitados se for “complicada” a aquisição. Ganhando, com isto, um significado – aqui sim – “comunitário”. Porque o discutido é aprofundado.

Mas o individualismo, contemporâneo, exige conforto – “receamos”, contudo, que tenha, brevemente, que se adaptar à impossibilidade de um regresso; a uma outra forma de estar. A desestruturante competição “empresarial” desenha-se sobre uma, inesgotável, demanda pela oferta e facilidade. Acontece que o bem estar físico não se traduz, de forma inevitável, em emocional. Levanta-se, pelo excesso, “estranha” intuição. A chegada desta sensação, afinal, entediante: de a tudo se aceder. Um enfraquecimento dialético. Não parece, por aqui, haver muito a conquistar.

A noção de valor é anarquizada e subjectivada ao afastarmos o “criador” do processo. Sujeita, em larga escala, a variáveis que em nada se relacionam com o objecto. Mas com inclinações momentãneas – inconscientes, desonestas, ressentidas – por parte de quem “avalia”. Com uma tendência, natural, para uma diminuição, em espiral, ou eliminação. Por se encontrar ausente de uma normalização ou regulamentação que lhe confira protecção; um maior equilíbrio. Relativamente à utilização, anterior, do adjectivo “criador”: tenho que ironizar. Não no sentido que se possa, normalmente, considerar. Há que usar, aqui – para se fazer um favor – , um jargão pouco “económico”. Embora exista, por vezes, a sensação de que é, exactamente, terminologia como esta – contaminada, moralmente, por uma raiva – quecondiciona”, por vezes, a um não pagamento.

Generalizou-se, nos últimos anos, com a proliferação de estratégias de divulgação que têm por base o conteúdo oferecido – na impossibilidade: com a multiplicação de mecanismos, como o download, para o tornar oferecido – uma espécie de “feira digital” que o confundiu ao ponto de ser considerado como “direito”, no tempo de todos os direitos – principalmente de alguns que devido a um abuso, talvez – quem sabe – excesso de mimo, provocam uma inversão tal que quase – ? – roça a desigualdade: o de “sermos informados” – sem uma contribuição; quando se fala – tanto – de “sociedade civil” – mas, preferencialmente, entretidos. O que se converteu, rapidamente, em exigência, tornada inevitável, de fuga e alheamento. Mesmo que estas sejam também uma causa. Porque o método é apenas atalho. Tudo isto é, igualmente, arbitrariedade: devido a uma dificuldade em legislar; incapacidade, até ao momento, de controle – do estado – da internet; da internet como estado: um governo, se impotente – quando se vê incapacitado para agir -, também costuma, para se popularizar – e fazer esquecer -,privatizar”.

Existem termos que se adequam menos do que se pretende acreditar: “espírito de colaboração”: que género de “partilha” existe no facto de se fazer uma descarga, desde sempre não consentida, de um ficheiro, com uma obra que nunca nos pertenceu, ainda está por apurar.  Beneficiar o consumidor, pondo de parte o “autor” – “esse prepotente; como ousa intitular-se assim?” -, é metade da “revolução”. Mas – creio poder-se dizer -: não há memória de alguma sem um pouco de “sangue”. É claro que o tentaremos “limpar” ao, como exemplo, exclamarmos: “Com o download dou visibilidade a um agrupamento que, de outra forma, seria, para sempre, desconhecido”. Um salvador. Os diferentes processos que levaram à fabricação e aceitação deste tipo de falsificações como “verdades” e normas sociais foram, contudo, indispensáveis ao mecanismo de transição para o digital, à emergência e tomada de poder por parte de novos actores, empresariais e profissionais, na re – hierarquização, mundial, em curso. Foi fácil persuadir: a quantidade – uma maioria – transforma tudo – à primeira vista – em “democracia”. Não está – pelo contrário – em formação uma distribuição das oportunidades nos termos em que se pretende assegurar. Foi este o golpe de génio. Inatacável pelas expectativas que criou. A “promessa” que constituiu, essencialmente, uma manobra para efeitos de propaganda. A manipulação argumentativa a olear a engrenagem.

O universo empresarial pensou a sociedade do gratuito como “inevitável”. Incorporando-a; favorecendo-a. Colocando-a, de vez, no patamar da moral: uma causa a defender. Não se trata, já, do “melhor produto” a ser vendido ao menor preço: a competição é pela oferta. Devido a uma abundância: o “normal” passou a ser, frequentemente, desinteressante. O “exclusivo” ou “especial” considerado como algo vulgar; mais ou menos apreciável, dependendo do “tempo”, de uma tolerância e disposição . De uma “boa vontade”. Não é difícil compreender que tanta espera – tão pouco esforço – não revela – beneficia – um crescimento ou maturidade. Há qualquer coisa de falha fundamental nesta tentativa de erosão de uma possibilidade de trabalho em sectores, teoricamente,  desejados.

Podem – jornalista, escritor, cineasta, compositor – continuar a esbracejar. Dir- lhes- emos – para uma consciência mais tranquila – que o fazemos, únicamente, para “os ajudar”. Em prol de uma luta – pedida por quem? Não chegou ao contrato? – contra a “exploração da multinacional”. Como se não estivesse a ser posto em causa, a partir deste momento, também um mundo “independente”. Por vezes, e em última análise, bastante solitário. Mesmo que, com esta atitude, façamos quadruplicar os lucros de outra. Desta vez em sector alheio: o tecnológico e o digital. Poderiamos, num repente, inventar uma designação. Talvez: sobre- exploração?.

Tudo isto se assemelha a “espírito de natal”. Vem-nos, subitamente, à memória aquela criança – asfixiada por prendas; cercada de adultos – que começa a rasgar o segundo embrulho antes de acabar, de abrir, o primeiro. Finalizou a visualização do último vídeo dos Artic Monkeys antes de o colocar na rede social?

Não ajuda qualquer negócio: palavra intrusiva, chata, inoportuna. “Devia resguardar-se; mostrar algum decoro”. Isto: se aplicada ao sector cultural. Mesmo que seja, por aí, distribuído – com toda a sabedoria do “guru” da economia – que “acabou o tempo do emprego para a vida”. O tipo de advertência que, para além de ser alarme, materializa uma sentença. Contudo: bateremos palmas ao ultra- monopólio que nos fizer a vontade – mesmo que, pelo caminho, arrecade vários milhões; nos disponibilzar a biblioteca ou uma “nuvem”; nos substituir a cópia pelo original: uma das “caracteristicas” da cloud – da Apple – é, exactamente, a possibilidade de “renovação” automática, através de um sistema de detecção, de temas musicais, anteriormente, adquiridos por nós. Agora com qualidade sonora superior. Uma porta, aberta, fatal. Para a institucionalização da pirataria. Para uma injusta distribuição. Entretanto: as “indústrias culturais” são realçadas – pelo governo; por um “criativo” – como “motor” de uma futura – e, aqui, atenção ao advérbio – “recuperação económica”. Mea culpa: eu, no passado, incluído.

Não beneficia o “consumidor” que poderá aspirar, um dia destes, a ser autor. Mas que, provavelmente, acabará, também, a desenvolver “aplicações”. Por exemplo: de “conteúdos personalizados”. Uma das propostas mais recentes, antes da próxima, para se “monetizar” informação – devedora, sem dúvida, de uma certo egocentrismo e autismo existencial; ou a conceber outra qualquer – talvez desnecessária até ao momento da sua criação – para telemóvel. Se, entretanto, o conceito não tiver desaparecido. Sido substituído devido a uma inovação permanente. Que não “pretende”, porque incontrolável, mudar de direcção. Para onde o limite de velocidade seja um pouco mais humano. Prefere, de facto, o desvio contínuo. O desatino contínuo? Instabilidade perpétua a ser vendida como “progresso”.

Há uma diminuição, considerável, em termos de satisfação quando se encontra ausente uma luta pela obtenção. Do que o outro produz. A não ser que, através desta passividade, tenhamos descoberto – e aproveitado – para um novo prazer: usufruir da recusa. Exactamente: porque o outro produz. Todos, somos, agora: um “artista”, “actor” e avatar. Atravessamos o ecrâ. Estamos, por fim, no centro do palco. Se, contra toda a lógica, acreditamos nisto: para quê pagar? Debaixo de um outro foco – um pouco mais real – alguém se ri. Sabe o que iremos comprar. Conhece a razão. E, antes de correr as cortinas, agradece.

Afonso Duarte Pimenta


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