O “processo” contra Lana Del Rey

O que é que cintila? O que é que se apresenta como estranho e, por esta razão, provoca irritação? O que a “isola” e se distingue em Lana Del Rey – ignorando, no texto presente e apesar de constituir assunto relevante, o “facto” de simbolizar, ou não, “produto da indústria” – para que seja o alvo, escolhido, do momento? Surgiu uma intuição: uma certa aparência de distância. Não se assemelhar à outra “embalagem”, mais furtiva e mediática, da “estação”: a do grupo indefinido, sorridente, “colaborativo”, com pose modesta e gesto inofensivo. Uma gama, mais polida e sofisticada, de elaboração publicitária.

As acusações, marcadas e agressivas, de “falsificação”, “embrulho” ou “falta de autenticidade” são importantes de um ponto de vista que discutirei em artigo que será, a partir deste, continuação. Fazem, contudo, menos sentido num universo cultural onde o que impera é, exactamente, a fabricação. Se fosse essa a questão: Avril Lavigne – com toda uma máscara punk –, no reino da “pureza” do avatar, não teria, propriamente, “sobrevivido”. Passou no “teste”. Apesar da continua mutação. Faz sentido: parece, no fundo, banal e comum. Não perturba. O “erro” daquele tipo de avaliações e justificações – para melhor se poder atacar – é o de tentar iludir com a superfície. Radica em pretender considerar a “normalidade” ou a “humildade”, geralmente e no cosmos digital, como, basicamente, verdadeiras. Não apreendidas como aquilo que também são: invólucros porque exigências – passageiras, moralistas – do presente. Cuja manifestação não escapou, como sempre, ao marketing musical. A indiferenciação e, não raras vezes, a auto-negação são sobrevalorizadas. Não ofendem. Por isso: vendem melhor. No fundo: é menos “liberdade” do que se pretende propagandear. Há, claro e adicionalmente, a questão – intemporal; embora, por agora, quase “ideológica” – da inveja. Que olha, indiscriminadamente, para qualquer tipo de “corporação” como manifestação daquilo que gostava mas não consegue ter. “Nada para ninguém”. Mas desde quando existe “verdade”? Ou “realidade pura”? Se a vida humana é “representação”: fará sentido exigir-se exageradamente, ainda por cima da música pop, que não seja fantasia; “construção”? Apenas porque a tática e o fingimento pretendem assemelhar-se, agora e convenientemente, a uma “naturalidade”? Para que nos “aproximemos” de forma postiça? Mais falsos mas nivelados.

“Não existe” reflexo mais significativo desta obsessão pela fama do que Lady Gaga. Também, aliás, já com “inquérito” a decorrer. Aqui – admito – parece existir uma urgência por parte da cantora para tal se concretizar. Há “fantasma” sobre o tema, nas letras e no imaginário, no primeiro disco, de forma nada subtil, intitulado “The Fame”. Toda uma vitimização intercalada com um desejo, mais ou menos desesperado, em se atingir “o patamar”. Algo que, em lágrimas, chegou a confessar. É, exactamente e na minha opinião, a identificação por parte de um público, angustiado com a questão, que lhe confere visibilidade.

A época actual expandiu e distribuiu os tiques característicos da sociedade do espectáculo pré- internet. Mas, por esta razão, diminuiu as possibilidades de concretização do sucesso, individualmente, idealizado. Vendem-se menos discos. Restringiu-se a capacidade de mitificação. “Há”, portanto, que eliminar a “pretensão”. Se “toda a gente” participa: não poderá haver espaço para a “presunção”. Poder-se-ia chamar a isto: uma questão de “igualdade”. Contudo: estamos, em determinadas ocasiões, bem longe de se atingir os “direitos iguais”. Pelo contrário: a livre expressão é, socialmente, não muito permitida. “Direitos iguais”, na minha concepção, significa tolerância perante a inconstância, a variedade. Limitamo-nos à “igualdade”.

A rede social, a integração do leitor e usuário no jornal digital, a dinâmica de conversação através da “conectividade” tornaram mais visíveis – através de um, sôfrego, movimento, perpétuo, de escrutinio – esta necessidade de “demolição”.

Lana Del Rey é, também por este motivo, o mais recente objecto de santificação para se atingir a crucificação.. Um artista, “anteriormente” menos “condenado” à imediatez informativa e cultural, tinha, pelo menos, “espaço” para a edificação de um conceito mais alargado. Para uma, mais disponível, apreciação no espaço público. Contudo: o moralismo, a intolerância face ao que ousa mostrar-se como pouco integrado, os vestígios de uma sociedade menos democrática do aquilo que costuma aparentar, mais tarde ou mais cedo, acabariam por contra- atacar.

A ãnsia, generalizada, para se estar do outro lado do ecrã – que se veio a confirmar com o desenvolvimento, na internet, de toda uma gigantesca “indústria de conteúdos” -, as necessidades, puramente económicas, de um tipo de jornalismo que tinha deixado de o ser – convertendo-se em distribuidor do boato e do rumor – faziam o trabalho essencial. O “extravagante”, o “excêntrico” ou o “isolado”, adquirindo notoriedade, acabariam “julgados”, discriminados, subjugados pela droga; pelo álcool, algumas vezes presos, outras vezes mortos.

Mas neste momento “não se pode” esperar. O “linchamento” ocorre – em maior quantidade – à velocidade do fluxo noticioso. Não interessa tanto se Lana Del Rey desafina mais nesta, ou naquela, actuação. Parece-me, contudo, relevante que seja alvo seleccionado. Importa, por isso, questionar. A não ser, claro, que, para nos sentirmos mais elevados, nos dê, também, algum prazer. O álbum de estreia, Born to Die, foi editado nos últimos dias de janeiro de 2012. Mas o “caso” já foi iniciado. “Tem”, constantemente, que se justificar: “Mine is an unusual situation because I’m not naturally a polarizing or controversial person. And what I sing about is actually pretty balanced, pretty normal”, segundo uma entrevista dada à estação de rádio KROQ de Los Angeles. Sempre foi assim. Martela-se, apenas, agora com mais força. Com a ajuda de mais gente. Parece-me: de gente que se tornou, um pouco, mais feroz. É o lado negro do “espírito de colaboração”.

 Afonso Duarte Pimenta


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