O Terror da Opinião/ Relativismo Nacional

Artigo originalmente publicado no dia 08 de Junho do ano de 2009 em “O Papel das Notícias

Tendência estrutural, em Portugal, chama-se: desresponsabilização; culpabilização externa. Astutamente polida com retórica democrática. A nomeação de um líder recai – outra vez, outra vez – em figura dissimulada, indefinida, desorientada, paroquial. Descansa. Com um dedo no passado e outro na fronteira. Assim como nós – prolongando, assim, a lamentação – o faremos. Com o nosso.

Não é raro o fenómeno de projecção. Passam vários anos desde a desmoralização do Reality Show. Em primeiro Big Brother, Zé Maria, personagem fugidia, assistia – de sorriso contínuo – à sua elevação a símbolo nacional. E, com contornos clericais, pontuava sentenças de superior agressividade com um amaciador: “mas no bom sentido”. Até hoje não se chegou a perceber quem é. Nem ele. Para aumentar a fasquia de identificação: o premiado de uma segunda edição era padre assumido. No ano de 2005 – e depois de ter assistido ao vácuo discursivo inaugural de José Sócrates – entendi: também eu tinha votado em Zé Maria.

A eleição contamina qualquer quadrante. A definição é arrumada através de uma espécie peculiar de psicologia de pacotilha chantagista popular: ter opinião é sinónimo de frustração”. Não são raros os exemplos em que a pseudo- interpretação generalizadora, a nível nacional, é utilizada como carimbo de desvalorização. Instrumento moral a favor de um silêncio abstencionista colectivo. Como também a cor política é objecto de arremesso. A posição vincada é, como defesa, atirada para a armadilha partidária. Valorizando a neblina; um bloco central. A indecisão promovida a “sensatez”. Filha perversa de um estado novo que teimamos em acreditar que repudiamos. E virtude unificadora para a irresponsabilidade civil. Relativismo português necessita de condição prévia: almofadar a realidade. O terror do radicalismo, aqui, é subserviência. Procura a todo o custo o olhar certo. E, nesse processo, passa a ser falso. Sem crítica, auto- critica ou tolerância à critica não haverá entendimento que nos salve. O que se discute – quando se discute – é feito, em comunhão, já às portas do abismo. E, apenas, se não for censurável.

Exceptuando o caso isolado, fora de sitio, redacções e orgãos televisivos não escapam a um marchar: o artigo de opinião tem cartão partidário, institucional e empresarial. A liderança está na mesa redonda. O olhar – à distância – do psicólogo, historiador, sociólogo ou filósofo é evitado.

O debate desenvolvido em torno de um novo modelo de negócio jornalístico parece ignorar, em larga escala, a sedução do leitor relativamente à importância determinante da opinião e da investigação na defesa do regime democrático. A gratuitidade cultural manipula o discurso em direcção ao formato. Toda uma demagogia digital que utiliza o direito do consumidor, uma noção ilusória de intervenção individual e o ódio à instituição – como se as empresas que os promovem não o fossem –  como argumentos mobilizadores. E externos ao próprio jornalismo.

Tão peculiar oposição abre caminho à caça ao voto. Qualquer ideia é preterida a favor da propaganda. Culparemos, mais tarde, a política. Que foi aquilo que desejamos que fosse. Sempre de pedra na mão não há espelho que resista. Apontei-vos o dedo. Mas no bom sentido. Outra vez.

Afonso Pimenta


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