Regresso ao Futuro (Um Punk em Sillicon Valley)

Começo esta crónica por explicar o que, para mim, constitui uma atitude que poderia denominar como “punk”. Correndo o risco de passar uma linha vermelha. De não me instituir como fazendo parte integrante do cânone do género. A ideia, para mim, é vasta. Não se inscreve em nenhum tipo de elaboração conceptual anarquista. Radica, antes, na elaboração de lutas e de conceitos novos. Mas também na demanda, na procura e no favorecimento de figuras tutelares inspiradoras para que tal seja possível. Precisamos, a todo o momento, na falta de “religiões”, de focos de luz. Que façam frente aos alvos de sempre. Sem qualquer tipo de estagnação filosófica. Misturada, naturalmente, com uma certa intemporalidade de base. Ou, pelo menos, sem retracção total de valores antecedentes. Porque, a meu ver, de nada serve a “mudança” se esta entrar em choque com os limites que fazem de nós humanos. Isto pode abarcar tudo o que mobiliza uma sociedade inteira em termos de manifestações culturais: o jornalismo, a música, o teatro, o cinema, a política, o ensaio filosófico.

Não adianta, porque estamos em crise, acharmos que tudo se resolve, apenas, através do combate às instituições “tradicionais”. Acreditanto que, apenas, uma espécie de modelagem radical “externa”, estrutural, digital e tecnológica, resolverá todos os problemas sociais. Por vezes: olharmos para o passado pode levar-nos ao futuro. Contudo, para isso, convém tentarmos perceber o que já está a acontecer. Isso implica olharmos para dentro. E as directivas civilizacionais e comerciais de Sillicon Valley – que “contaminam” o resto do mundo – são bem menos “progressistas” do que se quer fazer parecer. São, no fundo, uma continuação. Um espremer das forças de mercado. Em direcção aos “nichos” e, por isso, à instabilidade perpétua.

Parto, por esta razão, de uma espécie de “vazio” que encontro, há anos, em termos de circulação informativa. Em termos proporcionais: a crítica, social, à sociedade tecnológica e “digital”, contrariamente a muito do que se escreveu – e que se filmou – no século XX, não é, ainda, mainstream. Começa, só agora e apesar da excessiva propaganda em sentido contrário – aliás: por causa dela -, lentamente a afirmar-se. Principalmente devido ao mediático caso das escutas posto em circulação devido a Edward ou – como lhe queiram chamar – Chelsea Snowden. A análise, extensa e inteligente, foi, até agora, apesar das evidências para quem quisesse estar atento, evitada. Poucos autores, actuais, a têm levado em consideração. Poucos jornalistas acharam que o facto merecia atenção. Assim como as redes sociais. Principalmente as redes sociais.

Mas não se trata, na minha opinião, apenas de uma questão de propaganda ou de vontade de fuga e ilusão: os objectivos civilizacionais, há poucos anos atrás, eram um pouco mais definíveis. O poder político e empresarial estava um pouco menos às escuras. Não se tinha tornado, socialmente, mais escondido, perverso e sofisticado. Sem o jogo de espelhos que, no momento actual, polariza e de certa forma adormece e desvia vontades. O poder, seja de que ordem for, nunca desaparece. Metamorfoseia-se: move-se em direcção a novos actores. Esconde-se, sempre, por trás de novas instituições, eufemismos, palavras mansas e um tom de voz um pouco mais suave. Portanto: a “atitude” de combate generalizada não está, nem de longe nem de perto, na ordem do dia relativamente ao tipo de poder que, actualmente, se forma. Não se encontram os – mais fáceis – “antigos” alvos. Nem objectivos políticos concretos. Tal exige, devido à complexidade comunicacional em que vivemos actualmente enrededados, uma maior atenção. Leitura intensa – com calma – de livros interpretativos de pendor “tradicional”. Dos milhares de artigos de direcção contraditória que são diáriamente “postados”. Para que sejam coerentemente analisados. Com alguma distância. Para que se possam identificar tiques, repetições e, principalmente, intenções.

De I- Pad  na mão, Smartphone na outra, com a internet ao chegar a casa, televisão ao fundo da sala e óculos da Google prestes a serem massificados para que não tenhamos um segundo da vida sem “informação” ou “alienação aumentada” – não raras vezes desinformativa – : os sentidos encontram-se “entupidos”. O sentido do interior. O que resvala,  quase inevitavelmente, a uma certa apatia e diminuição de perguntas civilizacionais. As que se poderiam fazer – e não o são – ao sistema político e ideológico, agora, em constante reconstrução e mutação. Aquele que nos permite a utilização e o favorecimento de toda a tecnologia que temos, cada vez mais, à disposição. O que massifica. Nos torna amaciados. Impedindo uma maior diversidade cultural e social.

Porque são as gerações mais novas quem interessa mobilizar: muita da música que se ouve hoje em dia na rádio e mesmo na internet é de índole, tendencialmente, escapista. Apolítica. Um “LSD”. Placebo de curto prazo. Indolor. É “adolescente” e, por essa razão, não “perturba” quase ninguém. As chamadas de atenção lirica deslizam para o “grunhido” gratuito: “Who cares”, “Whatever” ou “I´m bored” são expressões recorrentes na “geração” de “todos os gadgets”. Não encontramos generalizada a “violência” verbal – contra a ordem actual – de um Henry Rollins; o choque mediático provocado pela inversão da bandeira norte- americana por parte de uns Rage Against The Machine no palco de uma das edições dos prémios da MTV quando o canal tinha, nos anos noventa, alguma coisa para dizer e para transformar antes de se ter convertido em mais um comum transmissor de reality shows; a inteligência in your face dos Clawfinger. Para citar, apenas, nomes com visibilidade comercial. E o facto de a terem dizia muito. Traziam, além de uma pose um pouco menos confecionada por estatísticas: mensagem e interpretação. Coragem para assumir riscos. Em expor uma definição pessoal. Sem medo de  parecerem “elitistas” quanto ao alertar de consciências. Um ligeiro “perigo” encontrado nos dias de hoje pela ultra- vulgarização do conceito “democrático” como está neste momento a ser favorecido. De facto: parece existir uma certa “anulação” em curso relativamente a determinados assuntos que parece instaurar uma sensação de “não valer a pena”; “o mundo sempre foi assim” – e, sabemos, “perdoem-me” os relativistas e os interessados do costume, que não o foi: já não andamos a carregar blocos de pedra durante uma vida inteira, só descansando no Nilo, para a construção da pirâmide em louvor de um qualquer faraó -. Este “sintoma” não se encontra, apenas, a nível lirico ou vocal. Vai-se, adicionalmente, desvalorizando a figura do front-man. Favorecendo a obscuridade pessoal – a “voz grave” – para o transpor para o espírito de grupo: o panfleto gratuito e tão na moda denominado por “espirito de colaboração”. Uma certa vergonha, portanto, quanto à responsabilidade pessoal.

Também não é raro o número de escritores que, actualmente, prefere não intervir politicamente ou dar opinião devido a esta difusa e desistente “noção democrática”. No fundo e sem recorrermos a eufemismos: é o medo. O “terror” da exposição pessoal num planeta inundado por comentários inflamados pelo marketing e pela venda apressada de livros.

Esta atitude não faz muito por uma democracia social real. Conduz a uma certa “asfixia” cultural. Quando o internauta ou o autor não se mostra e não intervém para além da esfera reduzida da repetição informativa que tem como ponto, principal, de referência as redes sociais. Onde, no fundo, nem em todos os assuntos “se pode” tocar. Devido a um tipo de moral que pretende salientar o “optimismo”, os “likes” e a “partilha”. Que “conecta” digitalmente mas que faz pouco pela verdade e pela realidade.  Que deve, quando possível, ser expressa e escrita “para ninguém”. Como ideal: fingirmos que não somos apenas “consumidores”, com interesses carreiristicos exagerados, avatares e “amigos” para agradar. A informação, para que haja mudança, deve, em primeiro lugar: perturbar. Se estamos à espera de nos falsificarmos para termos mais seguidores através de um Twitter: não é, exactamente, a cultura que estamos a favorecer. Também não é o jornalismo. Nem mesmo o “jornalismo- cidadão”. Apenas um reforço do mesmo. Parece que “convém” não darmos muito de nós para não “ofender” o “concorrente” do lado. O que nos transforma, generalizando, em “humildes” papagueadores da “verdade” digital que suporta os meios que usamos para que possamos “comentar a realidade”. É mais fácil virarmo-nos para os alvos “tradicionais”. Olharmos para o abuso das instituições em formação põe-nos em causa. Porque as utilizamos mais do que nunca. O que nos faz temer uma suposta contradicção.

Voltaire diria que vivemos, mais do que nunca, num mundo de ingénuos. Num mundo de cândidos. Ou de cinicos? Ou de cansados? Sem temer a bolha rebentar. Sem saber e , de certa forma, sem querermos saber que pode rebentar. “Alucinados” que estamos pelas promessas, obviamente “digitais”, da “sociedade da informação”. Sem percebermos que a forma como, pelo menos actualmente, se articula não é sinónimo de “conhecimento”. Ela é, quando muito, indício de puro “mercado”. Uma outra internet seria possível?

Nem tudo se enquadra no que acabo de expor: vou  apontar pequenos exemplos contra- corrente, nos diversos sectores, que penso merecerem serem levados em consideração: em termos jornalisticos existe o sempre atento Le Monde Diplomatique. É um ponto, incansável, de resistência. Vale a pena segui-lo. Em papel e na edição digital inglesa. Sabendo que não vive do ar. Mas à custa de subscrições. Um género de oásis que, na falta de atenção, vai escasseando. O El País: é raro o dia que não publique um artigo de opinião sobre os assuntos que, resolvi, aqui abordar. Portugal, nesta matéria, tem sido um deserto. Relativamente ao ensaio: existem alguns, bastante insistentes, autores. Como Evgeny Morozov. Conhecido, principalmente, devido a um primeiro livro: “The Net Delusion: How Not to Liberate The World”. Outro exemplo, acessível, é Nicholas Carr. Que publicou “The Shallows: What the Internet is Doing to Our Brains”. O artigo que escreveu no ano de 2008 para a Atlantic, “Is Google making us stupid?”, tem sido, desde então, amplamente debatido. Em termos televisivos convém estarmos atentos a uma série que está a ser rodeada por algum culto. Intitula-se Black Mirrors e é uma criação de Charlie Brooker. Tem uma inclinação mais ou menos caricatural. Mas devolve-nos alguma realidade. Como alguns medos e fantasmas adormecidos pelo utopismo tecno- científico deste início de século. Uma prova de coragem, no cinema, foi dada por Sofia Coppola. Através de “The Bling Ring” – em português foi traduzido como “O Gangue de Hollywood” -. O argumento baseia-se em factos reais: um grupo de adolescentes, obcecados com a fama, resolve assaltar casas de figuras públicas. O filme é uma alegoria ás questões de falta de privacidade actual: acabam por ser apanhados devido à utilização de redes sociais. Não posso deixar de apontar, para finalizar, um dos últimos vídeos dos Placebo: “Too many friends”. Onde a – para mim: erróneamente – intitulada “realidade aumentada” é amplamente parodiada. São apenas alguns exemplos. Há mais. Mas, em termos proporcionais, é pouco. Precisamos de abrir caminho. De focos de luz: que façam perguntas não apenas sobre o que está errado com o passado. Mas, também, sobre o tipo de “soluções” que estamos a construir. Para que não sejamos enganados outra vez. E outra vez.


A Feira do Livro de Braga como futuro “Festival Cultural Diversificado”

Inúmeras bibliotecas, no mundo ocidental e, principalmente, nos países anglo- saxónicos, transformam-se, também, em videotecas “impregnadas” de blockbusters, “parques infantis” onde o silêncio não impera e bancas vendedoras de bolinhos pouco caseiros. Muitas universidades anteriormente exigentes e conceituadas historicamente convertem-se em empresas e “pólos criativos”. E segundo a edição do Diário do Minho de ontem, dia quatro de Dezembro de 2013, a Feira do Livro de Braga poder-se-á vir a transformar num “festival cultural diversificado”. Não se percebe, muito bem e a partir do artigo, o que tal quererá dizer. Vou tentar fazer uma tentativa, mais ou menos caricatural e irónica – porque, por vezes, palmadinhas nas costas não chegam – , de uma aproximação interpretativa, generalizante, correndo o risco de estar bastante errado quanto ao que significa “festival cultural diversificado”. Pura e simplesmente porque se trata de algo irresistível. Porque é, de facto, o anunciado, pelo menos, no jornal. Não qualquer coisa como “festival literário diversificado”. E procurei, depois de o ler, em vários sítios na internet. Repetindo: “festival cultural diversificado”. Sabemos, de qualquer forma, que fazer “sopa” está na ordem do dia. Adianta-se, adicionalmente, a futura preponderância do “digital” no “festival”. Como não podia deixar de ser, aliás, em tempos, há que o salientar, obcecados com o “futuro” nos diversos domínios e sectores sociais. Não fosse a ansiedade, costumeira, em favorecer a “preponderância” e, até aqui e a meu ver, tudo bem. Adicionalmente: a importância da sacrosanta “indústria de conteúdos”. Embora a inevitável “ditadura”, de hoje, na qual tudo se transforma no “mercado” do momento: o que estraga é essa indefinição; a tónica, constante, no conceito de “indústria”. Nos já estafados “conteúdos”. Mas percebe-se, pelo menos, alguma coisa: vem aí um qualquer género de “salada”. Ao sabor do tempo: qualquer coisa de indistinto. Para que se misture com a correria actual. Que não deixa, devido ao constante espírito de “inovação”, que nada, no fundo, se perpetue. Que se formem conceitos, sociais e abrangentes, que se possam solidificar. E aquilo que poderia ser realmente diferente converte-se, como afirma e muito bem – focando-se, contudo, num, aproximado, outro tema – , numa crónica intitulada de “Digital” no jornal Público do passado dia dois, Walter Hugo Mãe, num “mesmismo insuportável”. Como no jornalismo: cada vez mais a literatura é descartada, por muito que se propagandeie o contrário, em direcção a uma espécie de “tudo vale o mesmo” tecnológico e qualitiativo sem ideologia ou programa. Onde tudo se “anarquiza”, justifica, relativiza e “desculpa” devido a uma desorientação. Noção que não se limita, aliás, à “cultura”. Seja lá o que isto queira, neste momento, dizer. A tentação, para não ofender, é grande. Convém colocar a expressão cultura, quase sempre, entre aspas. Assim como o “criativo”, para que possa sobreviver, tem de põr de lado o “criador”. Tentam-se, também por isso mas não só, “novas formas de narrativa”. Não raras vezes mais “perceptíveis”: “adaptadas” ao computador, ao I- PAD, ao Smartphone. Ao tipo de leitura que permite a paciência diante da luz de um ecrã. Por vezes: em direcção a um formato aproximado ao jogo de vídeo. Como se tenta, em diversas experiências, o denominado “jornalismo imersivo”. A denominada “gamification of news”. Mais propriamente: a “joguificação de tudo”. A banalização do “real”. Do “real virtual”. Sejamos claros: não há “mal” nenhum nisto se, como consequência e por vezes como objectivo, não se tentasse destruir aquilo que ainda traz equilíbrio: uma intemporalidade de base. Que nos permita, não apenas mudar, mas compreender, e continuar, o que foi feito anteriormente. Parece moderno, tolerante e diverso. Mas, no fundo, segue apenas as directivas e coordenadas em voga. Com a mesma origem de sempre. Do mesmo país. A mesma noção de civilização. Não deixa de ser uma continuação.

Qualquer governante – autárquico, nacional ou supranacional – , “agente” ou “promotor cultural”, “guru” da internet, dos média ou das “ciências da comunicação” tem, necessariamente, a boca cheia de “diversidade”, “restauração de centros históricos”, “pensar fora da caixa” – não percebo como é que a paciência ainda não se esgotou quanto a esta expressão -, “cultura” ou “indústrias culturais e criativas”. Sobre esta última designação tenho, também, culpa e arrependi-me. Devido a um artigo dividido em duas partes que escrevi para o Diário do Minho de 29 de Outubro do ano de 2008 intitulado “Braga: Cidade Pós- rock”. Onde não só cometi algumas imprecisões como “elevações”, exageradas, do conceito. Parecia-me, em Portugal, algo de novo. Uma, lá está, “inovação” a partir das iniciativas de Serralves da cidade do Porto. Convertido, contudo e entretanto, em espécie de “quisto”, nacional, generalizado. Mas que naquele momento parecia fazer bem ao deserto cultural que Braga continua a ser. Apesar das melhorias significativas que ocorreram nos últimos dois anos.

A humanidade tem milénios de escrita. De literatura “maior” e mais arriscada do que é, actualmente, “confecionada” ou “produzida” em nome da “legibilidade”, da “competitividade” e do “consumidor”. Que foi imune, e neste caso ainda bem, relativamente à urgência na promoção através de redes sociais. Há toda uma complexidade que é preciso manter. E, para isso, é necessário olhar com perspectiva para a arrogante conjuntura tecnológica e cultural actual que, com o dedo no botão, pretende “formatar o sistema”: “to delet the system” – não é raro o facto de, actualmente, a terminologia computacional invadir campos que lhe são – e sempre foram – alheios -. Precisamos, por isso e para além de “números binários”, do livro, da “obra” e da metáfora. Exactamente para que tenhamos as armas, “exteriores”, que nos permitam interpretar o “sistema”. Para que seja “desfragmentado”. Para que seja observado um corpo coerente. O “perigo” é esta espécie de diluição num todo estilhaçado. Onde não se vislumbra muito bem o papel de cada área, suporte, ou movimento social. Não me refiro, unicamente, ao “material”. Falo do objectivo concrecto e civilizacional de longo prazo. Da “economia de longo prazo”. Da História, da Filosofia, da Psicanálise, da Sociologia, da Neurologia. Que nada têm a ver com o “espírito” do “infográfico”. Que benefícia, principalmente e sem querer generalizar, um tipo de estética, radical, da “inovação” pela “inovação” – “to change”: ouve-se, de forma repetitiva, em ínúmeras TED Talks -, da “adaptação” darwinista ao “mercado”, dos “novos modelos de negócio” que se alteram, constantemente, mas que tardam, muitos deles, a funcionar. Ou a funcionar eficazmente. Destruindo, não raras vezes, o que era, um pouco, mais constante. Mas, enfim – esse “pecado” – “tradicional”.

Por vezes não se percebe bem o que são os “novos tempos” dada a indefinição e a volatilidade da coisa. Porque, afinal, todos os tempos que se seguem parecem e irão ser novos. E porque não sabemos os movimentos de pequenas misturas e retracções que poderão surgir: o papel do papel, por exemplo no jornalismo, parece começar a ressurgir depois de meia dúzia de anos de delírio relativamente ao “futuro”, ao “progresso”, à internet como “salvação” civilizacional em tempos de necessidade “religiosa” e crise económica e financeira. Os artigos publicados diáriamente, a nível internacional, sobre o sector não oferecem caminhos, perspectivas ou diagnósticos seguros sobre quase absolutamente nada. Apesar do “optimismo” papagueado por milhares de “evangelistas da comunicação” em relação ao “absolutismo digital”: há uma nuvem cinzenta – uma maior cautela – que se começa a formar. Não questiono a necessária e nietzschiana “transmutação de valores”. Mas isso é uma questão. Outra é a “criação a partir do caos” o que provoca, inevitávelmente, algum “caos a partir da criação”. Que objectivo, humano e social, surge a partir daqui?

Transformar uma feira do livro num “festival cultural diversificado”, para acompanhar os “tempos que correm”, em vez de o tentar fortalecer, como enaltecimento da escrita e da literatura, parece-me um “não saber o que fazer”. Um soluço: pelo facto de não se conseguir atrair leitores. Mas é o “diversificar culturalmente” que atrai quem se pretende? Ou o objectivo é atrair comedores de queijo e pasteis de nata? E queijo e pasteis de nata, “desculpem lá”, mas fazem parte da “cultura” nacional. Uma “feira do livro” é, ou não, uma “feira do livro”? O que importa afinal? Se a questão é a adaptação ao extremamente frenético e inseguro conceito de “digitalização total” em curso: tente-se, então, arranjar um nome e um conceito aproximado a qualquer coisa de mais abrangente. Como, por exemplo, “festival da literatura” – sei que como designação, apesar de tudo, não é grande coisa; trata-se, apenas, de uma “alavanca” -. Que inclua novos suportes. Sem, contudo, tentar essa espécie de fuga apressada que parece constituir a desvalorização do formato em papel. Devido, principalmente, à complexidade da escrita que sempre o tem acompanhado. Ou a “preponderância” servirá, principalmente, para vender os gadgets das mesmas marcas de sempre? Não tentem desviar a importância de tudo o que foi escrito até hoje para o transformar, apenas, em “comércio da sensação”. Façam, ao lado e se quiserem, uma “feira popular”. Mas não estraguem aquilo que, desde tempos imemoriais, nos define. Unicamente para agradar aos designers do momento, seguir a culturalmante monopolista Sillicon Valley ou para favorecer o ambiente de “partilha” de escapismo de curto prazo. Continuamos, como sempre, a precisar de intemporalidade. De complexidade. De interpretação. Não apenas de “código” ou do reinado da “matemática”. Para isso: temos que conferir nome às coisas para que se evite uma “rendição” e “subjugação”: Literatura. Não a deixem “desaparecer”. Precisamos, acima de tudo, de memória. Não fomos os primeiros a cá estar. E não há, apenas, um legado a preservar. Temos que o transmitir. Ou, então, façam, um dia e adicionalmente, um “festival cultural diversificado”. Mas sem tentar destruir aquilo que é sólido: a, pelo menos, constante “Feira do Livro”. Num mundo acerca do qual, a partir deste momento, nada se sabe.


“Silicon Valley”: Resistência à Interpretação

O artigo de Gillian Tett, intitulado “The Science Interview: Jared Diamond” e disponibilizado no passado dia 11 de Outubro no Finantial Times, não pode deixar de me lembrar uma questão que tem sido, em mim, mais ou menos recorrente. Em conversas que tive e textos que escrevi no passado recente: uma necessidade de mundo. De complexificação temática, terminológica e linguística. Predomina, principalmente nas redes sociais, a troca de “informação” em inglês, a quase ubiquidade dos estudos de Harvard, a venda de uma ideologia que, mais do que uma “revolução”, se assemelha a uma espécie de evolução – no seu significado intermédio: mais ou menos neutro; não totalmente progressista; visto como continuidade – de um estado anterior. Agora: um pouco mais arbitrário e confuso. Com epicentro em Sillicon Valley. Não é tanto uma “globalização” cultural que encontramos. Mas, em certo sentido, uma multiplicação do marketing personalizado. “Espremido” pelo espírito publicitário de retorno insuficiente. A tentativa de concentração das vontades globais na “indústria de conteúdos”. Na “criatividade” tecnológica e cientifica. Com os olhos postos em resoluções, civilizacionais e económicas, de curto prazo. Precisamos, por esta razão, de “tempo”. De impulsos opostos. Grelhas de interpretação, humana, literária e mediática, contrastantes.

Já não é o “crescimento perpétuo” catequizado, nas últimas décadas, através dos meios de comunicação social que mobiliza, agora, as ilusões. Mas, em certo sentido, o “estertor” – decepção disfarçada – de si mesmo. Precisamos de “nichos”, “to think out of the box” – e, contudo, tal configura toda uma nova caixa -, de “innovation”. Para a possível sobrevivência individual. Modelo descaracterizante de identidades regionais e nacionais. Como se faz à custa do enfraquecimento do papel do estado. O cidadão è abandonado à “responsabilidade pessoal”. O super homem na solidão. À volatilidade darwinista da “criação a partir do caos”. Do caos a partir da criação. Instaura-se, assim, a insegurança perpétua. Para que possa mostrar aos mercados que é “criativo”.

Posição que não deixa, afinal, de ignorar todo um conjunto de visões “dissidentes”. Avessas a, precários, “novos modelos de negócio”. Apesar da interminável economia da “opinião”. Que prolifera e os defende: evitando, assim, a interpretação externa. – quebrando a aparência democrática -. Se não estiver, inteiramente, de acordo com as doutrinas, maioritárias, do momento. Interpretar, linguisticamente, significa, mais do que antes, retirar poder.

Olhando, ainda e sempre, para os alvos “tradicionais” – expressão que, actualmente, quase constitui ofensa e um anátema – por razões económicas, geracionais ou identitárias: não olhamos para cima nem olhamos, verdadeiramente, para a rede. O que impede a formação de alternativas. Criando obstáculos à identificação de problemas e questões que são já actuais. Que se avolumam não só devido à velocidade com que se desenvolvem as estruturas digitais. Mas também devido a uma banalização da expressão e da representação jornalistica. Das humanidades.

O domínio, comunicacional, do inglês, como esperanto, reduz e simplifica. Não permite variações significativas. Culturas que, em certa medida, são relegadas para segundo plano. A competição pela chamada de atenção mediática ocorre, hoje e mais do que nunca, a nível internacional. Não vale a pena escrever ou “pensar” em espanhol se o objectivo – e cada vez mais o é – for, principalmente, carreiristico. Se o número de seguidores no Twitter, ou em qualquer outra rede social, for primeira condição. Os meios de comunicação espanhois ou oriundos da América Latina não olham a ultra – globalização actual, apesar do inevitável “contágio”, com a benevolência de um norte- americano. Os franceses Le Monde Diplomatique ou o Le Figaro não valorizam – chegando à resistência -, da mesma forma e apesar da crise económica e financeira, os “resultados imediatos” ou a quantificação estatística – este futuro eliminador de perguntas -. É toda uma outra modelagem. Forma de estar que, apesar do “progresso”, convém aprender, apreender e preservar. Sem, contudo, nos ficarmos por aqui. Há todo um idioma interior a recuperar.


A “Fraqueza” de Obama no Mercado Global da Opinião

Barack Obama, de acordo com determinada visão, quanto a mim bastante apressada pela necessidade, comercial e civilizacional actual, do post e do perpétuo comentário; principalmente por uma facção, embora não só, mais interessada: parece ter sido, em primeiro mandato, um “líder fraco”. Dado à palavra. Ao discurso. Ao sermão. Não tanto à “decisão”. Isto: apesar de um, bem “político”, perverso e contínuo, bloqueio por parte de congressistas republicanos. Objectivo: “Paralisar primeiro. Culpar Depois”. Para uma, larga, camada da população, representada por esse centro de infestação denominado por Fox News,  nada disto interessou. É que não obteve um, mais visivel, “resultado imediato”.

“Um líder fraco”: segundo a lógica, míope, mais ou menos generalizada da indústria informativae do ecrã omnipresente. Do sound bite. Da pose. Do gesto. Do, bem “americano”, “murro em cima da mesa”. Mentalidade que radica – se quisermos ser, unicamente, “objectivos” – no favorecimento, social, da cultura “económica”, embora precária, do “curto- prazo”. Que avalia – soluça – e carimba tudo apressadamente. É feed, ininterrupto, de lados B. O pormenor é dado “desinteressadamente”. Não tanto desenvolvido e integrado: compreendido. Apesar da disponibilidade do link: o contexto – a demora na explicação; numa real percepção do momento político – prende, durante “muito tempo”, o leitor à mesma página. E as receitas publicitárias, cada vez mais disseminadas – são criados, por dia e apenas através do WordPress, cerca de 100.000 blogues – valem, por esta razão, cada vez menos. “É preciso”, por isso, acelerar. Mesmo que tal signifique: não perceber.

Porque não, já agora, encurtarmos, em nome da “competitividade”, o tempo de governação? Para que possa, desta forma, adequar-se melhor à rapidez com que a “informação” – não tanto o “conhecimento” – tem, agora, que circular? Parece ser, mais ou menos, como o “capitalismo”. Os “dados”, cada vez “mais fora” da dimensão humana, “auto- regulam-se”.

O que poderemos considerar como excrescência é, agora, “conteúdo exclusivo”. Quase tudo é noticiado, espremido e pontuado: “transparency”. Exagerado. Segundo o espírito, multitask, de “eficácia” momentânea. Foi, de facto, uma veloz – quase arbitrária: alguém se dá ao trabalho de a tentar explicar? – mutação de valores.

Algum do “jornalismo- cidadão” perde, assim, moral relativamente ao processo. Na crítica, fácil e usual, ao “sensacionalismo dos média”. Se tudo era generalizado e os jornais metidos no mesmo saco: este ficou ainda maior. Em nome do post formatado para que seja melhor encontrado no motor de busca. Do networking. Da necessidade, “colectiva”, de trabalho – bastante “chinês”: Já começamos a preparar caminho - mal remunerado.

A velocidade determina, assim, a expectativa política. A tolerância relativa ao resultado. Obama é, na minha opinião e apesar de todo o escrutínio, dos drones, erros, impasses e más decisões, um líder mais forte do que aquilo que se tem vindo, normalmente, a admitir. Teve, inevitavelmente, que lidar com um irrealismo de novo tipo. Enfrentar o mercado, alargado, do comentário e da “conversa global”. A isto: gadget oblidge.

Não é, obviamente, uma vítima. Não é que em campanha não o tenha alimentado. Mas em vez da seta apontada, previsivelmente, ao suspeito do costume e com um, mais convincente, olhar em redor: talvez o desvalorizado “yes, we can” tivesse sido iluminado com o outro significado. E esse: é sem dúvida mais abrangente.


Um Homem “Desistente”

A – Pois ! Criticas a Internet ! Mas serves-te dela para escreveres.

B – A “Internet” ! Falas de alguma mulher? Se colocamos toda a “realidade” – para lhe escaparmos? – por trás de um visor…

A “internet” – é como apenas lhe consegue chamar; não a consegue conceber, ou imaginar, de outro modo – parece ser, para o transeunte número um, o alvo do número dois. Como fundamentalista que nunca deixará de ser: inventou para si próprio, tentando impô-la, uma abstracção – portanto: uma mentira – “inquestionável”. É “padre” que dá jeito.

O transeunte número um tem a capacidade, que radica numa incapacidade, de nos colocar perante um travão; um novo dilema: santificou, como exemplo – há outros -, Steve Jobs. Sacralizou tudo aquilo que apelida, convencendo-se, assim, de uma sofisticação imaginária, de “digital”. Essa aspiração. Era necessário: encontramo-nos em época de crise. Mas ele também a criou julgando ultrapassar-se. Este ingénuo afirmava, contudo, “não ser religioso”.

Não percebeu que, para além da forma, não existe diferença fulcral entre o que tenta salvar e proteger e aquilo a que chama de “tradicional”. Ou outra “arquitectura” qualquer. Pode tentar esquecer. Mas por mais próteses que idealize: o ser humano está lá como chave principal. Como “empecilho” original. Ambas integram pluralidades. São, como tudo sempre foi, criticaveis. Por esta razão: mutáveis. Porque modificáveis. De preferência: para melhor.

O transeunte número um não “alcança” que estaremos um dia numa outra fase. Em distinto lugar. Que não lhe adiantam os lapsos de memória. Não lhe serve de nada, por mais contemporâneo que precise de ser, a falta de perspectiva histórica. Defende-se do passado. Porque é, deste modo, que evita o futuro. Nada disso justifica, apesar de tudo, o facto de se ter convertido em desistente. Bem sei que não estamos em época de metáforas: mas este homem, no fundo, gosta é de marketing.

Há já algum tempo que o tinhamos percebido.

Deixem-no repetir.

 


O Público Está “Morto”

Senão: está a caminho de morrer. Espero que me perdoem o empréstimo nietzschiano - o que, nesta altura, pouca diferença fará: estamos em época de entronização do plágio em nome “colectivo” -: mas também somos nós, os indiferentes, que o estamos a matar. 48 é o número de trabalhadores “dispensados”.

- Print is Dead: este slogan, continuamente repetido para que se venha a  tornar, definitivamente, realidade, resulta de uma constatação? Ou, pelo contrário, de um desejo? De uma vontade de superação, de destruição, daquilo que se resolveu catalogar como “tradicional” (desculpemos. Mesmo que mal esgalhada: foi necessário encontrar uma narrativa para um outro comércio; para a “revolução”) ? De uma necessidade, ansiosa, de fuga e, por isto, de renovação?

- Digital Is The Future: propaganda que se generalizou desde o advento da internet. Monótona; cansativa; pouco criativa: não há marketeer que lhe resista. E, para lá das monetárias, que se aperceba das razões profundas dessa inquietação. De tão aproveitada: converteu-se em verdade presente. Continuamos, contudo, a ver, ainda, bastante papel. Ali: onde a informação, de qualidade, está visível. Não diluída. Não parece que nos afecte. Mas, se acontecer, conseguiremos ser, um pouco mais, tolerantes?  Menos apressados? Mais integrados e ambivalentes? Não esqueci: é- nos conveniente. Podemos, desta forma, olhar para o lado. Não gastamos dinheiro. “Estamos em época de crise”. De disseminação e desvalorização das receitas publicitárias – senhores: por isto mesmo -.  Além, claro, do “direito à informação”.

Porém: quantas vezes nos lembramos e quantas vezes esquecemos, o que é ligeiramente distinto, que de nada vale o “direito” a essa informação se ela estiver, também por nós, empobrecida? Que necessita, urgentemente, de financiamento para que nos “devolva” a democracia?

Em Portugal, ao contrário de países como França ou Espanha – mesmo que insuficiente -, não existiu discussão sobre o assunto. Quase que não foram organizados debates, programas de rádio ou de televisão. Sobre o que está a suceder ao jornalismo. Para além da frase feita. Do artigo de “opinião” do “guru da comunicação”. Em nome das pageviews: tiveram medo de nos ofender. Como se fossemos crianças amedrontadas. Com a possibilidade de perdermos a quota habitual de escapismo e entretenimento. Sem nunca darmos, absolutamente nada, em troca. Será que somos?

Existe, contudo, um obstáculo: esta tentativa de sacralização´- com todas as suas coordenadas; toda uma moral orientadora – de um império que se resolveu denominar como “digital”. Como se não houvesse nada, para além dele – como o temos agora -, que merecesse ser pensado ou avaliado. É esta certeza absoluta – este engano - que precisa de ser demolido. Questionado. Não para ser eliminado. Tarefa absurda e impossível. Mas para que seja alterado. Em direcção a uma cultura que não seja, apenas, a da valorização do sound- byte. Do curto prazo. Da irresponsabilidade pessoal. Para que se concretizem, um pouco melhor, os outros dois anúncios. Para que não se satisfaçam pelo facto de permanecerem em estado de utopia: “a sociedade do conhecimento” e - esse mesmo ! -: o “espírito de colaboração”.


O “processo” contra Lana Del Rey

O que é que cintila? O que é que se apresenta como estranho e, por esta razão, provoca irritação? O que a “isola” e se distingue em Lana Del Rey - ignorando, no texto presente e apesar de constituir assunto relevante, o “facto” de simbolizar, ou não, “produto da indústria” – para que seja o alvo, escolhido, do momento? Surgiu uma intuição: uma certa aparência de distância. Não se assemelhar à outra “embalagem”, mais furtiva e mediática, da “estação”: a do grupo indefinido, sorridente, “colaborativo”, com pose modesta e gesto inofensivo. Uma gama, mais polida e sofisticada, de elaboração publicitária.

As acusações, marcadas e agressivas, de “falsificação”, “embrulho” ou “falta de autenticidade” são importantes de um ponto de vista que discutirei em artigo que será, a partir deste, continuação. Fazem, contudo, menos sentido num universo cultural onde o que impera é, exactamente, a fabricação. Se fosse essa a questão: Avril Lavigne – com toda uma máscara punk -, no reino da “pureza” do avatar, não teria, propriamente, “sobrevivido”. Passou no “teste”. Apesar da continua mutação. Faz sentido: parece, no fundo, banal e comum. Não perturba. O “erro” daquele tipo de avaliações e justificações - para melhor se poder atacar – é o de tentar iludir com a superfície. Radica em pretender considerar a “normalidade” ou a “humildade”, geralmente e no cosmos digital, como, basicamente, verdadeiras. Não apreendidas como aquilo que também são: invólucros porque exigências – passageiras, moralistas – do presente. Cuja manifestação não escapou, como sempre, ao marketing musical. A indiferenciação e, não raras vezes, a auto-negação são sobrevalorizadas. Não ofendem. Por isso: vendem melhor. No fundo: é menos “liberdade” do que se pretende propagandear. Há, claro e adicionalmente, a questão – intemporal; embora, por agora, quase “ideológica” – da inveja. Que olha, indiscriminadamente, para qualquer tipo de “corporação” como manifestação daquilo que gostava mas não consegue ter. “Nada para ninguém”. Mas desde quando existe “verdade”? Ou “realidade pura”? Se a vida humana é “representação”: fará sentido exigir-se exageradamente, ainda por cima da música pop, que não seja fantasia; “construção”? Apenas porque a tática e o fingimento pretendem assemelhar-se, agora e convenientemente, a uma “naturalidade”? Para que nos “aproximemos” de forma postiça? Mais falsos mas nivelados.

“Não existe” reflexo mais significativo desta obsessão pela fama do que Lady Gaga. Também, aliás, já com “inquérito” a decorrer. Aqui – admito – parece existir uma urgência por parte da cantora para tal se concretizar. Há “fantasma” sobre o tema, nas letras e no imaginário, no primeiro disco, de forma nada subtil, intitulado “The Fame”. Toda uma vitimização intercalada com um desejo, mais ou menos desesperado, em se atingir “o patamar”. Algo que, em lágrimas, chegou a confessar. É, exactamente e na minha opinião, a identificação por parte de um público, angustiado com a questão, que lhe confere visibilidade.

A época actual expandiu e distribuiu os tiques característicos da sociedade do espectáculo pré- internet. Mas, por esta razão, diminuiu as possibilidades de concretização do sucesso, individualmente, idealizado. Vendem-se menos discos. Restringiu-se a capacidade de mitificação. “Há”, portanto, que eliminar a “pretensão”. Se “toda a gente” participa: não poderá haver espaço para a “presunção”. Poder-se-ia chamar a isto: uma questão de “igualdade”. Contudo: estamos, em determinadas ocasiões, bem longe de se atingir os “direitos iguais”. Pelo contrário: a livre expressão é, socialmente, não muito permitida. “Direitos iguais”, na minha concepção, significa tolerância perante a inconstância, a variedade. Limitamo-nos à “igualdade”.

A rede social, a integração do leitor e usuário no jornal digital, a dinâmica de conversação através da “conectividade” tornaram mais visíveis - através de um, sôfrego, movimento, perpétuo, de escrutinio – esta necessidade de “demolição”.

Lana Del Rey é, também por este motivo, o mais recente objecto de santificação para se atingir a crucificação.. Um artista, “anteriormente” menos “condenado” à imediatez informativa e cultural, tinha, pelo menos, “espaço” para a edificação de um conceito mais alargado. Para uma, mais disponível, apreciação no espaço público. Contudo: o moralismo, a intolerância face ao que ousa mostrar-se como pouco integrado, os vestígios de uma sociedade menos democrática do aquilo que costuma aparentar, mais tarde ou mais cedo, acabariam por contra- atacar.

A ãnsia, generalizada, para se estar do outro lado do ecrã – que se veio a confirmar com o desenvolvimento, na internet, de toda uma gigantesca “indústria de conteúdos” -, as necessidades, puramente económicas, de um tipo de jornalismo que tinha deixado de o ser – convertendo-se em distribuidor do boato e do rumor – faziam o trabalho essencial. O “extravagante”, o “excêntrico” ou o “isolado”, adquirindo notoriedade, acabariam “julgados”, discriminados, subjugados pela droga; pelo álcool, algumas vezes presos, outras vezes mortos.

Mas neste momento “não se pode” esperar. O “linchamento” ocorre – em maior quantidade – à velocidade do fluxo noticioso. Não interessa tanto se Lana Del Rey desafina mais nesta, ou naquela, actuação. Parece-me, contudo, relevante que seja alvo seleccionado. Importa, por isso, questionar. A não ser, claro, que, para nos sentirmos mais elevados, nos dê, também, algum prazer. O álbum de estreia, Born to Die, foi editado nos últimos dias de janeiro de 2012. Mas o “caso” já foi iniciado. “Tem”, constantemente, que se justificar: “Mine is an unusual situation because I’m not naturally a polarizing or controversial person. And what I sing about is actually pretty balanced, pretty normal”, segundo uma entrevista dada à estação de rádio KROQ de Los Angeles. Sempre foi assim. Martela-se, apenas, agora com mais força. Com a ajuda de mais gente. Parece-me: de gente que se tornou, um pouco, mais feroz. É o lado negro do “espírito de colaboração”.

 Afonso Duarte Pimenta


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