Formatação Informativa e Cultura PowerPoint

Apesar de toda a exaltação – “Era da Criatividade” -: este é, conjuntamente, um momento no qual se consegue testemunhar, em determinadas áreas, uma tentativa de simplificação. Ao mesmo tempo em que é utilizada e incentivada uma retórica que se apropria de conceitos como “liberdade” ou “diversidade” distribuem-se “directrizes” de género algo contrário.

Facilitar, dar a entender, integrar o leitor, “comunicar”: “readability” – legibilidade – é expressão que “cai bem” na “Sociedade do Conhecimento”. Será que, algumas vez, James Joyce conseguiria ser nomeado para o prémio, literário, Man Booker? Um editorial no The Observer formulou esta pergunta a 16 de Outubro de 2011. O júri tem que ler cerca de 120 romances num período de seis meses: um e meio de dois em dois dias. Uma das exigências: que sejam obras fáceis de assimilar. “Readability”. Dá jeito a toda a gente: quem julga não pensa muito e integra-se a “comunidade”. O troféu Literature, entretanto, parece ter surgido com vista a um equilíbrio. Andrew Kidd, porta-voz, sentiu, como foi noticiado a 13 de Outubro de 2011, no artigo “New literature prize launched to rival Booker”, por Tim Masters na plataforma, em linha, pertencente à BBC News, necessidade de se justificar: “é uma acusação – a de elitismo – tola. Tem mais a ver com a nossa sensação de que se abriu um espaço para um prémio que tenha a ver, inequivocamente, com excelência. Mesmo que isso, por vezes, signifique que os vencedores sejam desafiantes e que não caiam, necessariamente, em categorizações, simplistas, de legibilidade”. A especificidade, a criatividade e, por isso, a liberdade são, assim, dissolvidas para que não exista espectro desta continua paranóia que constitui este “medo do elitismo”. Esta acusação abre portas à standardização em vários sectores. Por exemplo: jornalísticos e musicais. “Cuidado! Nada de tiques! Nada de si. Pode ofender”. Em época ultra- individualista. Contradição? Não. Por isso mesmo: esmaguemo-nos uns aos outros. É “necessário” que tudo se encontre dentro dos limites bem definidos do espírito das “indústrias culturais e criativas”. Ou seja: pensar dentro da caixa do “pensar fora da caixa”. É a formatação da mensagem ao serviço de um nivelamento. Artificial e forçado. Onde não interessa, tanto, uma verdade interior, uma originalidade ou o confronto de ideias. Importa a sensação – uma aparência – de compreensão.

Assiste-se a uma sobrevalorização do conceito de “comunicação”. Da “conectividade” pela “conectividade”. Nem que, devido a condicionantes relativos ao negócio e ao suporte, se altere, muitas vezes para pior, a forma e o enquadramento. A velocidade, na publicação, ou a diminuição do número de caracteres, a nível textual, é defendida em, múltiplos, artigos de opinião, diáriamente, de modo aberto ou indirecto. Sem, qualquer, vestigio de análise sociológica. Que resultados e objectivos, jornalísticos, globais e colectivos, de médio e longo prazo – quando nem mesmo os mercantis o estão -, se poderão garantir se tal condicionar densidade, investigação e reflexão? Principalmente numa altura em que se ataca, cada vez mais, a figura do jornalista como intermediário? Quando está em marcha este anseio, tão em voga, de destruição do denominado “middleman”? Ficaremos, devido a esta mistura, confusa, de “revolução democrática”, ressentimento e branding, comercial, individualista, satisfeitos, apenas, com um “jornalismo- cidadão”, impreparado e insuficiente? Com a comunicação, directa, do líder político e empresarial? Sujeitos a todo o tipo de manipulações, discursivas, e simplificações? Neste momento, delicado, de reascenção de nacionalismos? A “Sociedade da Informação” deseja, realmente, contacto com o diverso? Há, demasiada, relativização sobre este assunto.

José Pacheco Pereira, num artigo, de opinião, essencial no jornal Público, de 04 de Fevereiro de 2012, responde a uma das “Perguntas que não levam a parte nenhuma“: “Porque razão os blogues têm cada vez menos importância?”. Uma questão, abrangente, que não ignora mas que ultrapassa, na minha opinião, razões políticas. Ou, qualquer, dinâmica de “conversação”. A imposição económica e a “incorporação”, faseada e social, da ideia de “tempo real”, uma, certa, impaciência para a reflexão, em silêncio, sem “partilha” ou interrupção e esta pulsão, recentemente, fabricada para a, perpétua, intervenção – para a “revolução” – substituem, tendencialmente, a leitura “mergulhada”. O impulso para a escrita longa e demorada

O Twitter – arma de “curadoria”, organização e protesto – para a defesa de valores distintos e, por vezes, opostos -; de disseminação, ultra- rápida, de informação; de marketing pessoal e empresarial – construiu-se, essencialmente, à custa do impacto forte, minimalista, da obrigatoriedade do uso de 140 caracteres. Confrontamo-nos, ultrapassando a linha vermelha, com uma, armadilhada, inversão de ideal´que nos deixa “paralisados” e sem reacção: “terá que ser mais inteligente”. É todo um, novo, caminho a ser criado.

Jornais adoptam a imediatez e o brilho como forma de captação de receitas publicitárias e atenção. Numa tentativa para se combater a dispersão do usuário. Vulgariza-se, assim, a ampliação do tamanho da letra, a utilização da cor forte, o “abandono” – em certos casos: a predominância da – à imagem, ao vídeo, à oralidade. Reduz-se o alcance e a dimensão do artigo. Integra-se o live- blogging. Para uma – na falta de meios – substituição: a ilusão de se estar a ser, melhor, informado. Como “testemunha”. “No local da acção”. Importa “criar” – em sociedade “artística”; da “manipulação” -; fingir um movimento. Para favorecer – não tanto a compreensão do acontecimento – a clicagem constante. Reina a voragem da busca e do link. Não raras vezes: mais da busca do que do link. Chamemos-lhe: zapping digital.

O problema, principal, de todo este discurso e desta tendência, excessivamente, direccionada para o mercado é, exactamente, esse: normalmente está preocupada com o mercado. Evita a interpretação, a perspectva, a causa e a consequência de médio ou de longo prazo. O “jornalismo”, quando é discutido, circunda questões relacionadas com “rentabilidade”. A importância do rigor e da investigação são relativizadas a favor de uma noção, indiscriminada, de “conteúdo”. Não se questiona, tanto e por exemplo, o facto de existir alguma falta de paciência para a escrita densa e bem fundamentada. Caminha-se muitas vezes, pelo contrário, ainda mais nesse sentido. O artigo “What newspapers have to learn from magazines“, postado por Emma Heald, em 24 de Janeiro de 2012, no Editors Weblog, aponta aquilo que segundo o director da área de design da Bonnier Business Press, Jacek Utko, deve ser a abordagem “criativa” – expressão que, neste momento, serve para tudo – da imprensa escrita para fazer face à decepção, comercial, que o tablet, também, tem constituído. A “solução”, desta vez, passa pela adopção de, pequenas, formas visuais já que estas reinam no universo do Twitter e do SMS. Aconselha, por isso, o uso de secções mais pequenas, com mais pontos, listas, caixas e gráficos para que a informação seja facilmente compreendida. Já não falamos, aqui, de fast- food. Entramos no terreno de uma estética PowerPoint. A estupidificação, clara, do leitor e usuário. A falha deste tipo de abordagem, puramente mercantil, reside no facto de Utko – como de grande parte dos “especialistas de comunicação” – não entender, ou fingir que não percebe, que esta facilitação obrigaria, depois de cristalizada em norma e moral, mais tarde a uma, nova, adaptação em nome da “competitividade”. E o sentido não seria, com certeza absoluta, o da complexificação.

Parece não bastar a proliferação de dicas sobre “como escrever bonito na internet” ou “como escrever com resultados para a internet”. Surgem, adicionalmente, fenómenos como o do workshop para se “aprender a ler mais rápido”. No planeta comunicacional das Breaking News e da última hora: interessa a quantidade. Das postagens que se lêem ou distribuem. É “informação” pela “informação”. Em detrimento de uma intimidade com o texto. Para que seja, melhor, sentido. E, por isto, compreendido e memorizado.

Escreve, num artigo de opinião, intitulado “Mais informação, menos conhecimento“, que pode ser encontrado no blogue Página 23, Eduardo Jorge Madureira: “Não é estranho, por isso, que alguns fanáticos da Web, como o professor Joe O’Shea, filósofo da Universidade da Florida, afirmem: Sentar-se e ler um livro do princípio ao fim não tem sentido. Não é um bom uso do meu tempo, já que posso ter toda a informação que queira com maior rapidez através da Web. Quando alguém se torna um caçador experiente na Internet, os livros são supérfluos. O atroz desta frase não é a afirmação final, mas que o filósofo julgue que se lêem livros apenas para obter informação“. Está “tudo” ali: a sobrevalorização do conceito de “informação” em época de comparação, crescente, entre o cérebro e o digito, a velocidade e já agora, vou “abusar”, a, inescapável, perda de “capacidade” para a demora. Para a concentração. Já lá chegou. Numa assentada: é toda uma “filosofia” – um forma de estar – a “destruir” outra. Se “toda a informação” está na internet: tudo o que foi escrito, até hoje e em literatura, tornou-se irrelevante? Que sentido toma – com que finalidade; devido a qual origem – esta necessidade de esquecimento e de fragmentação? Porque foge, este homem, do passado?

Nada disto se resume a questões de conteúdo ou formato. O idioma – esse imaginário e “esperanto” anglo- saxónico predominante – formata. A ânsia de se aumentar a popularidade mundial, de se ser detentor do “perfil mais seguido” ou a demanda por uma posição, considerável, no “top”, literário, da Amazon conduzem a uma “exigência” de mercado para a utilização do inglês. Que empobrece a representação e o imaginário pessoal. “Conversamos” mais. Contudo: também, mais, da mesma forma. E é, exactamente, porque nos “seguimos” uns aos outros que não é rara a repetição e a imitação de expressões em diferentes plataformas quando estão em causa assuntos iguais. Um exemplo, exaustivo e recente, é a utilização do termo “behemoth” como adjectivo referente a grandes companhias do sector digital ou da comunicação. Outros exemplos: “transparency”, “content”, “narrative”, “innovation”. Na “Era da Criatividade”: também se imita melhor. Por outro lado: inúmeros “evangelistas” dos média e canais informativos incentivam, insistentemente, à utilização de palavras- chave, consideradas, populares. Para que os artigos sejam encontrados, mais facilmente, através dos motores de busca.

Nada disto ficará por aqui. Um artigo de Steve Lohr ,In Case You Wondered, a Real Human Wrote This Column“, publicado a 10 de Setembro de 2011, no New York Times, destaca o trabalho desenvolvido pela empresa Narrative Science no campo da inteligência artifical. Nomeadamente no departamento da criação de software que, segundo responsáveis, imita o raciocínio humano. Recolhe dados, por exemplo, de resultados desportivos para os converter em “artigos”, curtos, que são postados um ou dois minutos depois do fim de cada partida. Tem clientes como a The Big Ten Network, uma parceria entre a Big Ten Conference e a Fox Networks, que passou a usar, a partir da primavera do ano de 2010, a escrita automatizada para recapitular jogos de baseball e softball. Builderonline.com, um sítio dedicado ao mercado imobiliário, utiliza-o para a postagem de relatórios mensais porque, segundo Andrew Reid –  presidente na área dos média digitais –, “contratar pessoas ficaria muito caro”. Vamos utilizar a tecnologia como muleta? Ou, afinal, também como substituta – ultrapassando o “manual” – do trabalho “criativo”? De qualquer forma é evidente a formatação estilística e da mensagem que promete a implementação. A comunicação e o jornalismo ultrapassam, assim, a esfera humana.

Existe, claro, “criação”. Mas é dinâmica que em, grande medida, se inclina para o campo da tecnologia, das aplicações, do desenvolvimento de redes sociais, do open source. Estratégias e refúgios de um mundo instável e atomizado onde a sobrevivência, individual, não está garantida. Um “gesticular” que é causa e espelho da crise económica e financeira.

Tende, por outro lado, para a imagem, o design, a “interactividade”. Para o comércio da sensação que os valida. Este impulso para o toque, a sensualidade e a manipulação – uma forma, algo, inquieta, para se interferir; “participar” sem esperar  – reduz a relevância do que é, textualmente, transmitido, da interpretação e do contexto. Mas o multitask que inquietou – reduziu, com o passar dos anos, a “capacidade” de concentração do usuário – serve, agora, de motivo e justificação. O aumento da utilização do vídeo, a gamification of news, a mulher, na imagem em movimento, de saia ao vento: a informação é agora, mais do que divertimento, “experiência”. Nada poderá ser “boring”. É exigência grátis e “fun”. O que existe de “realidade” – de responsabilidade – é, não convertido, mas moldado na direcção de, ainda mais, entretenimento.

Proponho por isso, sempre que possível, um exercicio de “força contrária”. Existe um paradoxo entre um mundo que se complica e um imaginário que, de forma extrema, se comercializa; se simplifica. Parece-me ser necessária uma resistência. Evitar regras, “requentadas”, servidas, muitas vezes, por quem nunca teve um interesse, genuíno, pela escrita ou por um tipo de “literatura” que não seja comercial. Fugir, um pouco, à noção de fabricação do “conteúdo”. Não ter, demasiado, receio da metáfora devido a uma “necessidade” de se alcançar a “legibilidade” perfeita. Que, no fim de contas, é baseada em conceitos abstractos, pessoais e subjectivos, de “normalidade” ou “igualdade”. Que acabam, sempre, por tudo nivelar e, por isso, empobrecer. A atenção à forma não é, apenas, estilo e “arrogância”. A diferença e a experimentação constituem, também, uma mensagem e um sentido. Nem que seja: o da liberdade pessoal. Esquecer, por momentos, a popularidade. Transferir a noção de quantidade. Da postagem para a letra. Para um significado. Precisamos de “mundo”; de “complicação”. A realidade, bem o sei, é, actualmente, distinta. Cada um poderá construir, contudo, um  tempo próprio. Para que exista interpretação. Mais pessoal. Também por isso: mais rica e verdadeira. É que nem tudo é “data”. E, com certeza, nem tudo é “content”.

Afonso Duarte Pimenta


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