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Regresso ao Futuro (Um Punk em Sillicon Valley)

Começo esta crónica por explicar o que, para mim, constitui uma atitude que poderia denominar como “punk”. Correndo o risco de passar uma linha vermelha. De não me instituir como fazendo parte integrante do cânone do género. A ideia, para mim, é vasta. Não se inscreve em nenhum tipo de elaboração conceptual anarquista. Radica, antes, na elaboração de lutas e de conceitos novos. Mas também na demanda, na procura e no favorecimento de figuras tutelares inspiradoras para que tal seja possível. Precisamos, a todo o momento, na falta de “religiões”, de focos de luz. Que façam frente aos alvos de sempre. Sem qualquer tipo de estagnação filosófica. Misturada, naturalmente, com uma certa intemporalidade de base. Ou, pelo menos, sem retracção total de valores antecedentes. Porque, a meu ver, de nada serve a “mudança” se esta entrar em choque com os limites que fazem de nós humanos. Isto pode abarcar tudo o que mobiliza uma sociedade inteira em termos de manifestações culturais: o jornalismo, a música, o teatro, o cinema, a política, o ensaio filosófico.

Não adianta, porque estamos em crise, acharmos que tudo se resolve, apenas, através do combate às instituições “tradicionais”. Acreditanto que, apenas, uma espécie de modelagem radical “externa”, estrutural, digital e tecnológica, resolverá todos os problemas sociais. Por vezes: olharmos para o passado pode levar-nos ao futuro. Contudo, para isso, convém tentarmos perceber o que já está a acontecer. Isso implica olharmos para dentro. E as directivas civilizacionais e comerciais de Sillicon Valley – que “contaminam” o resto do mundo – são bem menos “progressistas” do que se quer fazer parecer. São, no fundo, uma continuação. Um espremer das forças de mercado. Em direcção aos “nichos” e, por isso, à instabilidade perpétua.

Parto, por esta razão, de uma espécie de “vazio” que encontro, há anos, em termos de circulação informativa. Em termos proporcionais: a crítica, social, à sociedade tecnológica e “digital”, contrariamente a muito do que se escreveu – e que se filmou – no século XX, não é, ainda, mainstream. Começa, só agora e apesar da excessiva propaganda em sentido contrário – aliás: por causa dela -, lentamente a afirmar-se. Principalmente devido ao mediático caso das escutas posto em circulação devido a Edward ou – como lhe queiram chamar – Chelsea Snowden. A análise, extensa e inteligente, foi, até agora, apesar das evidências para quem quisesse estar atento, evitada. Poucos autores, actuais, a têm levado em consideração. Poucos jornalistas acharam que o facto merecia atenção. Assim como as redes sociais. Principalmente as redes sociais.

Mas não se trata, na minha opinião, apenas de uma questão de propaganda ou de vontade de fuga e ilusão: os objectivos civilizacionais, há poucos anos atrás, eram um pouco mais definíveis. O poder político e empresarial estava um pouco menos às escuras. Não se tinha tornado, socialmente, mais escondido, perverso e sofisticado. Sem o jogo de espelhos que, no momento actual, polariza e de certa forma adormece e desvia vontades. O poder, seja de que ordem for, nunca desaparece. Metamorfoseia-se: move-se em direcção a novos actores. Esconde-se, sempre, por trás de novas instituições, eufemismos, palavras mansas e um tom de voz um pouco mais suave. Portanto: a “atitude” de combate generalizada não está, nem de longe nem de perto, na ordem do dia relativamente ao tipo de poder que, actualmente, se forma. Não se encontram os – mais fáceis – “antigos” alvos. Nem objectivos políticos concretos. Tal exige, devido à complexidade comunicacional em que vivemos actualmente enrededados, uma maior atenção. Leitura intensa – com calma – de livros interpretativos de pendor “tradicional”. Dos milhares de artigos de direcção contraditória que são diáriamente “postados”. Para que sejam coerentemente analisados. Com alguma distância. Para que se possam identificar tiques, repetições e, principalmente, intenções.

De I- Pad  na mão, Smartphone na outra, com a internet ao chegar a casa, televisão ao fundo da sala e óculos da Google prestes a serem massificados para que não tenhamos um segundo da vida sem “informação” ou “alienação aumentada” – não raras vezes desinformativa – : os sentidos encontram-se “entupidos”. O sentido do interior. O que resvala,  quase inevitavelmente, a uma certa apatia e diminuição de perguntas civilizacionais. As que se poderiam fazer – e não o são – ao sistema político e ideológico, agora, em constante reconstrução e mutação. Aquele que nos permite a utilização e o favorecimento de toda a tecnologia que temos, cada vez mais, à disposição. O que massifica. Nos torna amaciados. Impedindo uma maior diversidade cultural e social.

Porque são as gerações mais novas quem interessa mobilizar: muita da música que se ouve hoje em dia na rádio e mesmo na internet é de índole, tendencialmente, escapista. Apolítica. Um “LSD”. Placebo de curto prazo. Indolor. É “adolescente” e, por essa razão, não “perturba” quase ninguém. As chamadas de atenção lirica deslizam para o “grunhido” gratuito: “Who cares”, “Whatever” ou “I´m bored” são expressões recorrentes na “geração” de “todos os gadgets”. Não encontramos generalizada a “violência” verbal – contra a ordem actual – de um Henry Rollins; o choque mediático provocado pela inversão da bandeira norte- americana por parte de uns Rage Against The Machine no palco de uma das edições dos prémios da MTV quando o canal tinha, nos anos noventa, alguma coisa para dizer e para transformar antes de se ter convertido em mais um comum transmissor de reality shows; a inteligência in your face dos Clawfinger. Para citar, apenas, nomes com visibilidade comercial. E o facto de a terem dizia muito. Traziam, além de uma pose um pouco menos confecionada por estatísticas: mensagem e interpretação. Coragem para assumir riscos. Em expor uma definição pessoal. Sem medo de  parecerem “elitistas” quanto ao alertar de consciências. Um ligeiro “perigo” encontrado nos dias de hoje pela ultra- vulgarização do conceito “democrático” como está neste momento a ser favorecido. De facto: parece existir uma certa “anulação” em curso relativamente a determinados assuntos que parece instaurar uma sensação de “não valer a pena”; “o mundo sempre foi assim” – e, sabemos, “perdoem-me” os relativistas e os interessados do costume, que não o foi: já não andamos a carregar blocos de pedra durante uma vida inteira, só descansando no Nilo, para a construção da pirâmide em louvor de um qualquer faraó -. Este “sintoma” não se encontra, apenas, a nível lirico ou vocal. Vai-se, adicionalmente, desvalorizando a figura do front-man. Favorecendo a obscuridade pessoal – a “voz grave” – para o transpor para o espírito de grupo: o panfleto gratuito e tão na moda denominado por “espirito de colaboração”. Uma certa vergonha, portanto, quanto à responsabilidade pessoal.

Também não é raro o número de escritores que, actualmente, prefere não intervir politicamente ou dar opinião devido a esta difusa e desistente “noção democrática”. No fundo e sem recorrermos a eufemismos: é o medo. O “terror” da exposição pessoal num planeta inundado por comentários inflamados pelo marketing e pela venda apressada de livros.

Esta atitude não faz muito por uma democracia social real. Conduz a uma certa “asfixia” cultural. Quando o internauta ou o autor não se mostra e não intervém para além da esfera reduzida da repetição informativa que tem como ponto, principal, de referência as redes sociais. Onde, no fundo, nem em todos os assuntos “se pode” tocar. Devido a um tipo de moral que pretende salientar o “optimismo”, os “likes” e a “partilha”. Que “conecta” digitalmente mas que faz pouco pela verdade e pela realidade.  Que deve, quando possível, ser expressa e escrita “para ninguém”. Como ideal: fingirmos que não somos apenas “consumidores”, com interesses carreiristicos exagerados, avatares e “amigos” para agradar. A informação, para que haja mudança, deve, em primeiro lugar: perturbar. Se estamos à espera de nos falsificarmos para termos mais seguidores através de um Twitter: não é, exactamente, a cultura que estamos a favorecer. Também não é o jornalismo. Nem mesmo o “jornalismo- cidadão”. Apenas um reforço do mesmo. Parece que “convém” não darmos muito de nós para não “ofender” o “concorrente” do lado. O que nos transforma, generalizando, em “humildes” papagueadores da “verdade” digital que suporta os meios que usamos para que possamos “comentar a realidade”. É mais fácil virarmo-nos para os alvos “tradicionais”. Olharmos para o abuso das instituições em formação põe-nos em causa. Porque as utilizamos mais do que nunca. O que nos faz temer uma suposta contradicção.

Voltaire diria que vivemos, mais do que nunca, num mundo de ingénuos. Num mundo de cândidos. Ou de cinicos? Ou de cansados? Sem temer a bolha rebentar. Sem saber e , de certa forma, sem querermos saber que pode rebentar. “Alucinados” que estamos pelas promessas, obviamente “digitais”, da “sociedade da informação”. Sem percebermos que a forma como, pelo menos actualmente, se articula não é sinónimo de “conhecimento”. Ela é, quando muito, indício de puro “mercado”. Uma outra internet seria possível?

Nem tudo se enquadra no que acabo de expor: vou  apontar pequenos exemplos contra- corrente, nos diversos sectores, que penso merecerem serem levados em consideração: em termos jornalisticos existe o sempre atento Le Monde Diplomatique. É um ponto, incansável, de resistência. Vale a pena segui-lo. Em papel e na edição digital inglesa. Sabendo que não vive do ar. Mas à custa de subscrições. Um género de oásis que, na falta de atenção, vai escasseando. O El País: é raro o dia que não publique um artigo de opinião sobre os assuntos que, resolvi, aqui abordar. Portugal, nesta matéria, tem sido um deserto. Relativamente ao ensaio: existem alguns, bastante insistentes, autores. Como Evgeny Morozov. Conhecido, principalmente, devido a um primeiro livro: “The Net Delusion: How Not to Liberate The World”. Outro exemplo, acessível, é Nicholas Carr. Que publicou “The Shallows: What the Internet is Doing to Our Brains”. O artigo que escreveu no ano de 2008 para a Atlantic, “Is Google making us stupid?”, tem sido, desde então, amplamente debatido. Em termos televisivos convém estarmos atentos a uma série que está a ser rodeada por algum culto. Intitula-se Black Mirrors e é uma criação de Charlie Brooker. Tem uma inclinação mais ou menos caricatural. Mas devolve-nos alguma realidade. Como alguns medos e fantasmas adormecidos pelo utopismo tecno- científico deste início de século. Uma prova de coragem, no cinema, foi dada por Sofia Coppola. Através de “The Bling Ring” – em português foi traduzido como “O Gangue de Hollywood” -. O argumento baseia-se em factos reais: um grupo de adolescentes, obcecados com a fama, resolve assaltar casas de figuras públicas. O filme é uma alegoria ás questões de falta de privacidade actual: acabam por ser apanhados devido à utilização de redes sociais. Não posso deixar de apontar, para finalizar, um dos últimos vídeos dos Placebo: “Too many friends”. Onde a – para mim: erróneamente – intitulada “realidade aumentada” é amplamente parodiada. São apenas alguns exemplos. Há mais. Mas, em termos proporcionais, é pouco. Precisamos de abrir caminho. De focos de luz: que façam perguntas não apenas sobre o que está errado com o passado. Mas, também, sobre o tipo de “soluções” que estamos a construir. Para que não sejamos enganados outra vez. E outra vez.

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“Silicon Valley”: Resistência à Interpretação

O artigo de Gillian Tett, intitulado “The Science Interview: Jared Diamond” e disponibilizado no passado dia 11 de Outubro no Finantial Times, não pode deixar de me lembrar uma questão que tem sido, em mim, mais ou menos recorrente. Em conversas que tive e textos que escrevi no passado recente: uma necessidade de mundo. De complexificação temática, terminológica e linguística. Predomina, principalmente nas redes sociais, a troca de “informação” em inglês, a quase ubiquidade dos estudos de Harvard, a venda de uma ideologia que, mais do que uma “revolução”, se assemelha a uma espécie de evolução – no seu significado intermédio: mais ou menos neutro; não totalmente progressista; visto como continuidade – de um estado anterior. Agora: um pouco mais arbitrário e confuso. Com epicentro em Sillicon Valley. Não é tanto uma “globalização” cultural que encontramos. Mas, em certo sentido, uma multiplicação do marketing personalizado. “Espremido” pelo espírito publicitário de retorno insuficiente. A tentativa de concentração das vontades globais na “indústria de conteúdos”. Na “criatividade” tecnológica e cientifica. Com os olhos postos em resoluções, civilizacionais e económicas, de curto prazo. Precisamos, por esta razão, de “tempo”. De impulsos opostos. Grelhas de interpretação, humana, literária e mediática, contrastantes.

Já não é o “crescimento perpétuo” catequizado, nas últimas décadas, através dos meios de comunicação social que mobiliza, agora, as ilusões. Mas, em certo sentido, o “estertor” – decepção disfarçada – de si mesmo. Precisamos de “nichos”, “to think out of the box” – e, contudo, tal configura toda uma nova caixa -, de “innovation”. Para a possível sobrevivência individual. Modelo descaracterizante de identidades regionais e nacionais. Como se faz à custa do enfraquecimento do papel do estado. O cidadão è abandonado à “responsabilidade pessoal”. O super homem na solidão. À volatilidade darwinista da “criação a partir do caos”. Do caos a partir da criação. Instaura-se, assim, a insegurança perpétua. Para que possa mostrar aos mercados que é “criativo”.

Posição que não deixa, afinal, de ignorar todo um conjunto de visões “dissidentes”. Avessas a, precários, “novos modelos de negócio”. Apesar da interminável economia da “opinião”. Que prolifera e os defende: evitando, assim, a interpretação externa. – quebrando a aparência democrática -. Se não estiver, inteiramente, de acordo com as doutrinas, maioritárias, do momento. Interpretar, linguisticamente, significa, mais do que antes, retirar poder.

Olhando, ainda e sempre, para os alvos “tradicionais” – expressão que, actualmente, quase constitui ofensa e um anátema – por razões económicas, geracionais ou identitárias: não olhamos para cima nem olhamos, verdadeiramente, para a rede. O que impede a formação de alternativas. Criando obstáculos à identificação de problemas e questões que são já actuais. Que se avolumam não só devido à velocidade com que se desenvolvem as estruturas digitais. Mas também devido a uma banalização da expressão e da representação jornalistica. Das humanidades.

O domínio, comunicacional, do inglês, como esperanto, reduz e simplifica. Não permite variações significativas. Culturas que, em certa medida, são relegadas para segundo plano. A competição pela chamada de atenção mediática ocorre, hoje e mais do que nunca, a nível internacional. Não vale a pena escrever ou “pensar” em espanhol se o objectivo – e cada vez mais o é – for, principalmente, carreiristico. Se o número de seguidores no Twitter, ou em qualquer outra rede social, for primeira condição. Os meios de comunicação espanhois ou oriundos da América Latina não olham a ultra – globalização actual, apesar do inevitável “contágio”, com a benevolência de um norte- americano. Os franceses Le Monde Diplomatique ou o Le Figaro não valorizam – chegando à resistência -, da mesma forma e apesar da crise económica e financeira, os “resultados imediatos” ou a quantificação estatística – este futuro eliminador de perguntas -. É toda uma outra modelagem. Forma de estar que, apesar do “progresso”, convém aprender, apreender e preservar. Sem, contudo, nos ficarmos por aqui. Há todo um idioma interior a recuperar.


O “processo” contra Lana Del Rey

O que é que cintila? O que é que se apresenta como estranho e, por esta razão, provoca irritação? O que a “isola” e se distingue em Lana Del Rey – ignorando, no texto presente e apesar de constituir assunto relevante, o “facto” de simbolizar, ou não, “produto da indústria” – para que seja o alvo, escolhido, do momento? Surgiu uma intuição: uma certa aparência de distância. Não se assemelhar à outra “embalagem”, mais furtiva e mediática, da “estação”: a do grupo indefinido, sorridente, “colaborativo”, com pose modesta e gesto inofensivo. Uma gama, mais polida e sofisticada, de elaboração publicitária.

As acusações, marcadas e agressivas, de “falsificação”, “embrulho” ou “falta de autenticidade” são importantes de um ponto de vista que discutirei em artigo que será, a partir deste, continuação. Fazem, contudo, menos sentido num universo cultural onde o que impera é, exactamente, a fabricação. Se fosse essa a questão: Avril Lavigne – com toda uma máscara punk –, no reino da “pureza” do avatar, não teria, propriamente, “sobrevivido”. Passou no “teste”. Apesar da continua mutação. Faz sentido: parece, no fundo, banal e comum. Não perturba. O “erro” daquele tipo de avaliações e justificações – para melhor se poder atacar – é o de tentar iludir com a superfície. Radica em pretender considerar a “normalidade” ou a “humildade”, geralmente e no cosmos digital, como, basicamente, verdadeiras. Não apreendidas como aquilo que também são: invólucros porque exigências – passageiras, moralistas – do presente. Cuja manifestação não escapou, como sempre, ao marketing musical. A indiferenciação e, não raras vezes, a auto-negação são sobrevalorizadas. Não ofendem. Por isso: vendem melhor. No fundo: é menos “liberdade” do que se pretende propagandear. Há, claro e adicionalmente, a questão – intemporal; embora, por agora, quase “ideológica” – da inveja. Que olha, indiscriminadamente, para qualquer tipo de “corporação” como manifestação daquilo que gostava mas não consegue ter. “Nada para ninguém”. Mas desde quando existe “verdade”? Ou “realidade pura”? Se a vida humana é “representação”: fará sentido exigir-se exageradamente, ainda por cima da música pop, que não seja fantasia; “construção”? Apenas porque a tática e o fingimento pretendem assemelhar-se, agora e convenientemente, a uma “naturalidade”? Para que nos “aproximemos” de forma postiça? Mais falsos mas nivelados.

“Não existe” reflexo mais significativo desta obsessão pela fama do que Lady Gaga. Também, aliás, já com “inquérito” a decorrer. Aqui – admito – parece existir uma urgência por parte da cantora para tal se concretizar. Há “fantasma” sobre o tema, nas letras e no imaginário, no primeiro disco, de forma nada subtil, intitulado “The Fame”. Toda uma vitimização intercalada com um desejo, mais ou menos desesperado, em se atingir “o patamar”. Algo que, em lágrimas, chegou a confessar. É, exactamente e na minha opinião, a identificação por parte de um público, angustiado com a questão, que lhe confere visibilidade.

A época actual expandiu e distribuiu os tiques característicos da sociedade do espectáculo pré- internet. Mas, por esta razão, diminuiu as possibilidades de concretização do sucesso, individualmente, idealizado. Vendem-se menos discos. Restringiu-se a capacidade de mitificação. “Há”, portanto, que eliminar a “pretensão”. Se “toda a gente” participa: não poderá haver espaço para a “presunção”. Poder-se-ia chamar a isto: uma questão de “igualdade”. Contudo: estamos, em determinadas ocasiões, bem longe de se atingir os “direitos iguais”. Pelo contrário: a livre expressão é, socialmente, não muito permitida. “Direitos iguais”, na minha concepção, significa tolerância perante a inconstância, a variedade. Limitamo-nos à “igualdade”.

A rede social, a integração do leitor e usuário no jornal digital, a dinâmica de conversação através da “conectividade” tornaram mais visíveis – através de um, sôfrego, movimento, perpétuo, de escrutinio – esta necessidade de “demolição”.

Lana Del Rey é, também por este motivo, o mais recente objecto de santificação para se atingir a crucificação.. Um artista, “anteriormente” menos “condenado” à imediatez informativa e cultural, tinha, pelo menos, “espaço” para a edificação de um conceito mais alargado. Para uma, mais disponível, apreciação no espaço público. Contudo: o moralismo, a intolerância face ao que ousa mostrar-se como pouco integrado, os vestígios de uma sociedade menos democrática do aquilo que costuma aparentar, mais tarde ou mais cedo, acabariam por contra- atacar.

A ãnsia, generalizada, para se estar do outro lado do ecrã – que se veio a confirmar com o desenvolvimento, na internet, de toda uma gigantesca “indústria de conteúdos” -, as necessidades, puramente económicas, de um tipo de jornalismo que tinha deixado de o ser – convertendo-se em distribuidor do boato e do rumor – faziam o trabalho essencial. O “extravagante”, o “excêntrico” ou o “isolado”, adquirindo notoriedade, acabariam “julgados”, discriminados, subjugados pela droga; pelo álcool, algumas vezes presos, outras vezes mortos.

Mas neste momento “não se pode” esperar. O “linchamento” ocorre – em maior quantidade – à velocidade do fluxo noticioso. Não interessa tanto se Lana Del Rey desafina mais nesta, ou naquela, actuação. Parece-me, contudo, relevante que seja alvo seleccionado. Importa, por isso, questionar. A não ser, claro, que, para nos sentirmos mais elevados, nos dê, também, algum prazer. O álbum de estreia, Born to Die, foi editado nos últimos dias de janeiro de 2012. Mas o “caso” já foi iniciado. “Tem”, constantemente, que se justificar: “Mine is an unusual situation because I’m not naturally a polarizing or controversial person. And what I sing about is actually pretty balanced, pretty normal”, segundo uma entrevista dada à estação de rádio KROQ de Los Angeles. Sempre foi assim. Martela-se, apenas, agora com mais força. Com a ajuda de mais gente. Parece-me: de gente que se tornou, um pouco, mais feroz. É o lado negro do “espírito de colaboração”.

 Afonso Duarte Pimenta


O Elogio da “Complexidade”

Resolvi, por um instante, empreender num atalho. Fazer, deste, um texto, aparentemente, pessoal. Ponto de partida que é justificação. Que me permitirá, minimamente, “dar a entender”; “fazer uma vontade”. Através do desenvolvimento de um assunto, superficialmente, abordado em artigo anterior.

Alertam-me – às vezes “acusam-me”, pacientemente, de olhar benevolente – devido a um “pecado”, muito actual, de estatuto recentemente elaborado. Não é, contudo, “ofensa” comum. Chega a ser, de facto, bastante evitada: teimo num “demasiado” uso da vírgula, na terminologia “complicada”, na pontuação “exagerada”. Reconheço, mesmo que sem muitas penitências nem grandes chicotadas, que o possa, num relance, parecer. O que poderá incomodar a leitura e a identificação. Mas assim como avalio as observações como sendo de pendor construtivo em intenção – porque me permitem uma consciencialização -: confesso que aquilo que, à partida, ilude como “excrescência” resulta de um “programa”, uma “política”, uma motivação. Moldada com o olhar direccionado a cada caso referido e exemplo, específico, que lhe seja relativo. Fora do terreno do que poderia ser fantasiado: não se trata, com certeza e unicamente, de “uma questão de estilo”. Esta, mais fácil, redução interpretativa. Na verdade: atribuo uma meta precisa a cada expressão, pausa ou “respiração”. Uma entoação que poderá ser aproveitada como sugestão. Mais tarde para uma omissão. Há, aqui, um desculpa para que seja aberta uma porta. Ali: uma interrogação. São hipóteses de futuras questões – espaços não preenchidos – que, por diversas razões, se apresentam, ainda, “inultrapassáveis”, “proibidas”, incipientes. Em favor e benefício de um método de contextualização. Uma ideia, “singular”, de continuidade. Como instrumento, mais eficaz, de interpretação. Desprezando, de alguma forma, a cultura do sound bite; da fragmentação “informativa” e cultural. Não é, por isto, forçoso que tudo seja, imediatamente, “oferecido”. Sob pena de se abrir um caminho, que poderia levar a uma descomplexificação, que eliminaria, parcialmente, o propósito mais alargado do que é transmitido.

Nada disto se relaciona com uma vontade de “imposição”. Pelo contrário: surge de uma libertação. Um “emaranhado” interior iria sempre esbarrar contra limites, insuperáveis, metafóricos e gramaticais. Mais vale aproveitar – já que existem – e , já agora, abusar. Não encontro méritos numa “submissão”. Se não se comunica o espelho possível – o qual será, sempre e apesar de tudo, insuficiente – haverá uma realidade que se perde e – na ânsia de uma aceitação integradora – se perverte. Acolho a primeira opção. Escolho ser, ou não, descortinado por um universo que habito, que posso, minimamente, influenciar, mas que, em última análise, me é, simultaneamente, exterior. Trabalho que deixo para a “arbitrariedade” e o “acaso” de um mundo que não controlo e tenho horror a dominar. Existe uma tentação para o totalitarismo que vem por via da “igualdade”. Mais vale “protestar”.

Não desejo uniformizar o “inconcebível”. Embora nos encontremos numa época de avanço de uma certa “interactividade” –  e, também por isto, de alguma tentativa de manipulação  do que o outro constrói: porque nos destrói? -, erosão da privacidade e perpétua intromissão na esfera individual: não me ocorreu moldar o que me circunda à minha imagem. Chegamos a um entendimento? Tanto melhor. Mas com naturalidade. Que não seja  à “europeu”. Não espero menos de quem leio ou de quem preferiu – decidindo bem – ignorar a minha “pretensão”. É, na realidade, a “estranheza” que, em determinadas circunstâncias, mais lhes admiro. Virou-me as costas? Ainda bem: aposto que me vai dizer algo de significativo. Que o represente. Depreendo, do que não descubro, todo um mundo para lá do que consigo projectar. Um cosmos, seu e colectivo, que,  se a mim fosse reduzido, nunca iria apreender. Que nunca será diminuível a qualquer “indústria de conteúdos” ou “domesticação” literária. Para isto parece-me ser imprescindível alguma neutralidade. Não relativamente ao assunto abordado – já nos basta o “bom senso” -. Mas a ideológicos – por vezes: fanáticos – juízos de valor sobre “legibilidade”. Que fazem tudo por formatar a palavra, o discurso, o significado interior. Transformando-nos em algo pouco definível: “data”, “digito”, “informação”. Há vida e conhecimento para além das necessidades tecno- económicas standardizadoras do espírito de “conectividade”. Num planeta que, agora, não pára de falar, de esbracejar, de “comentar”.

Não percebeu o que quis dizer? Não entendi o que me tentou explicar quando se referiu a um “excesso”? Ao “facto” de não “escrever para a internet? Tanto pior. Ficou a diversidade. Em vez de uma realidade, continuamente, a ter que prestar contas.

Afonso Duarte Pimenta


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