Cracker: Um Actor Invisivel

Existem algumas pessoas que,  erguendo pacientemente as sobrancelhas, consideram que toda a realidade revestida a digital não deveria ser escrutinada: “porque é o futuro”; “temos“, invariavelmente, “que nos adaptar“. Contudo: nunca existiu uma divisão abrupta entre o velho e o novo. Circundamos um presente em constante mutação. O “social”, intemporal, está lá sempre: por baixo da matéria. É a resistência à critica, pelo contrário, que denuncia problemas de integração.

Cracker: O Actor Invisivel

Hacker não constitui a denominação mais correcta. Tem sido utilizada nos meios de comunicação por uma questão de “simplicidade“. O leitor parece ser, segundo esta visão, uma espécie de débil mental. Que não faz distinções. Para além do facto de ser expressão popular, Fica sempre bem no motor de busca. Chamemos-lhe, antes, Cracker: Criminal Hacker. Contudo: tal designação não passa, também, de generalização. Os rótulos proliferam: Gray- Hat; Lammer; Phreaker; Black- Hat. Tentando uma aproximação, mesmo que redutora: O Hacker, em princípio, constrói. Enquanto que o  género de Cracker de que tratamos aqui, nos últimos tempos bastante noticiado, reverte, destrói ou modifica o trabalho do primeiro que, logo a seguir, tenta a reparação. O segundo poder-nos-á abençoar, de vez em quando e em jeito de espasmo, com uma mudança de intenção.  Mais à frente a demonstração.

As razões podem ser várias não existindo grande unanimidade: esquemas de extorsão e roubo de dados de cartões de crédito; divulgação de nomes, endereços e senhas de acesso de indivíduos isolados ou pertencentes a organizações económicas e institucionais; disseminação de informação falsa através de canais de televisão, sítios ou contas privadas de redes sociais…

Mesmo nos casos em que a motivação aparenta ser exclusivamente política, a favor de uma “revolução” ou “transição”, parece estar a favorecer a deterioração de algo que, nos últimos anos, em nome do social networking, da “colaboração” e do mercado digital, não tem sido valor fundamental: o conceito de privacidade. Anuncia o anarquismo – e, portanto, o fascismo -; o oposto do que se diz que se pretende atingir. São átomos de vontade individual. Invasões que conduzem à normalização de um certo espírito  anti- democrático. Nada “progressista”.

Começa, desta forma, a era da espionagem generalizada; de uma desconfiança global: não só entre nações. Relativamente ao estado. Em relação ao “controlo” do poder “instituído”, de seitas “obscuras“, reais ou imaginárias. Mas, também, entre agrupamentos inspirados por uma – arrogante – paranoia new-age que vê o fim do mundo em cada texto, e, ás vezes, enfim e por exemplo, num calendário qualquer. E nós, agora – claro -, em relação a eles que fantasiam, invariavelmente, perigo onde receiam poder. O seu semelhante. O disparo é em todas as direcções. Que irá exigir do usuário, para se defender, conhecimentos de encriptação. Se não lhe der, agora de arma na mão, também para mais. Não existe avanço civilizacional que tolere esta noção – muito abrangente – de justiça, impulsiva, pessoal. Nem a obstrução da propriedade pessoal. Mas a net é, ainda, estado sem lei. Surgem, agora, os primeiros limites.

Não existe, aqui, qualquer heroísmo: a “batalha em nome de todos” é feita de forma silenciosa. Escondida sob pseudónimo e avatar. Através de uma criação, uma ficção: uma second-life.  Única idealização onde este magala de poderia vingar.

Não sobrevive sem máscara. Sublinha, com orgulho, a ausência de um chefe e da hierarquia. O que, talvez, revele o ponto fulcral. Há quem faça lembrar, que o estilo de “trabalho”, é o “familiar“. Um género de interpretação que parece iludir, ou nos querer afastar, daquela que é a fragilidade.  Não é difícil perceber que o entendimento não é certo. Entre Anonymous, outro qualquer e LuizSec. Ou dentro de um grupo.

Dar a cara não parece ser motivo de vaidade. Não surge um nome, ou passo em frente, a representá-lo. Aparentemente, todos juntos: assim são “ninguém“. Há ali qualquer coisa, recalcada e subliminar, profundamente entristecida  É por este motivo que aquele sorriso, em disfarce esbranquiçado, resulta em decepção.

O Cracker  desaparece , rapidamente, quando surge a ameaça de uma identificação. Quando ouve o alarme. Da iminência de se mostrar humano. Algo, para ele, dificil de gerir. Seria, desse modo, “portador de um cérebro tecnológico de 1950” . O que salienta quando se refere a nós. Como exemplo: a possibilidade de denúncia por parte de uma desorganização rival. Invocando razões “éticas” – estão lá, sempre!; dispostas a ser usadas – ou puro prazer. Sem esquecermos, claro, analógicas rivalidades internas. A camaradagem nunca se entendeu com o medo. – “Mas então: quer-me expor, fazê-lo a outro, escondendo-se?”. Devido a esse receio de lhe destaparmos a puberdade. Essa raiva impotente, publicita-a – e assim, escapa mais uma vez – como “anulação do ego”. Fica sempre bem invocar, desta forma, o “desapego” ou um budismo digital.

O anonimato cyber-punk, para lá das fronteiras da “liberdade de expressão”, parece servir qualquer razão. Uma profusão de teorias aleatórias manipula a necessidade natural de luta contra a opressão ao se fazerem valer através da derradeira armadilha argumentativa, uma das chantagens mais difíceis de combater: quem ousaria negar a aspiração máxima, a maior de todas as guerras, a vontade de autonomia? A crítica, relativamente ao fenómeno, não é, por isso, generalizada. Por outro motivo também: é através do computador que se faz, hoje, jornalismo. Não é muito provável que o orgão de comunicação queira chamar a atenção. A imaterialidade fabricou paredes mais frágeis. O colunista não tem certezas relativamente à possibilidade de se vir a transformar em alvo; num objectivo. Habituado que está a todo um género de assaltos e intrusões, insultos em caixas de comentários, exigências do “jornalismo- cidadão” ou da gratuitidade cultural. Fenómenos que, aparentemente dispersos, apresentam pontos em comum: poucos limites e, talvez, prendas a mais? É rara a análise que vire do avesso a igreja do momento:  a de que tudo isto é “partilha” e “participação“. E se, pelo contrário, as razões continuamente – por isso mesmo! – apresentadas ocultassem, precisamente, uma dificuldade de colaboração?

Este estilo de Cracker é, demasiadas vezes, desculpado – noutros momentos, elevado – devido a esta  insistência em nos ajoelharmos perante a tecnociência, generalizando, como se fosse algo de milagroso, fora da história, a recuperação do paraíso perdido, a salvação de algo indefinido, a última esperança: a de que é desta que uma “religião” ou “socialismo” irá harmonizar paixões e funcionar de forma alargada. E tolerado devido a uma representação que nem ele,  principalmente, pressentiu. Mas como poderia, o actor principal, entender o esbatimento do qual é vítima e manifestação? Acredita que se anima, apenas, devido a um ideal, “universal”, de conquista e liberdade. Mas não passa, lá no fundo, de imposição e cavalgada pessoal. Nada disto é “colectivo”. É necessidade privada, insondável, de libertação, de destruição de um emaranhado pessoal, de partir em pedaços uma barreira mental e imaginária. Que abusa do argumento ético -mesmo que simpatizemos com determinadas acções – para levar a cabo uma luta cuja forma de a travar não lhe foi encomendada. Para se justificar – e pacificar – com um outro propósito que se encontra a cem metros abaixo da superfície moral.

Convenhamos: é uma empreitada confusa contra a “multinacional” – algumas vezes por ser “multinacional” – , o “estado” – por cheirar a “estado” -, a “instituição” – por ousar instituir-se; solidificar-se -. Como se estivesse em contínuo embaraço. Generalizações contra “o sistema” – embora tenhamos que admitir: é um “movimento” que faz parte das entranhas – da “sabedoria- cidadão”.

Como poderia, quem não se aguenta sem expor curiosidades alheias, teorizar sobre segurança e privacidade? Se não a sente. Se tudo aquilo que lhe parece desconhecido será, sempre, olhado com suspeição? Demagogia – a contradição! – da “informação  total”.

Para além de questões enevoadas: existe uma, essencial, muito pouco rebuscada. A procura de emprego. Surge, aqui, alguma responsabilidade por parte de governos mas também de empresas, plataformas e redes sociais. Que, nada preocupadas com grandes divisões, contratam crackers – purificando-os; integrando-os – para os converter em hackers logo a seguir a determinado delito. Ou sentença. Dilemas relativos a protecção de dados são levados em consideração, apenas, se trouxerem um impacto económico negativo e afastarem o consumidor. A economia digital, na realidade,  baseia-se, em grande medida, numa guerra declarada contra a noção de segredo, na recolha de informação individual com o objectivo de vir a ser utilizada para efeitos de “marketing directo” ou “personalizado“. Constitui uma cultura em formação – a agregação, transferência e centralização de pormenores pessoais é cada vez maior – e, quase, uma “extorsão”. Na medida em que, no mercado actual, se torna complicada, a fuga, à publicidade individual, ao brand yourself.

Não deixa, de qualquer forma, de ser método original para se alcançar colocação na empresa do instante – e aqui tive que utilizar terminologia, veloz e adequada, para a época de um twitter – . Ganha, com isto, “respeitabilidade”. Sobe para um palco mas disfarça muito bem: não dispensa a ganga – nem a sapatilha – ao apresentar – finalmente! Ao mundo! – a nova aplicação que será, no léxico invariavelmente anglo- saxónico do sector, uma “game-changer”.

Recusou a “hierarquia” e falou sempre em “igualdade”. Dissertou, através de vídeos apocalipticos, cinematográficos, sobre “justiça”: “We do not forgive”; “We do not forget”. Num universo atomizado pela proliferação de ecrans e mediatizado até uma indiferenciação entre real e imaginário, como chamar, a partir de agora, a atenção? A imagem já não chega. O entretenimento também não. Resta a perturbação.:

But did you, in your three-piece psychology and 1950’s technobrain, ever take a look behind the eyes of the hacker (Estavamos em 1986. A terminologia, entretanto, divergiu) Did you ever wonder what made him tick, what forces shaped him, what may have molded him?…

You bet your ass we’re all alike…We’ve been dominated by sadists, or ignored by the apathetic. The few that had something to teach found us willing pupils, but those few are like drops of water in the desert…*

Não “perdoam” – ou “esquecem” – o quê? O facto de, também outros, existirem? Substitui, entretanto, a rock star “tradicional”. E de forma matemática! Mas existem dúvidas de que isto não passa, exactamente, de uma “revolta da matemática”?

*Retirado do “Manifesto Hacker”, de 1986. O autor, por usar pseudónimo, não importa.

 Afonso Duarte Pimenta


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